Você provavelmente já sentiu aquela fisgada chata na base das costas depois de um dia longo. Talvez seja apenas um incômodo que aparece quando você se levanta da cadeira. Ou quem sabe seja aquela dor aguda que te impede de amarrar o sapato pela manhã. Se você se identifica, saiba que não está sozinho nessa batalha silenciosa. A nossa coluna não foi desenhada para ficar estática por oito, dez ou doze horas seguidas, mas a vida moderna nos empurrou para essa realidade.
O corpo humano é uma máquina feita para o movimento. Quando você para, engrenagens importantes começam a enferrujar. O sedentarismo não é apenas sobre não ir à academia; é sobre a falta de movimento funcional ao longo do dia.[1][2] Ficar sentado trava a sua circulação, desliga músculos vitais e coloca uma pressão absurda sobre os discos da sua coluna.[1][2][3] É como deixar um carro parado na garagem por meses e esperar que ele ligue perfeitamente na primeira tentativa.
A boa notícia é que esse cenário é reversível. Você não precisa virar um atleta olímpico da noite para o dia para se livrar da dor. O segredo mora na consistência e na compreensão de como sua coluna funciona. Quebrar o ciclo do sedentarismo e da dor lombar exige mais inteligência do que força bruta. Vamos conversar sobre o que está acontecendo aí dentro de você e traçar um plano real para mudar essa história.
O Que Realmente Acontece Quando Você Senta (Anatomia Descomplicada)
Muitas pessoas acham que sentar é uma posição de descanso para o corpo. Essa é uma das maiores armadilhas que você pode cair. Quando você se joga no sofá ou na cadeira do escritório, a pressão sobre os seus discos lombares aumenta drasticamente em comparação a quando você está em pé. A sua coluna lombar perde a curvatura natural, chamada lordose, e isso empurra o conteúdo dos discos para trás, pressionando estruturas sensíveis.
Para piorar, a posição sentada cria um desequilíbrio muscular imediato.[1] Os músculos da frente do seu quadril, os flexores, ficam encurtados e tensos porque passam o dia todo dobrados. Enquanto isso, os músculos de trás, que deveriam sustentar sua postura, ficam esticados e fracos.[1][3][4] É uma guerra de cabo de guerra onde a sua coluna lombar é a corda que está sendo puxada e torcida. Entender essa mecânica é o primeiro passo para parar de se sabotar involuntariamente.
Além da questão muscular, existe o fator da nutrição dos tecidos. Seus discos intervertebrais não têm vasos sanguíneos diretos como os músculos. Eles dependem de um mecanismo de esponja: quando você se move, os fluidos entram e saem, levando nutrientes e retirando toxinas. Se você não se mexe, seus discos literalmente passam fome e secam, tornando-se frágeis e propensos a lesões.
A “Amnésia” dos Glúteos
Você já ouviu falar em amnésia glútea? Parece um termo engraçado, mas é um problema sério e muito comum no meu consultório. Quando você passa horas sentado em cima do seu bumbum, você inibe a ativação neural dessa musculatura. O seu cérebro “esquece” como contrair os glúteos de forma eficiente. E por que isso importa para a sua dor nas costas? Porque os glúteos são os principais estabilizadores da sua bacia e da sua coluna.
Se os seus glúteos não fazem o trabalho pesado de sustentar o seu tronco e impulsionar seus passos, adivinha quem sobra para fazer hora extra? Exatamente, a sua lombar.[2][4][5][6] Os músculos paravertebrais, que são pequenos e feitos para ajustes finos, acabam tendo que carregar uma carga para a qual não foram projetados. O resultado é aquela sensação de cansaço extremo e queimação na lombar ao final do dia.
Reativar esses músculos não acontece apenas fazendo agachamentos na academia.[2] Você precisa ensinar o seu sistema nervoso a recrutar essa musculatura durante o dia. Ficar de pé, contrair voluntariamente os glúteos e caminhar com passadas firmes são maneiras de “acordar” essa região. Sem glúteos fortes e ativos, sua lombar continuará sendo a vítima de um sistema de suporte falho.
O Problema da Hidratação Discal
Imagine que os discos entre as suas vértebras são como pequenas almofadas de gel cheias de água. Elas servem para amortecer o impacto e permitir que você se dobre e gire. Durante o dia, a gravidade e o peso do corpo expulsam um pouco dessa água. Durante a noite, ou quando você se deita, eles se reidratam. Mas esse processo de reabsorção de água depende fundamentalmente de ciclos de carga e descarga, ou seja, movimento.
