Você provavelmente já ouviu aquela frase clássica de que a beleza dói e talvez tenha aceitado isso como uma verdade absoluta ao calçar seus sapatos favoritos. Nós fisioterapeutas vemos diariamente no consultório o resultado dessa escolha estética que muitas vezes cobra um preço alto da sua saúde musculoesquelética. Não estou aqui para proibir você de usar aquele scarpin maravilhoso em uma festa ou reunião importante. Meu objetivo é fazer você entender exatamente como sua estrutura corporal reage a essa elevação para que você possa tomar decisões mais conscientes e proteger seu corpo.

Quando você coloca um salto alto você muda instantaneamente a engenharia natural do seu esqueleto e obriga seus músculos a trabalharem em dobro apenas para manter você em pé. Essa adaptação forçada não afeta apenas os seus pés ou calcanhares como muitos pensam. É uma reação em cadeia que sobe pelas pernas passa pelos joelhos chega ao quadril e modifica a posição de toda a sua coluna vertebral até a base do crânio. A dor que você sente no final do dia não é apenas cansaço é um sinal de alerta de tecidos que estão sendo comprimidos e estirados além do limite fisiológico.

Entender a biomecânica e os riscos envolvidos é o primeiro passo para prevenir lesões crônicas que podem acompanhar você por anos. Quero compartilhar com você o que acontece nos bastidores da sua anatomia e oferecer ferramentas práticas para minimizar esses danos. Vamos conversar de forma franca sobre como equilibrar a elegância que você deseja com a funcionalidade que seu corpo precisa para se manter saudável e sem dor a longo prazo.

A biomecânica alterada: o que muda quando você eleva o calcanhar

O deslocamento do centro de gravidade para frente

O corpo humano foi projetado para distribuir o peso de forma equilibrada entre o calcanhar e a ponta do pé quando estamos descalços ou com sapatos baixos. Ao elevar o retropé com um salto você joga drasticamente o seu centro de gravidade para frente e obriga seu corpo a encontrar uma nova forma de não cair de cara no chão. Essa inclinação anterior altera todo o seu eixo de equilíbrio e exige que os músculos da panturrilha e da coxa fiquem em contração constante mesmo quando você está parada.

Para compensar essa projeção do tronco para frente você instintivamente joga os ombros para trás numa tentativa de reequilibrar a distribuição de massa. Esse cabo de guerra muscular gera uma tensão desnecessária que consome muita energia e fadiga sua musculatura postural muito mais rápido do que o normal. Você percebe isso claramente quando tira os sapatos e sente aquele alívio imediato como se seu corpo finalmente pudesse desligar um interruptor de alerta que estava ligado o tempo todo.

Essa alteração no eixo gravitacional não é inofensiva pois ela muda os vetores de força que atuam sobre cada articulação da sua perna. O que deveria ser uma estrutura de suporte relaxada torna-se uma estrutura rígida e tensa pronta para falhar se houver qualquer movimento brusco. Manter o equilíbrio nessa posição antinatural exige um controle neuromotor fino que se perde com o cansaço ao longo das horas o que explica por que os tropeços são mais comuns no final da festa.

A sobrecarga excessiva nos metatarsos

A anatomia do pé divide a carga do corpo de modo que o calcâneo suporte a maior parte do peso enquanto os metatarsos na frente servem mais para propulsão e equilíbrio. O uso do salto alto inverte essa lógica biológica de maneira agressiva e perigosa para a integridade dos seus ossos. Quanto mais alto o salto maior é a porcentagem do seu peso corporal que é transferida diretamente para as cabeças dos metatarsos que são ossos finos e não preparados para essa função de suporte de carga total.

Imagine que ao usar um salto agulha de dez centímetros você pode estar jogando quase noventa por cento do seu peso corporal para a ponta dos pés. Essa pressão excessiva esmaga a gordura plantar natural que existe ali para proteção e pode levar a inflamações severas nas articulações dos dedos chamadas de metatarsalgias. A sensação de queimação na “almofada” do pé é o grito de socorro dessas estruturas que estão sendo comprimidas contra o chão duro sem o amortecimento adequado.

Com o tempo essa sobrecarga contínua pode causar fraturas por estresse que são microfraturas nos ossos causadas pela fadiga do material ósseo e não por um trauma agudo. Além disso a pele da região reage a esse atrito constante produzindo calosidades grossas como uma forma de defesa. Você precisa entender que essa calosidade não é apenas estética ela é a prova física de que a mecânica da sua pisada está sofrendo uma agressão contínua.

