Pilates Clínico
Você provavelmente já ouviu falar de Pilates. Talvez tenha visto fotos de pessoas em posições acrobáticas no Instagram ou tenha um amigo que jura que isso mudou a vida dele. Mas quando você entra no meu consultório com aquela dor nas costas que não passa ou com um diagnóstico médico de hérnia de disco, a conversa muda um pouco de figura. Não estamos falando apenas de ficar em forma. Estamos falando de Pilates Clínico.
Eu vejo muitos pacientes chegarem aqui confusos sobre o que realmente vamos fazer. Eles esperam uma aula de ginástica, mas encontram um tratamento. O Pilates Clínico é uma ferramenta poderosa que nós, fisioterapeutas, usamos para devolver a função ao seu corpo. Não é sobre quantas repetições você aguenta, mas sobre como você executa cada milímetro do movimento.
Quero te explicar exatamente como isso funciona. Esqueça os clichês de revistas de saúde. Vamos mergulhar na biomecânica, no controle da dor e em como vamos usar esse método para consertar o que está “quebrado” ou desalinhado no seu corpo. Prepare-se para entender sua própria anatomia de um jeito novo.
O Que Realmente Define o Pilates Clínico
Muitas pessoas acham que Pilates é apenas alongamento. Isso é um erro comum. O Pilates Clínico é uma adaptação do método original criado por Joseph Pilates, mas filtrado pelo olhar científico da reabilitação moderna. Nós pegamos os exercícios originais e os “quebramos” em partes menores e mais seguras. O objetivo aqui não é a performance atlética imediata. O objetivo é reabilitar.
Quando você está na minha maca ou no Reformer, eu não estou olhando apenas se você consegue levantar a perna. Estou analisando se o movimento está partindo da articulação correta. Estou verificando se os músculos que deveriam estar estabilizando sua coluna estão “acordados”. O Pilates Clínico é, na verdade, uma forma de cinesioterapia. É a cura através do movimento guiado. Nós usamos as molas e a gravidade para assistir ou resistir ao movimento, dependendo do que o seu tecido lesionado precisa naquele momento.
A grande chave aqui é o raciocínio clínico. Em uma aula comum, todos fazem o mesmo exercício. No Clínico, se você tem uma espondilolistese ou uma tendinite de manguito rotador, o exercício é modificado especificamente para não agravar sua lesão. Nós respeitamos a cicatrização dos tecidos e a biomecânica da sua articulação. É um tratamento sob medida, onde o exercício é o remédio e a dosagem é controlada pela sua resposta fisiológica.
A Fisioterapia por trás do movimento
Você precisa entender que o fisioterapeuta vê o corpo como um sistema de alavancas e polias biológicas. Quando aplicamos o Pilates, estamos aplicando princípios de física e anatomia. Se você tem dor no joelho, por exemplo, eu raramente vou tratar apenas o seu joelho. Eu vou usar o Pilates para avaliar como seu quadril se comporta e como seu pé pisa no chão. O método nos permite integrar essas cadeias musculares.
O olhar clínico busca a causa raiz da disfunção. Muitas vezes, a dor é apenas a vítima que grita, mas o criminoso é uma fraqueza muscular em outro lugar. Durante as sessões, usamos o feedback tátil. Eu coloco a mão nas suas costas ou no seu abdômen para garantir que a contração muscular está acontecendo onde deve. Isso é reeducação neuromuscular. Estamos ensinando seu cérebro a conversar melhor com seus músculos novamente.
Essa abordagem científica diferencia o nosso trabalho de uma atividade recreativa. Nós monitoramos sinais de fadiga que podem levar a uma perda de controle motor. Se o músculo treme, pode ser um sinal de que perdemos a estabilidade, e não necessariamente de que o treino está “bom”. A precisão é a nossa meta. Queremos qualidade de movimento para que você possa carregar seus filhos ou suas compras sem medo de travar a coluna depois.
O conceito de estabilização segmentar vertebral
Este é um termo técnico que você vai me ouvir falar muito. Estabilização segmentar vertebral é a capacidade dos pequenos músculos profundos da sua coluna de segurarem uma vértebra sobre a outra enquanto você se move. Imagine que sua coluna é uma pilha de xícaras. Se você não tiver algo segurando essas xícaras firmemente, qualquer movimento brusco vai derrubá-las.