O sedentarismo interrompe esse ciclo vital. Se você fica na mesma posição por horas, a compressão é constante e unidirecional. O líquido é expulso, mas não tem chance de voltar. Com o tempo, o disco perde altura e flexibilidade. Um disco desidratado é como um pneu murcho: ele não amortece bem os impactos e a chance de a borda rasgar (o que chamamos de fissura ou hérnia) aumenta exponencialmente.
Beber água ajuda, mas não resolve se não houver movimento mecânico para bombear esse líquido para dentro da estrutura. Movimentos de torção leve, caminhar e espreguiçar funcionam como uma bomba hidráulica natural. Você precisa incorporar esses movimentos na sua rotina não como exercício, mas como manutenção básica das suas peças. Pense nisso como lubrificar as engrenagens para evitar que elas ranjam.
Bloqueio da Circulação e Acúmulo de Toxinas
A dor nem sempre vem de uma lesão estrutural grave; muitas vezes, ela é química. Quando um músculo fica contraído estaticamente por muito tempo para sustentar uma má postura, ele comprime os pequenos vasos sanguíneos que passam por ele. Isso reduz o fluxo de sangue oxigenado e impede a remoção de resíduos metabólicos, como o ácido lático.
Esse ambiente ácido irrita as terminações nervosas livres que moram no músculo e na fáscia. É isso que gera aqueles pontos gatilho, ou “nós”, que você sente ao apertar as costas. O tecido fica hipóxico, ou seja, sem oxigênio, e grita por socorro em forma de dor. O sedentarismo cria um pântano metabólico na sua região lombar, onde nada circula e tudo estagna.
A solução mais rápida para esse tipo de dor não é remédio, é fluxo sanguíneo. Calor local ajuda, massagem ajuda, mas nada supera a contração e relaxamento muscular rítmico. Uma caminhada de cinco minutos é capaz de lavar essa região, trazendo sangue novo e levando embora as substâncias irritantes. Você tem o analgésico mais poderoso do mundo dentro do seu corpo, mas precisa se mexer para ativá-lo.
O Ciclo Vicioso da Dor e Como o Cérebro te Engana
A dor é um mecanismo de defesa, não um defeito. Quando você torce o tornozelo, a dor te avisa para não pisar ali e permitir a cicatrização. Porém, na dor lombar crônica associada ao sedentarismo, esse sistema de alarme muitas vezes fica desregulado. O cérebro começa a interpretar qualquer desconforto como uma ameaça grave e dispara sinais de dor muito mais intensos do que a situação real exige.
Entramos então no ciclo medo-evitação. Você sente dor, então evita se mexer para proteger as costas. Ao não se mexer, seus músculos enfraquecem mais e suas articulações ficam mais rígidas.[1][2][3][4][7][8] Essa rigidez gera mais dor quando você tenta se mover novamente, o que reforça a ideia de que “minha coluna é frágil”. É um loop infinito que te puxa para baixo, tanto física quanto mentalmente.
Romper esse ciclo exige coragem e informação. Você precisa entender que “dor ao se mover” nem sempre significa “estou me machucando”. Muitas vezes, é apenas o seu corpo reclamando da rigidez, como uma dobradiça enferrujada que precisa ser usada para soltar. Precisamos reeducar não só os músculos, mas também o cérebro, mostrando que o movimento é seguro e curativo.
A Armadilha do Repouso Absoluto[2]
Antigamente, se você chegasse ao médico com dor nas costas, a receita era: “vá para a cama e fique deitado por uma semana”. Hoje sabemos que esse é um dos piores conselhos possíveis. O repouso absoluto acelera a atrofia muscular e a rigidez articular. Em apenas 24 horas de imobilidade total, você já começa a perder massa muscular significativa nos estabilizadores da coluna.
O repouso também aumenta a sensibilidade do sistema nervoso. Ficar deitado focado na dor faz com que você perceba cada pequena pontada com lente de aumento. Além disso, a falta de estímulo proprioceptivo (a percepção do corpo no espaço) deixa seus movimentos mais desajeitados quando você finalmente levanta, aumentando o risco de um novo travamento.