O encurtamento adaptativo da cadeia posterior

O corpo humano é uma máquina adaptativa incrível e se você usa saltos com muita frequência ele entende que aquela é a sua nova posição “normal”. A musculatura da panturrilha conhecida como tríceps sural permanece em uma posição encurtada durante todo o tempo em que você está de salto pois o calcanhar nunca toca o chão completamente. Com o passar dos meses e anos as fibras musculares e o tendão de Aquiles podem sofrer um encurtamento real e estrutural perdendo a capacidade elástica de se alongar.

Isso gera um ciclo vicioso onde você começa a sentir desconforto ao andar descalça ou com sapatos baixos porque sua musculatura posterior da perna está tão retraída que “puxa” estruturas quando você tenta apoiar o calcanhar no chão. Muitas pacientes relatam que se sentem mais confortáveis de salto do que de tênis e isso não é um bom sinal mas sim um indicativo de retração muscular severa. Essa perda de flexibilidade afeta a sua marcha e a forma como você caminha limitando a amplitude do passo e a funcionalidade do tornozelo.

Esse encurtamento não para na panturrilha ele sobe pelos isquiotibiais na parte de trás da coxa e chega até a sua lombar. Nós chamamos isso de cadeia posterior e quando um elo dessa corrente está curto ele tensiona todos os outros elos conectados. Portanto aquela dor nas costas que você sente pode ter origem direta na falta de flexibilidade da sua panturrilha causada pelo uso crônico de saltos que impedem o alongamento natural desses tecidos.

A coluna vertebral e as compensações posturais inevitáveis

A hiperlordose lombar e o aumento da pressão discal

A coluna lombar possui uma curvatura natural chamada lordose que serve para absorver impactos mas o salto alto exacerba essa curva de maneira patológica. Para não cair para frente devido ao deslocamento do centro de gravidade você empina o bumbum e arqueia as costas excessivamente criando o que chamamos de hiperlordose. Essa posição fecha o espaço por onde passam os nervos e comprime as facetas articulares das vértebras umas contra as outras gerando atrito e inflamação.

Essa postura de “bumbum empinado” pode parecer esteticamente agradável para alguns padrões de moda mas biomecanicamente é um desastre para os seus discos intervertebrais. A pressão na parte posterior dos discos aumenta significativamente o que favorece o desgaste precoce e até mesmo o surgimento de hérnias de disco em pessoas predispostas. Os músculos paravertebrais que sustentam a coluna ficam em espasmo constante tentando segurar essa posição forçada o que resulta naquela dor cansada e queimada na região da cintura ao final do dia.

Você deve notar que ao tirar o salto a vontade imediata é de dobrar o corpo para frente ou sentar curvada. Isso é o seu corpo tentando desesperadamente abrir os espaços intervertebrais que ficaram fechados e comprimidos por horas. Ignorar essa dor lombar recorrente associada ao uso de calçados inadequados é um caminho curto para desenvolver artroses e degenerações discais que poderiam ser evitadas com a correção postural e a moderação no uso.

Compensações cervicais e a tensão no pescoço

Nossa coluna é um sistema interligado e o que acontece na base afeta diretamente o topo. Quando a lordose lombar aumenta para compensar o desequilíbrio do salto a coluna torácica tende a ficar mais rígida e a coluna cervical precisa se ajustar para manter o olhar na linha do horizonte. Isso geralmente resulta numa anteriorização da cabeça onde o pescoço se projeta para frente aumentando o peso relativo da cabeça sobre os ombros e a tensão na musculatura do trapézio.

Muitas mulheres sofrem de dores de cabeça tensionais e rigidez na nuca sem associar esses sintomas ao calçado que usam todos os dias no trabalho. A tensão sobe como uma onda partindo da base instável dos pés passando pela lombar rígida e estourando na região cervical. O esforço muscular para manter a cabeça equilibrada sobre uma coluna desalinhada cria pontos de gatilho dolorosos nos ombros e no pescoço que não melhoram apenas com remédios se a causa mecânica não for tratada.