No Pilates Clínico, focamos excessivamente nos multífidos e no transverso abdominal. Esses músculos agem como um espartilho natural interno. Quando você tem dor lombar crônica, estudos mostram que esses músculos “desligam” ou ativam com atraso. Nossos exercícios são desenhados para “acordar” esses estabilizadores profundos antes de pedirmos para você fazer força com os músculos grandes e superficiais.
Sem essa estabilização, os grandes músculos tentam compensar e acabam ficando tensos e doloridos. É por isso que você sente aquele “nó” nas costas. Com o Pilates Clínico, devolvemos a função a esses pequenos guardiões da coluna. Você aprende a criar uma base sólida e estável. A partir dessa base, você pode mover braços e pernas livremente, sem sobrecarregar os discos intervertebrais.
A diferença crucial entre “fazer exercício” e “tratar uma disfunção”
Existe um abismo entre suar a camisa e tratar uma patologia. Fazer exercício genericamente libera endorfina e é ótimo para o coração. Mas se você tem um padrão de movimento errado, fazer mais exercício só vai reforçar esse padrão errado. É como dirigir um carro com o alinhamento torto. Quanto mais você dirige, mais desgasta o pneu de forma irregular.
Tratar uma disfunção exige que a gente desmonte o movimento e o reconstrua. Às vezes, a sessão de Pilates Clínico pode parecer visualmente “leve”, mas internamente você estará fazendo um esforço mental e físico enorme para dissociar movimentos. Por exemplo, aprender a mexer a perna sem deixar a bacia sambar para os lados. Isso exige concentração total e controle inibitório.
O tratamento foca naquilo que você não consegue fazer. Se você tem muita força, mas pouca flexibilidade, vamos trabalhar o alongamento dinâmico. Se você é muito flexível (hipermóvel), mas não tem força para segurar as articulações no lugar, vamos focar na estabilidade. O exercício não é aleatório. Ele tem um propósito específico de corrigir o desequilíbrio que causou sua lesão em primeiro lugar.
Pilates Clínico versus Pilates de Academia: Entendendo a Diferença
Você chega na recepção e pergunta: “Qual a diferença do Pilates que tem na minha academia para esse aqui?”. Essa é a dúvida mais comum e a mais importante de esclarecer. O Pilates de academia, ou Fitness, é excelente para o condicionamento físico geral de pessoas saudáveis. O foco lá é a fluidez, o ritmo e muitas vezes a aula é em grupo grande.
No Pilates Clínico, o cenário é outro. O foco é a patologia e a dor. Você não vai encontrar uma sala lotada com 10 pessoas fazendo a mesma coisa. Aqui, o ambiente é controlado. O fisioterapeuta está o tempo todo ao seu lado, corrigindo ângulos e adaptando a carga. Se você sentir dor durante um movimento na academia, o instrutor pode pedir para parar. Aqui, se você sentir dor, nós investigamos o porquê na hora e modificamos a alavanca para que você consiga se mover sem dor.
Outro ponto é a formação do profissional. No Clínico, você está sendo atendido por um fisioterapeuta com conhecimento profundo de patofisiologia. Sabemos o que é uma estenose de canal, uma condromalácia patelar ou uma discopatia degenerativa. Sabemos quais movimentos são contraindicados para essas condições. Na academia, o foco é o fitness e o bem-estar geral, o que é ótimo, mas pode ser perigoso se você tiver uma lesão não tratada.
O ambiente e a atenção individualizada
A privacidade e o foco são essenciais para a reabilitação. Em um estúdio de Pilates Clínico, geralmente trabalhamos com atendimentos individuais ou, no máximo, duplas. Isso não é luxo, é necessidade técnica. Eu preciso ver se, quando você expira, suas costelas descem corretamente. Eu preciso ver se seu ombro não está subindo em direção à orelha quando você faz força.
Essa atenção “olho no olho” permite ajustes milimétricos. Às vezes, girar o pé cinco graus para fora muda completamente a ativação do glúteo médio e alivia a dor no joelho. Num grupo grande, esses detalhes se perdem. E na fisioterapia, o diabo mora nos detalhes. A recuperação mora na precisão.
Além disso, o ambiente clínico permite que você relate sensações que seriam estranhas em uma aula de ginástica. Você pode descrever a irradiação da dor, formigamentos ou desconfortos sutis. Eu uso essas informações em tempo real para ajustar o tratamento. É um diálogo constante entre o que você sente e o que eu observo.