A diretriz atual é o “repouso relativo”. Isso significa evitar carregar sacos de cimento ou correr uma maratona, mas manter-se ativo nas tarefas diárias. Caminhar pela casa, fazer alongamentos leves e tentar manter a rotina normal dentro do limite do tolerável é fundamental. O movimento lubrifica, nutre e acalma o sistema nervoso. A cama deve ser usada apenas para dormir, não como tratamento.
O Efeito “Homem de Lata”[2]
Lembra do Homem de Lata do Mágico de Oz, que precisava de óleo para se mover? O sedentarismo transforma você nele. Nossas fáscias — o tecido conectivo que envolve todos os músculos e órgãos — são feitas para deslizar. Quando ficamos parados, a fáscia desidrata e fica pegajosa, criando aderências entre as camadas musculares.
Essa rigidez fascial faz com que você se sinta “preso” dentro do próprio corpo. Tentar se alongar dói porque os tecidos não deslizam, eles puxam. Isso gera uma tensão mecânica constante sobre as vértebras e os nervos. A sensação de estar travado pela manhã é um sinal clássico desse efeito. O corpo passa a noite imóvel e acorda rígido.
Para combater o efeito Homem de Lata, precisamos de movimento variado.[3] Não basta apenas caminhar em linha reta.[2] Precisamos girar, inclinar, agachar e alcançar objetos. Movimentos tridimensionais ajudam a soltar essas aderências fasciais e restaurar a fluidez. Quanto mais variados forem seus movimentos, mais livre e menos dolorido seu corpo será.
O Impacto Emocional: Frustração e Ansiedade[2]
Não podemos separar a cabeça do corpo. A dor lombar persistente drena a sua energia mental. É frustrante não conseguir brincar com os filhos, ter receio de dirigir ou não encontrar uma posição confortável no cinema. Essa frustração libera hormônios de estresse, como o cortisol, que, por sua vez, aumentam a tensão muscular e a percepção da dor.
A ansiedade sobre o futuro também pesa. “Será que vou ficar assim para sempre?”, “Será que vou precisar de cirurgia?”. Esses pensamentos catastróficos mantêm seu sistema nervoso em estado de alerta máximo, o que tensiona ainda mais a musculatura lombar. É comum ver pacientes que travam a coluna em momentos de grande estresse emocional, mesmo sem ter feito nenhum esforço físico.
Reconhecer esse componente emocional é libertador. Aceitar que dias ruins acontecem e que eles não significam que você piorou para sempre ajuda a baixar a guarda. Técnicas de respiração e relaxamento não são “coisa mística”, são ferramentas fisiológicas para diminuir o tônus muscular e acalmar a dor. Cuidar da mente é parte essencial do tratamento da lombar.
Estratégias de “Guerrilha” Contra o Sedentarismo no Home Office
Trabalhar em casa trouxe conforto, mas também eliminou aquelas caminhadas até o ponto de ônibus ou até a mesa do colega. O seu escritório virou uma armadilha de conforto. Para vencer a dor lombar nesse ambiente, você precisa de estratégias de guerrilha: táticas simples, rápidas e eficazes que você pode aplicar sem parar de trabalhar.
Não espere ter uma hora livre para “cuidar da coluna”. Isso raramente acontece. A estratégia deve ser integrada à sua rotina.[3] O objetivo é evitar que o corpo fique na mesma posição por tempo suficiente para causar danos.[8] Pense em “microdoses” de movimento ao longo do dia, em vez de uma única dose grande de exercício à noite.
Você precisa transformar seu ambiente de trabalho em um ambiente dinâmico. A cultura de ficar sentado “focado” por quatro horas seguidas é tóxica para sua produtividade e fatal para suas costas. Vamos ver como hackear seu dia a dia para manter a coluna saudável mesmo batendo metas e prazos.
A Estratégia dos Micromovimentos
A regra de ouro que uso com meus pacientes é: a melhor postura é sempre a próxima. Não existe uma postura perfeita para ficar 8 horas. O segredo é mudar. A cada 30 ou 40 minutos, o seu corpo precisa de um “reset”.[3] Isso não significa parar de trabalhar.[1] Significa atender o telefone em pé, espreguiçar os braços lá no teto enquanto lê um e-mail ou fazer rotações de tornozelo enquanto digita.