É fundamental que você perceba essa conexão entre os seus pés e o seu pescoço durante a sua rotina. Se você sente que seus ombros estão sempre elevados perto das orelhas ou que seu pescoço está travado verifique se a sua postura de base não está sendo sabotada pelo salto. O alinhamento visual do horizonte é prioridade para o sistema nervoso central e ele sacrificará o conforto do seu pescoço para manter seus olhos nivelados custe o que custar para a sua musculatura.

O sacro e a alteração na base da coluna

O osso sacro é a base triangular onde a coluna repousa e se conecta com a bacia e sua posição determina o alinhamento de todas as vértebras acima dele. O uso de saltos altos provoca uma anteversão pélvica que é o giro do quadril para frente mudando o ângulo de base do sacro. Imagine construir um prédio sobre uma fundação torta é exatamente isso que acontece com sua coluna quando a base pélvica está inclinada de forma incorreta.

Essa alteração na posição da pelve afeta também a articulação sacroilíaca que une a coluna ao quadril e pode gerar dores profundas na região glútea que muitas vezes são confundidas com ciático. A mobilidade dessa articulação é reduzida pela tensão muscular e pelo bloqueio mecânico causado pela postura inadequada. Mulheres que já têm predisposição a dores nessa região sentem um agravamento imediato dos sintomas ao passarem muito tempo sobre saltos.

Além disso a musculatura do assoalho pélvico e os abdominais profundos perdem sua eficiência de estabilização quando a pelve está em anteversão excessiva. O abdômen se projeta para frente criando uma “barriguinha” postural que não é gordura mas sim flacidez da parede abdominal causada pelo mau posicionamento ósseo. Recuperar o posicionamento neutro da pelve é essencial não só para a coluna mas também para a função correta dos órgãos internos e da musculatura abdominal.

Joelhos e tornozelos: as articulações que sofrem em silêncio

A síndrome da dor patelofemoral e o desgaste da cartilagem

Os joelhos são as dobradiças que conectam as alavancas do seu corpo e sofrem um aumento brutal de pressão interna quando você caminha de salto alto. Estudos biomecânicos mostram que a força de compressão na articulação patelofemoral aumenta significativamente porque o quadríceps precisa fazer muito mais força para esticar o joelho. Isso empurra a patela contra o fêmur com violência a cada passo desgastando a cartilagem que reveste esses ossos.

Esse atrito constante é um dos principais fatores para o desenvolvimento da condromalácia patelar aquele “amolecimento” da cartilagem que causa estalos e dor ao subir escadas ou agachar. O salto alto mantém o joelho em uma leve flexão durante a fase de apoio da marcha o que impede o bloqueio articular eficiente e sobrecarrega o mecanismo extensor. Você sente isso como uma dor na frente do joelho ou uma sensação de areia dentro da articulação.

Para mulheres que já possuem algum grau de artrose ou desgaste no joelho o salto alto atua como um acelerador do processo degenerativo. A alteração do vetor de força não afeta apenas a frente do joelho mas também o compartimento interno aumentando o risco de deformidades em varo ou valgo. Proteger seus joelhos significa reduzir a frequência com que você submete essa articulação a pressões para as quais ela não foi desenhada.

Instabilidade ligamentar e o risco aumentado de entorses

O tornozelo é desenhado para ser estável quando o pé está plano no chão com uma base larga de suporte. Ao elevar o calcanhar você coloca o tornozelo em uma posição chamada flexão plantar que é mecanicamente muito mais instável e vulnerável a torções laterais. Os ligamentos que seguram o tornozelo ficam em tensão máxima e qualquer irregularidade no piso pode provocar uma virada de pé súbita resultando em lesões ligamentares dolorosas e de recuperação lenta.

O salto tipo agulha agrava esse cenário pois a base de contato com o solo é minúscula exigindo um equilíbrio de trapezista a cada passo. Quando ocorre uma entorse de tornozelo usando salto a alavanca gerada pela altura do sapato multiplica a força da torção podendo causar fraturas no maléolo ou rompimento total de ligamentos. A recuperação dessas lesões costuma ser demorada e deixa o tornozelo frouxo predispondo a novas entorses no futuro criando um tornozelo cronicamente instável.

A propriocepção que é a capacidade do corpo de saber onde o pé está no espaço fica prejudicada. Você perde a sensibilidade do terreno e a resposta rápida dos reflexos que evitariam a torção. Fortalecer os músculos fibulares na lateral da perna é crucial para quem usa salto mas a prevenção real envolve escolher sapatos que ofereçam uma base de calcanhar mais larga permitindo que o tornozelo trabalhe com mais segurança.