A adaptação dos exercícios para a patologia
Não existe “receita de bolo” no Pilates Clínico. O exercício “The Hundred”, clássico do método, pode ser excelente para um atleta, mas desastroso para alguém com dor cervical aguda. Minha função é pegar o repertório de exercícios e transformá-lo em ferramentas seguras para você.
Se você tem osteoporose, por exemplo, eu preciso eliminar quase todas as flexões de coluna (dobrar para frente) para evitar fraturas por compressão. Vamos focar em extensão e fortalecimento axial. Se você tem uma hérnia de disco aguda, vamos evitar certos tipos de rotação combinada com flexão. No Pilates Fitness, a aula segue um fluxo coreografado. Aqui, o fluxo segue a sua necessidade clínica.
Nós usamos acessórios como a bola suíça, faixas elásticas e o anel mágico não para deixar o exercício “bonitinho”, mas para facilitar ou dificultar o movimento. Às vezes, usamos a mola para sustentar o peso da sua perna para que você consiga mover o quadril sem dor. Outras vezes, usamos a mola pesada para desafiar sua força quando a lesão já está estável. Tudo é adaptado.
O foco na dor e na limitação de movimento
A dor muda a forma como nos movemos. Chamamos isso de comportamento de evitação. Se dói para levantar o braço, você começa a usar o trapézio e o pescoço para compensar. O Pilates Clínico identifica esses padrões viciosos. O nosso objetivo primário muitas vezes é quebrar o ciclo da dor.
Trabalhamos muito com a amplitude de movimento livre de dor. Eu quero que você se mova, mas dentro de uma janela segura. Aos poucos, vamos empurrando as fronteiras dessa janela. O movimento lubrifica as articulações e nutre a cartilagem. Ficar parado na cama é a pior coisa para a maioria das dores musculoesqueléticas.
Diferente da academia, onde “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho) é muitas vezes o lema, aqui nós respeitamos a dor. Dor aguda é sinal de alerta, não de progresso. Se doer, paramos, reavaliamos e mudamos. Queremos que você saia da sessão sentindo-se melhor do que entrou, mais leve e com menos desconforto, não destruído de cansaço.
O Centro de Força: Powerhouse e Respiração
Você vai me ouvir falar “ative o centro” ou “conecte o Powerhouse” a cada cinco minutos. Joseph Pilates chamava o centro do corpo de “Powerhouse” (Casa de Força). No Pilates Clínico, traduzimos isso anatomicamente para o Core. Mas o Core não é só o “tanquinho”. É uma caixa muscular que protege seus órgãos e sua coluna.
Essa caixa é formada pelo diafragma em cima, o assoalho pélvico embaixo, o transverso abdominal na frente e nas laterais, e os multífidos atrás. Quando todos esses trabalham juntos, sua coluna fica blindada. A maioria das lesões lombares acontece porque essa caixa está “mole” ou descoordenada.
Aprender a ativar o Powerhouse é a base de tudo o que faremos. Antes de mexer um dedo, você precisa estabilizar o centro. É como construir uma casa: você não coloca o telhado antes de fazer a fundação. O Powerhouse é a sua fundação. Sem ele, os exercícios são apenas movimentos vazios e potencialmente lesivos.
Ativação do Transverso Abdominal
O transverso abdominal é o músculo mais profundo do abdômen. Ele não faz você dobrar o tronco; ele faz você “encolher”. Ele envolve sua cintura como um cinto de segurança natural. A função dele é aumentar a pressão intra-abdominal e dar rigidez à coluna lombar.
No consultório, eu uso biofeedback para te ensinar a achar esse músculo. Muitas vezes coloco um esfigmomanômetro (aquele aparelho de medir pressão) embaixo das suas costas e peço para você manter a pressão estável enquanto move a perna. Se a pressão mudar, você perdeu a contração do transverso. É um jogo de controle fino.
Você vai aprender a contrair o abdômen sem travar a respiração. Isso é difícil no começo. A tendência é fazer força e ficar roxo de prender o ar. O segredo do Pilates Clínico é manter esse “cinto” apertado (o transverso) enquanto você respira e conversa normalmente. Isso garante que sua coluna esteja protegida o dia todo, não só na hora do abdominal.
A conexão com o Assoalho Pélvico
Esse é um assunto que muitos têm vergonha, mas é vital. O assoalho pélvico (os músculos da região genital e anal) trabalha em sinergia com o abdômen. Se você tem fraqueza nessa região, pode ter incontinência urinária ao fazer esforço. No Pilates Clínico, integramos a contração do períneo com o exercício.