Esses micromovimentos impedem a estagnação dos fluidos e a fadiga muscular localizada. Configure um alarme no celular ou use aplicativos que te lembrem de se mexer. Quando o alarme tocar, levante-se por 30 segundos. Faça três agachamentos, gire o tronco para os lados ou simplesmente fique na ponta dos pés.
Parece pouco, mas somando esses 30 segundos várias vezes ao dia, você terá feito minutos valiosos de mobilização. Isso mantém a temperatura dos tecidos elevada e a viscosidade do fluido sinovial (o óleo das juntas) ideal. Você termina o dia com a sensação de corpo vivo, e não de corpo amassado.
Ergonomia Realista (Além da Cadeira Cara)
Muita gente gasta uma fortuna em cadeiras “gamer” ou ergonômicas e continua com dor. Por quê? Porque a cadeira não faz o trabalho de sustentar seu corpo sozinha. A ergonomia vai muito além do móvel. O monitor, por exemplo, é o chefe da sua postura. Se ele estiver baixo, seu pescoço vai cair e sua lombar vai arredondar para compensar. O topo da tela precisa estar na linha dos seus olhos.
Use livros, caixas ou suportes para elevar seu monitor ou notebook. Teclado e mouse devem estar em uma altura que permita seus cotovelos ficarem a 90 graus, relaxados ao lado do corpo, não lá na frente esticados. Se seus pés não tocam o chão firmemente, improvise um apoio com uma caixa de sapatos ou um maço de papel. Pés firmes dão estabilidade para a pelve.
Outra dica valiosa é variar onde você senta. Se possível, trabalhe uma hora na mesa, meia hora em pé (use uma bancada alta ou improvise com caixas sobre a mesa), ou até sente no chão por alguns minutos se tiver flexibilidade. Variar as superfícies obriga seu corpo a se adaptar e usar músculos diferentes, evitando a sobrecarga repetitiva.
Rotinas de Manhã e Noite: Preparar e Descomprimir
Como você começa e termina seu dia define como sua coluna vai se comportar. Pular da cama e sentar direto para tomar café é agressivo. Seu corpo vem de horas de imobilidade.[1][2][3] Crie uma rotina de 5 minutos de “acordar a coluna”. Deitado ainda, abrace os joelhos, balance para os lados, gire o quadril. Faça a posição do gato e da vaca (quatro apoios, curvando e estendendo a coluna).
Isso prepara os tecidos para a carga do dia. À noite, o objetivo é o oposto: descompressão. Depois de um dia sob a ação da gravidade, seus discos estão achatados. Deitar no chão com as pernas elevadas sobre uma cadeira ou na parede por 10 minutos é milagroso. Isso facilita o retorno venoso, relaxa o iliopsoas (aquele músculo do quadril que fica tenso) e permite que a lombar se apoie totalmente no chão.
Esses rituais simples funcionam como escovar os dentes: prevenção diária. Não espere a dor aparecer para fazer. Se você incorporar essa higiene da coluna na sua vida, a necessidade de intervenções pesadas diminui drasticamente. É um investimento de tempo minúsculo com um retorno gigantesco em qualidade de vida.
Mitos Comuns que Travam Sua Recuperação[7]
A desinformação é um dos maiores obstáculos no tratamento da dor lombar. Existem crenças populares que são passadas de geração em geração e que, na verdade, só atrapalham. Você já deve ter ouvido que “dor nas costas é coisa da idade” ou que “quem tem hérnia de disco nunca mais pode correr”. Essas “verdades” criam limitações mentais que se tornam físicas.
Muitos pacientes chegam ao consultório com medo de se mover porque acreditam que sua coluna é frágil como vidro. A coluna vertebral é uma estrutura robusta, forte e adaptável.[8] Ela foi feita para suportar cargas elevadas. O problema não é a estrutura em si, mas a falta de preparo dessa estrutura para a demanda que colocamos nela (ou a falta de demanda).
Vamos desconstruir alguns desses mitos agora mesmo. Libertar-se dessas crenças erradas é fundamental para que você perca o medo e volte a assumir o controle do seu corpo. O conhecimento correto é a primeira ferramenta terapêutica que utilizo.
“Preciso de uma Ressonância para Qualquer Dorzinha”
Existe uma obsessão moderna por exames de imagem. O paciente sente uma dor e quer logo uma ressonância magnética para “ver o que tem”. O problema é que a ressonância é boa demais: ela mostra tudo, inclusive o envelhecimento natural. Estudos mostram que uma grande porcentagem de pessoas sem dor nenhuma tem hérnias de disco, bicos de papagaio e degenerações visíveis nos exames.