A restrição de movimento na articulação talocrural

A articulação talocrural responsável pelo movimento de subir e descer o pé perde amplitude de movimento com o uso habitual de saltos altos. Como o pé fica travado em ponta para baixo a capacidade de fazer a dorsiflexão trazer a ponta do pé para cima diminui progressivamente. Essa rigidez articular altera a forma como você caminha mesmo quando está descalça obrigando você a dar passos mais curtos ou a compensar o movimento com o quadril.

Essa perda de mobilidade não é apenas muscular é capsular ou seja a cápsula que envolve a articulação encolhe e fica rígida. Recuperar essa amplitude exige trabalho manual intenso e exercícios específicos de mobilização que muitas vezes são desconfortáveis. Um tornozelo rígido não absorve impacto adequadamente transmitindo o choque da pisada diretamente para o joelho e para a coluna.

Manter a articulação talocrural móvel é essencial para a saúde de todo o membro inferior. Quando você perde essa mobilidade a bomba muscular da panturrilha que ajuda o sangue a voltar para o coração também funciona pior favorecendo inchaços e problemas circulatórios. Portanto o impacto da rigidez do tornozelo vai além da parte óssea afetando também o sistema vascular e linfático das suas pernas.

Patologias específicas dos pés causadas pelo uso crônico

Hallux Valgus: entendendo a formação do joanete

O famoso joanete tecnicamente chamado de Hallux Valgus não é apenas uma questão genética embora a hereditariedade influencie. O formato bicudo da maioria dos sapatos de salto alto espreme os dedos uns contra os outros forçando o dedão a se desviar em direção aos dedos menores. Essa compressão constante força a articulação da base do dedão para fora criando aquela proeminência óssea dolorosa e antiestética que conhecemos bem.

Uma vez que o desvio começa a biomecânica do dedo muda e o tendão que deveria puxar o dedo para baixo começa a puxá-lo cada vez mais para o lado agravando a deformidade. É um processo lento e progressivo que muitas vezes só percebemos quando a dor se torna insuportável ou quando nenhum sapato fechado serve mais. A articulação inflamada fica vermelha inchada e sensível a qualquer toque tornando o ato de calçar sapatos um martírio diário.

O tratamento conservador pode aliviar a dor mas não reverte a deformidade óssea que muitas vezes exige cirurgia para correção. O melhor caminho é evitar sapatos de bico fino que aprisionam os dedos e optar por modelos com a caixa dos dedos mais larga (wide toe box). Seus dedos precisam de espaço para se espalhar naturalmente ao pisar e negar esse espaço é convidar o joanete a se instalar nos seus pés.

Fascite plantar e a dor da primeira pisada

A fáscia plantar é um tecido fibroso grosso que conecta o calcanhar aos dedos e sustenta o arco do pé funcionando como um elástico natural. O uso de salto alto mantém essa fáscia em uma posição encurtada e tensa durante todo o dia. Quando você dorme e o pé relaxa a fáscia tenta cicatrizar nessa posição curta e ao pisar no chão pela manhã ela é estirada bruscamente causando microlesões e aquela dor aguda clássica nos primeiros passos do dia.

Essa inflamação crônica na inserção da fáscia no osso do calcanhar pode levar com o tempo à formação do esporão de calcâneo uma calcificação óssea no local da tração excessiva. A dor da fascite plantar pode ser incapacitante limitando suas atividades diárias e impedindo a prática de exercícios físicos. É uma dor teimosa que exige paciência e tratamento consistente para desaparecer.

O salto alto altera a distribuição de carga no arco plantar sobrecarregando a estrutura da fáscia que não foi feita para trabalhar sob tal tensão. Alternar a altura dos calçados e realizar massagens na planta do pé são medidas simples que ajudam a manter a elasticidade desse tecido. Ignorar a dor na sola do pé é garantir que ela se torne crônica e muito mais difícil de tratar no futuro.

Neuroma de Morton e a compressão nervosa digital

O Neuroma de Morton é um espessamento do tecido ao redor de um nervo que passa entre os metatarsos geralmente entre o terceiro e o quarto dedo do pé. A causa principal é a compressão lateral causada por sapatos apertados somada à carga excessiva na ponta do pé gerada pelo salto alto. O nervo é esmagado entre os ossos e reage inflamando e aumentando de tamanho o que gera mais dor e compressão num ciclo vicioso.