Quando você expira e contrai o abdômen, o assoalho pélvico deve subir, como um elevador interno. Isso dá um suporte incrível para a coluna lombar e para os órgãos internos. Principalmente para mulheres pós-parto ou pessoas com dores lombares crônicas, essa conexão está perdida e precisa ser reativada.
Não se trata apenas de fazer exercícios de Kegel isolados. Trata-se de usar essa musculatura durante o agachamento, durante o movimento de braços. O assoalho pélvico é a base da nossa “caixa”. Se o fundo da caixa está aberto, a pressão escapa e a estabilidade se perde. Nós trazemos essa consciência para a prática diária.
A respiração diafragmática como ferramenta terapêutica
Respirar parece simples, você faz isso o tempo todo. Mas a maioria dos pacientes com dor respira “errado”. Eles usam a musculatura acessória do pescoço, criando tensão nos ombros e na cervical. A respiração do Pilates Clínico foca na expansão lateral das costelas e no uso eficiente do diafragma.
O padrão respiratório correto ajuda a mobilizar a coluna torácica. Muitas pessoas têm as costas rígidas nessa região. Ensinar a “respirar nas costas” ajuda a soltar essa rigidez de dentro para fora. Além disso, a expiração forçada facilita a ativação dos músculos abdominais profundos.
A respiração também tem um papel calmante no sistema nervoso. Pacientes com dor crônica geralmente têm o sistema nervoso simpático (luta ou fuga) muito ativado. A respiração rítmica e controlada do Pilates ajuda a baixar essa guarda, diminuindo a percepção da dor e permitindo que os músculos relaxem.
Principais Patologias Tratadas no Consultório
O Pilates Clínico não é apenas prevenção; é intervenção direta. A maioria dos pacientes que me procuram já tem um diagnóstico fechado. Eles chegam com a ressonância magnética na mão e medo de se mexer. O nosso papel é mostrar que o movimento seguro é possível e necessário.
Nós tratamos desde o adolescente com má postura até o idoso com artrose severa. A versatilidade do método permite isso. Como usamos molas nos equipamentos (Cadillac, Reformer, Chair), podemos tirar a carga da articulação. Isso permite que uma pessoa que mal consegue andar consiga exercitar as pernas deitada, sem impacto articular.
Abaixo, vou detalhar as condições que mais vemos e como o Pilates atua nelas. Você vai perceber que para cada problema, existe uma lógica biomecânica de tratamento. Não é mágica, é anatomia aplicada.
Hérnias de Disco e dores lombares
A dor lombar é a campeã de audiência nas clínicas. Na hérnia de disco, o material interno do disco sai e pode comprimir um nervo. Na fase aguda, o Pilates Clínico entra com exercícios de estabilização neutra. Nós ensinamos você a manter a coluna na posição onde o disco sofre menos pressão.
Fortalecemos o Core para criar um suporte muscular que “abre espaço” para as vértebras. Trabalhamos muito a mobilidade do quadril. Se o seu quadril é rígido, sua lombar tem que se mexer mais do que deveria para compensar. Soltando o quadril, poupamos a lombar.
Também trabalhamos a extensão da coluna (dobrar para trás) com muito cuidado, o que ajuda a centralizar o disco em muitos casos. O paciente aprende a diferenciar a dor “ruim” (do nervo) da dor “boa” (muscular). Com o tempo, a confiança no movimento volta e o medo de travar diminui drasticamente.
Alterações posturais e Escoliose
A escoliose não é apenas uma coluna torta; é uma alteração tridimensional. A coluna roda e inclina. O Pilates Clínico é fantástico para isso porque trabalha a simetria. Nós usamos exercícios assimétricos para corrigir as curvas. Fortalecemos o lado convexo da curva e alongamos o lado côncavo.
Para a hipercifose (aquela “corcunda” nas costas), focamos na abertura do peitoral e fortalecimento dos extensores das costas. Hoje em dia, com o uso excessivo de celulares, vemos muito a “cabeça anteriorizada”. O Pilates fortalece os músculos profundos do pescoço para trazer a cabeça de volta ao eixo.
A consciência corporal é a chave aqui. O paciente com má postura muitas vezes não sabe que está torto. O cérebro dele acha que aquilo é o normal. Nós usamos espelhos e toques para reprogramar essa percepção. O objetivo é que você mantenha a postura correta fora do estúdio, enquanto trabalha ou dirige.