Ver essas alterações no papel assusta. Você lê “degeneração discal” e acha que suas costas estão desmoronando. Na maioria das vezes, esses achados são como rugas na pele ou cabelos brancos: sinais de que o tempo passou, não necessariamente a causa da sua dor atual. A dor geralmente vem da função ruim (músculos fracos, rigidez), e isso não aparece na foto da ressonância.
Tratar o exame e não o paciente é um erro clássico. A menos que haja sinais de alerta graves (perda de força nas pernas, febre, perda de controle da bexiga), o exame de imagem inicial raramente muda o tratamento, que será baseado em movimento e fisioterapia. Focar na imagem gera medo e catastrofização, o que piora a dor. Foque na função, não na foto.
“Sou Velho ou Lesionado Demais para Começar”
Nunca é tarde para ganhar força e mobilidade. O corpo humano mantém a capacidade de adaptação (plasticidade) até o último dia de vida. Claro, se você tem 60 anos e nunca treinou, não vai começar fazendo levantamento de peso olímpico. Mas seus músculos ainda respondem ao estímulo, seus ossos ainda se fortalecem com a carga e seu sistema nervoso ainda aprende novos padrões.
Tenho pacientes de 80 anos que começaram o Pilates e relatam estar melhores do que quando tinham 60. A história de “tenho uma lesão antiga, não posso fazer nada” também é perigosa. Lesões antigas cicatrizam. O que sobra muitas vezes é a proteção excessiva daquela área.
Começar devagar, com orientação profissional, é a chave. O corpo adora desafios progressivos. Se você der o estímulo certo, na dose certa, ele vai se adaptar. A inatividade é o que acelera o envelhecimento e a incapacidade, não o exercício. O movimento é a fonte da juventude da sua coluna.
“Fortalecer o Abdômen Resolve Tudo”
“Faça abdominais para proteger as costas”. Essa frase é repetida à exaustão, mas é uma meia verdade. Ter um abdômen forte é importante, sim, mas fazer centenas de abdominais tradicionais (aqueles de levantar o tronco) pode até piorar sua dor lombar se feito de forma errada, aumentando a pressão nos discos.
O que você precisa é de um “Core” funcional.[2] O Core não é só o “tanquinho”. Ele envolve o diafragma, os músculos do assoalho pélvico, os multífidos (lá nas costas) e os oblíquos. Eles funcionam como um cinturão natural que estabiliza a coluna quando você se move. Eles precisam trabalhar juntos, de forma coordenada.
Exercícios de prancha, perdigueiro e estabilização são muito mais eficazes do que os abdominais clássicos. E mais importante: o Core precisa aprender a ativar automaticamente antes de você pegar um peso ou fazer um movimento brusco. O treino deve focar nessa “inteligência” muscular, não apenas em queimar a barriga.
O Papel Invisível da Nutrição e Hidratação na Coluna
Você é o que você come e bebe, e sua coluna não foge a essa regra. Muitas vezes focamos tanto na mecânica — sentar, levantar, alongar — que esquecemos da química. Os tecidos da sua coluna precisam de matéria-prima de qualidade para se reparar. Se você vive à base de alimentos ultraprocessados e pouca água, está dificultando o trabalho de recuperação do seu corpo.
A inflamação crônica de baixo grau, causada por uma dieta ruim, mantém seus tecidos em estado de alerta. Isso significa que qualquer pequeno estresse mecânico pode desencadear uma crise de dor desproporcional. Nutrir o corpo é preparar o terreno para que o exercício funcione.
Não precisa virar o “chato da dieta”, mas pequenas mudanças estratégicas podem acelerar muito o alívio da dor. Vamos olhar para o seu prato e para o seu copo com a visão de quem quer uma coluna blindada.
Água: O Melhor Amigo do Seu Disco
Já falamos sobre como os discos precisam de água para manter a altura e o amortecimento. Mas essa água precisa vir de algum lugar. Se você passa o dia tomando café e refrigerante, e quase nada de água pura, você está cronicamente desidratado. O café é diurético, o que pode piorar a situação se não for compensado.