Os sintomas são muito característicos parecendo que você está pisando em uma pedra ou bolinha de gude acompanhados de queimação choque e dormência nos dedos. A dor costuma aliviar ao tirar o sapato e massagear a região mas retorna assim que a compressão é restabelecida. É uma condição extremamente desconfortável que afeta diretamente a qualidade de vida e o humor de quem sofre com ela.

Muitas pacientes chegam ao consultório achando que têm um problema circulatório ou muscular quando na verdade é uma compressão nervosa mecânica pura. O tratamento envolve necessariamente a mudança do tipo de calçado para modelos mais largos e com menor inclinação além do uso de palmilhas específicas para abrir o espaço entre os ossos e aliviar a pressão sobre o nervo. Sem mudar o calçado o nervo continuará sendo agredido diariamente.

O guia prático de sobrevivência para quem não abre mão do salto

A escolha inteligente do modelo e a base de suporte

Se você vai usar salto precisa aprender a escolher estrategicamente o modelo que causa menos danos à sua estrutura. Saltos tipo plataforma ou Anabela são muito mais amigos da sua biomecânica do que os saltos finos pois distribuem a pressão por toda a planta do pé e não apenas no antepé. Além disso a diferença de altura entre o calcanhar e a ponta (o drop) costuma ser menor reduzindo o encurtamento da panturrilha.

Sempre prefira saltos com bicos mais arredondados ou quadrados em vez dos bicos finos triangulares para dar liberdade aos seus dedos. Verifique a estabilidade do calcanhar: um salto grosso oferece uma base sólida que diminui o esforço muscular para manter o equilíbrio protegendo seus tornozelos de entorses. Saltos meia-pata na frente também ajudam a diminuir a inclinação real do pé oferecendo altura sem forçar tanto a curvatura do arco plantar.

Outra dica valiosa é comprar sapatos no final do dia quando seus pés estão naturalmente mais inchados. Se o sapato estiver justo de manhã ele certamente vai torturar você à noite quando seus pés dilatarem pelo acúmulo de líquidos. O conforto deve ser o critério principal de compra nunca compre um sapato apertado na esperança de que ele vá lacear isso raramente acontece sem antes machucar muito você.

A regra da alternância e o descanso ativo

O corpo humano odeia repetição de padrões nocivos por isso a melhor estratégia é variar a altura dos sapatos ao longo da semana. Evite usar salto alto dois dias seguidos alterne com sapatos de salto médio tênis e sapatilhas com um pouco de suporte. Essa variação obriga sua musculatura a trabalhar em diferentes amplitudes evitando o encurtamento crônico e dando tempo para os tecidos se recuperarem da sobrecarga.

Adote o hábito do “sapato de trânsito”. Vá para o trabalho de tênis ou um calçado confortável e troque pelo salto apenas quando chegar ao escritório ou quando for estritamente necessário para uma reunião. Se você trabalha sentada tire os sapatos debaixo da mesa e faça movimentos circulares com os pés para estimular a circulação. Reduzir o tempo de exposição ao fator agresssor é a forma mais inteligente de prevenção.

Se tiver um evento social onde ficará horas em pé tente sentar-se por alguns minutos a cada hora para aliviar a pressão nos discos da coluna e na circulação das pernas. Esse descanso ativo permite que a cartilagem se reidrate e que a musculatura relaxe o espasmo prevenindo aquela fadiga extrema no final da noite. Pequenas pausas fazem uma grande diferença na saúde articular a longo prazo.

Autocuidado imediato pós-uso para alívio da dor

Chegar em casa e simplesmente jogar os sapatos no canto não é suficiente para reverter os danos do dia. Crie um ritual de recuperação rápido de cinco minutos que pode salvar seus pés. Comece mergulhando os pés em água morna ou fazendo um escalda-pés com sal grosso para relaxar a musculatura e melhorar a circulação local aliviando o inchaço acumulado.

Deite-se no chão e coloque as pernas para cima apoiadas na parede por alguns minutos para facilitar o retorno venoso e drenar o edema das pernas e tornozelos. Enquanto estiver nessa posição mova os pés para cima e para baixo bombeando o sangue e alongando suavemente a panturrilha. Use uma bolinha de tênis para massagear a planta do pé rolando-a com pressão moderada do calcanhar até os dedos para soltar a fáscia plantar.