Reabilitação de ombro e joelho
Ombros e joelhos são articulações complexas que dependem muito de estabilidade. No ombro, focamos na escápula. Se a escápula não se move bem, o ombro sofre (bursites, tendinites). O Pilates tem uma série inteira de exercícios para estabilização escapular, ensinando o ombro a se mover suavemente.
No joelho, o foco é o alinhamento. Muitos pacientes têm o valgo dinâmico (o joelho cai para dentro ao agachar). Isso destrói a cartilagem. Fortalecemos o glúteo médio e os rotadores externos do quadril para manter o joelho alinhado com o pé.
Usamos o Reformer para fazer agachamentos deitado (footwork). Isso permite fortalecer o quadríceps sem o peso do corpo sobre o joelho lesionado. É perfeito para pós-operatório de ligamento cruzado ou menisco, permitindo ganho de massa muscular precoce com segurança total.
A Avaliação Fisioterapêutica Antes do Movimento
Antes de você subir em qualquer aparelho, precisamos conversar e analisar seu corpo. Pular essa etapa é como um médico prescrever remédio sem examinar o paciente. A avaliação no Pilates Clínico é detalhada e específica. Eu preciso mapear seu corpo para desenhar seu mapa de tratamento.
Não se assuste se eu pedir para você ficar de roupa de banho ou roupa de ginástica justa e tirar fotos. Precisamos ver os marcos ósseos. A avaliação não é para julgar seu corpo, mas para entender sua biomecânica. É um momento de descoberta para você também, onde muitas vezes você percebe desequilíbrios que nunca notou.
Essa avaliação é reavaliada periodicamente. O corpo muda com o tratamento. O exercício que era difícil no mês passado pode ser fácil hoje, e precisamos evoluir. A avaliação garante que não estamos estagnados e que os objetivos estão sendo atingidos.
Análise estática e dinâmica da postura
Primeiro, olho você parado. Seus ombros estão na mesma altura? Seu quadril está rodado? Seus pés têm arco ou são chatos? A postura estática nos dá pistas de quais músculos estão encurtados e quais estão fracos.
Depois, peço para você se mexer. Agache, dobre a coluna para frente, levante os braços. A avaliação dinâmica é a mais rica. Às vezes, parado você parece alinhado, mas quando se move, tudo desmorona. Observo o ritmo das suas escápulas, a estabilidade da sua pélvis e como seus pés reagem ao impacto.
Essa análise do movimento revela suas estratégias compensatórias. Se você dobra a coluna usando apenas a lombar e deixando o quadril rígido, eu já sei que preciso trabalhar a mobilidade do seu quadril urgentemente. É um trabalho de detetive do movimento.
Identificando compensações e vícios de movimento
Nosso cérebro é preguiçoso. Ele sempre vai escolher o caminho de menor resistência, mesmo que esse caminho cause dor a longo prazo. Chamamos isso de vício de movimento ou compensação. Por exemplo, levantar o ombro para carregar a bolsa pesada.
Na avaliação, eu provoco essas compensações para identificá-las. Testo sua força muscular isolada. Frequentemente descubro que um glúteo é muito mais fraco que o outro, ou que um lado do abdômen trabalha menos. Essas assimetrias são o prato cheio para lesões futuras.
Identificar isso no início nos poupa muito tempo. Em vez de fazer exercícios genéricos, vamos direto no ponto fraco. Se o seu glúteo direito está “dormindo”, vamos acordá-lo antes de integrá-lo em movimentos complexos.
Traçando um plano de tratamento personalizado
Com todos esses dados, monto sua aula. Não é uma aula aleatória. É um plano. Definimos objetivos de curto, médio e longo prazo. Curto prazo: aliviar a dor. Médio prazo: melhorar a mobilidade. Longo prazo: ganhar força e prevenir recidivas.
Seu plano leva em conta sua rotina. Se você trabalha sentado o dia todo, seu Pilates terá muita extensão de coluna e abertura de quadril. Se você fica em pé, focaremos em outra coisa. O tratamento precisa contrabalancear sua vida diária.
Discutimos também a frequência. Para casos clínicos, duas vezes por semana é o mínimo ideal para gerar adaptação fisiológica. Eu explico o porquê de cada exercício. Quero que você entenda o processo, para que você se torne parceiro na sua própria reabilitação.
Pilates Clínico em Populações Especiais
O Pilates é democrático, mas exige adaptações específicas para grupos diferentes. Não tratamos uma gestante da mesma forma que tratamos um idoso ou um atleta de alto rendimento. A fisiologia de cada grupo dita as regras do jogo.