Um disco hidratado é robusto e elástico. Um disco seco é quebradiço e rígido. A conta é simples: beba água consistentemente ao longo do dia. Não espere ter sede. A sede já é um sinal de alerta do corpo. Monitore a cor da sua urina; ela deve ser amarelo-clara.
Além da água, o colágeno é uma proteína estrutural importante para os anéis fibrosos do disco. Vitamina C é essencial para a síntese de colágeno. Então, aquele suco de limão ou laranja (sem açúcar) junto com a água pode ser uma ótima estratégia nutricional para a saúde discal.
Alimentos Anti-inflamatórios x Inflamatórios
A dor é um processo inflamatório. Se você come muito açúcar, farinha branca, óleos vegetais refinados e embutidos, você está jogando gasolina na fogueira. Esses alimentos aumentam os marcadores inflamatórios no sangue, tornando seu corpo mais sensível à dor.
Por outro lado, incluir cúrcuma, gengibre, peixes ricos em ômega-3 (como sardinha e atum), nozes e vegetais verde-escuros ajuda a modular essa inflamação. Pense nesses alimentos como “remédios naturais” que você ingere todo dia. Eles ajudam a diminuir a irritação nos nervos e facilitam a recuperação muscular após o exercício.
Experimente reduzir o açúcar e os industrializados por duas semanas. Muitos pacientes relatam uma diminuição na intensidade da dor articular apenas com essa mudança, antes mesmo de começar a fisioterapia. O ambiente químico do seu corpo importa tanto quanto o físico.
Controle de Peso Sem Obsessão
O excesso de peso, especialmente a gordura abdominal, altera o centro de gravidade do corpo. A barriga puxa a coluna lombar para frente, aumentando a curvatura e a pressão nas facetas articulares. Cada quilo extra na frente representa uma carga multiplicada na alavanca da sua coluna atrás.
Porém, o foco não deve ser a estética ou a obsessão pela magreza. O foco é a funcionalidade. Perder alguns quilos alivia a carga mecânica constante que seus discos sofrem 24 horas por dia. É pura física. Menos carga significa menos desgaste.
Além da questão mecânica, o tecido adiposo (gordura) é metabolicamente ativo e libera substâncias pró-inflamatórias. Reduzir a gordura corporal ajuda a diminuir a inflamação sistêmica. Combine uma alimentação melhor com a movimentação que propusemos, e o peso se ajustará naturalmente como consequência de um estilo de vida mais saudável, aliviando suas costas duplamente.
Terapias Aplicadas e Indicadas[2][5]
Para fechar nossa conversa, é importante saber que você não precisa fazer tudo sozinho. Existem profissionais e técnicas específicas que aceleram muito esse processo de quebra do ciclo da dor. Como fisioterapeuta, vejo resultados incríveis quando combinamos a mudança de hábitos do paciente com terapias direcionadas.
O Pilates clínico é, sem dúvida, um dos maiores aliados. Diferente do Pilates de academia focado em fitness, o clínico foca na estabilidade segmentar, ensinando você a controlar cada vértebra e a ativar o Core profundo (o tal cinturão natural) enquanto move braços e pernas. É uma reeducação do movimento.[7]
A Osteopatia e a Quiropraxia são excelentes para as fases de travamento agudo. Elas ajudam a devolver a mobilidade para articulações que estão bloqueadas, aliviando a dor imediata e permitindo que você volte a se mover mais rápido. Mas lembre-se: elas “destravam a porta”, mas é o exercício que “mantém a porta aberta”.
O método McKenzie (MDT) é fantástico para quem tem hérnia de disco ou dores irradiadas. Ele usa movimentos repetitivos específicos para centralizar a dor e empurrar o conteúdo do disco de volta para o lugar, além de ensinar o paciente a se autotratar em crises futuras.
A Reeducação Postural Global (RPG) trabalha as cadeias musculares inteiras, alongando o que está curto e fortalecendo o que está fraco, tudo ao mesmo tempo, com foco na respiração. É ótimo para quem tem desvios posturais fixos que geram dor.
Por fim, a Liberação Miofascial (manual ou com instrumentos) ajuda a soltar aquelas aderências do “Homem de Lata”, melhorando a circulação e o deslizamento dos tecidos.
O caminho para uma vida sem dor lombar não é linear, mas é totalmente possível. Comece hoje com o básico: levante-se mais, beba água e perca o medo de se mover. Sua coluna é forte, ela só precisa que você lembre a ela como funcionar. Vamos nessa?