Massageie seus dedos puxando-os levemente e separando-os uns dos outros para combater o efeito de compressão do bico fino. Use um creme hidratante e faça uma massagem vigorosa na panturrilha de baixo para cima ajudando a soltar os pontos de tensão. Esse autocuidado diário mostra ao seu corpo que você se importa com ele e ajuda a manter os tecidos saudáveis para o dia seguinte.

Protocolos de reabilitação e terapias manuais indicadas

Reeducação Postural Global (RPG) para realinhamento

Quando falamos de tratamento para os danos causados pelo salto alto a RPG é uma das ferramentas mais poderosas que temos na fisioterapia. Essa técnica não trata apenas o pé dolorido mas olha para o corpo como um todo integrado focando nas cadeias musculares que foram alteradas. O objetivo é alongar globalmente a cadeia posterior que ficou encurtada e realinhar a pélvis e a coluna que sofreram com as compensações posturais.

Durante as sessões nós colocamos você em posturas estáticas de alongamento progressivo onde você precisa manter contrações isométricas suaves enquanto respira de forma específica. Isso “reprograma” o seu cérebro para aceitar uma nova postura correta desfazendo os vícios corporais adquiridos pelo uso do salto. É um trabalho profundo que reajusta a tensão dos tecidos desde a sola do pé até a base do crânio.

A RPG é fundamental para tratar a hiperlordose e a anteriorização da cabeça devolvendo o eixo correto de gravidade para o seu corpo. Com o alinhamento restaurado as articulações param de sofrer desgaste excessivo e as dores crônicas tendem a desaparecer. É um investimento na sua estrutura corporal que previne problemas futuros muito mais graves.

Liberação miofascial e técnicas de terapia manual

A fáscia é o tecido que envolve todos os nossos músculos e ela tende a ficar densa e aderida quando submetida a estresse constante como o uso de saltos. A liberação miofascial é uma técnica manual onde aplicamos pressão e deslizamento sobre os músculos para soltar essas aderências e restaurar a mobilidade dos tecidos. No caso das usuárias de salto focamos intensamente na panturrilha na fáscia plantar e nos isquiotibiais.

Essa técnica pode ser um pouco desconfortável na hora pois estamos lidando com tecidos inflamados e tensos mas a sensação de alívio e leveza após a sessão é incomparável. Utilizamos as mãos cotovelos ou instrumentos específicos para “pentear” as fibras musculares e reorganizá-las permitindo que o sangue circule melhor e que o músculo volte a ter elasticidade. É como destravar um nó que estava impedindo seu movimento.

Além da liberação realizamos mobilizações articulares manuais no tornozelo e nos ossos do pé para garantir que cada pequena articulação esteja se movendo livremente. Manipular o tálus e o calcâneo ajuda a recuperar a amplitude de dorsiflexão que o salto alto rouba de você. A terapia manual é essencial para manter a “manutenção” do seu corpo em dia.

Pilates clínico como ferramenta de estabilização

O Pilates é o complemento perfeito para quem precisa fortalecer o corpo para suportar as demandas do salto alto sem se machucar. O foco no “Power House” ou centro de força (abdômen glúteos e lombar) cria um cinturão natural de proteção para a sua coluna impedindo que a lordose aumente descontroladamente. Exercícios de estabilização pélvica ensinam você a manter a postura correta mesmo em situações de desequilíbrio.

No ambiente clínico usamos os aparelhos de Pilates com molas para trabalhar o fortalecimento excêntrico da panturrilha e dos músculos do pé. Isso significa fortalecer o músculo enquanto ele está sendo alongado o que é vital para contrabalancear o encurtamento do salto. Trabalhamos também o equilíbrio e a propriocepção desafiando seu corpo a se manter estável em bases instáveis simulando a exigência de usar um salto fino.

As aulas focam na conscientização corporal ensinando você a perceber quando está compensando a postura e a se corrigir automaticamente. Ter um Core forte e glúteos ativos tira a sobrecarga dos joelhos e da lombar permitindo que você use seus sapatos favoritos com muito mais segurança e menos dor. É fortalecer a estrutura para que ela suporte a fachada estética que você escolheu.