O conhecimento profundo de fisiologia do fisioterapeuta brilha aqui. Sabemos as alterações hormonais da gravidez, as alterações ósseas da senilidade e a demanda explosiva do esporte. O método se molda ao paciente, nunca o contrário.
Essa capacidade de adaptação torna o Pilates Clínico uma das modalidades mais seguras que existem. É difícil se machucar quando o exercício é monitorado e ajustado para sua condição fisiológica atual. Vamos ver como isso funciona na prática para esses grupos.
A abordagem na Saúde da Mulher e Gestação
Na gestação, o corpo da mulher passa por um furacão de mudanças. O centro de gravidade muda, a lordose aumenta, os ligamentos ficam mais frouxos devido ao hormônio relaxina. O Pilates Clínico ajuda a sustentar esse peso extra e prepara o corpo para o parto.
Focamos muito na prevenção da diástase (separação excessiva dos músculos abdominais) e no fortalecimento do assoalho pélvico para evitar incontinência. Trabalhamos também o alívio das dores lombares e do inchaço nas pernas através de movimentos circulatórios. É um momento de conexão da mãe com o bebê e com o próprio corpo.
No pós-parto, o foco muda para a recuperação. “Fechar” a diástase, recuperar a força do Core e melhorar a postura para a amamentação. O cuidado é redobrado para não sobrecarregar tecidos que ainda estão cicatrizando.
Geriatria e prevenção de quedas em idosos
Para os idosos, o Pilates Clínico é sinônimo de independência. Com a idade, perdemos massa muscular (sarcopenia) e equilíbrio. Isso aumenta o risco de quedas, que podem ser fatais. Nossas aulas focam em recuperar essa força funcional.
Trabalhamos muito a propriocepção (equilíbrio). Exercícios em pé, em superfícies instáveis controladas, ensinam o corpo a reagir rápido se tropeçar. O fortalecimento das pernas é vital para tarefas simples como levantar da cadeira ou subir escadas sem ajuda.
Além disso, o impacto controlado das molas ajuda a estimular a massa óssea, combatendo a osteoporose. Tudo é feito com segurança máxima, respeitando a limitações articulares e eventuais próteses de quadril ou joelho. O objetivo é qualidade de vida e autonomia.
Atletas e o controle motor fino
Atletas já são fortes e têm fôlego. O que o Pilates Clínico oferece a eles? Eficiência. O atleta muitas vezes tem músculos superficiais fortíssimos, mas estabilizadores fracos, o que gera lesões por overuse. Nós trabalhamos o “elo perdido” da performance.
Para um corredor, trabalhamos o alinhamento do membro inferior e a respiração. Para um tenista, a rotação de tronco e a estabilidade de ombro. O Pilates melhora o gesto esportivo, fazendo com que o atleta gaste menos energia para realizar o mesmo movimento.
Também atua fortemente na prevenção. Ao equilibrar as forças musculares e melhorar a flexibilidade, reduzimos drasticamente o índice de distensões e entorses. É o ajuste fino de uma máquina de alta performance.
Terapias Complementares e Considerações Finais
O Pilates Clínico raramente anda sozinho. Como fisioterapeuta, muitas vezes combino o método com outras terapias para potencializar os resultados. É comum, antes ou depois da aula, aplicarmos técnicas de Terapia Manual para soltar uma articulação travada ou relaxar um músculo que está impedindo o movimento correto.
Outra técnica muito utilizada em conjunto é o Dry Needling (Agulhamento a Seco), excelente para desativar pontos-gatilho (nós musculares) que causam dor referida. A Liberação Miofascial, seja manual ou instrumental, também prepara o tecido para deslizar melhor durante os exercícios de Pilates. Em alguns casos, conceitos de Osteopatia são aplicados para reequilibrar a estrutura antes de fortalecê-la.
O Pilates Clínico é uma jornada de autoconhecimento e cura. Não é uma pílula mágica que tira a dor em cinco minutos, mas é uma solução duradoura que ataca a causa do problema. Você reconstrói seu corpo de dentro para fora. Se você está cansado de sentir dor e quer assumir o controle da sua saúde física, essa é a via. Converse com seu fisioterapeuta, faça uma avaliação e descubra o potencial que seu corpo tem de se recuperar e se fortalecer. Estamos aqui para guiar cada passo desse caminho.