O papel da fisioterapia no desenvolvimento motor infantil

O que é o desenvolvimento motor e por que ele importa

Entendendo os marcos do desenvolvimento

O desenvolvimento motor não é apenas uma lista de tarefas que seu filho precisa cumprir. Enxergamos esse processo como a construção de um edifício onde cada andar depende da solidez do anterior. Quando falamos em marcos motores estamos nos referindo a janelas de tempo onde esperamos que certas habilidades apareçam. O bebê sustenta a cabeça para depois rolar e só então conseguir sentar sem apoio. Essa sequência lógica obedece ao amadurecimento do sistema nervoso central e precisa ser respeitada e acompanhada de perto.

Muitos pais chegam ao consultório ansiosos com tabelas prontas que viram na internet. Você precisa saber que existe uma flexibilidade natural nessas datas. Um bebê pode andar com onze meses e outro com quatorze e ambos estarem dentro da normalidade. O problema surge quando a distância entre o que é esperado e o que a criança faz se torna muito grande. É nesse intervalo que nossa avaliação clínica entra para discernir o que é ritmo próprio da criança e o que é um atraso real que necessita de intervenção.

Entender esses marcos ajuda você a oferecer os estímulos certos na hora certa. Tentar ensinar uma criança a andar antes de ela saber engatinhar ou se sentar com firmeza pode ser prejudicial. Pulamos etapas fundamentais de fortalecimento de tronco e dissociação de cinturas. O desenvolvimento motor é a base para a independência futura do seu filho. Cada conquista motora abre um novo leque de possibilidades de exploração do mundo e de interação social.

A janela de oportunidades neuroplásticas

O cérebro da criança é uma esponja ávida por informações e experiências novas. Chamamos de neuroplasticidade a capacidade que o cérebro tem de se remodelar e criar novas conexões a partir dos estímulos recebidos. Nos primeiros anos de vida essa capacidade está no seu auge absoluto. É o momento de ouro para intervir caso algo não esteja saindo como planejado. Se existe uma lesão ou um atraso a neuroplasticidade permite que outras áreas do cérebro assumam funções e criem caminhos alternativos para o movimento acontecer.

Nós fisioterapeutas batemos muito na tecla da intervenção precoce justamente por causa dessa janela. Esperar “o tempo da criança” quando há sinais claros de dificuldade pode significar perder o período onde o cérebro responderia mais rápido ao tratamento. Quanto mais cedo iniciamos os estímulos corretos mais eficaz é a resposta motora e cognitiva. O tempo aqui joga a nosso favor se agirmos rápido mas joga contra se adotarmos uma postura passiva de espera.

A plasticidade não serve apenas para corrigir problemas mas para potencializar habilidades. Um ambiente rico em estímulos sensoriais e motores molda um cérebro mais adaptável e capaz. Você tem em casa um pequeno ser com um potencial biológico imenso esperando para ser ativado. A fisioterapia atua como uma chave que liga esses circuitos. Direcionamos a plasticidade para que o desenvolvimento ocorra da forma mais funcional e harmônica possível.

Diferença entre atraso e transtorno motor

Confundir atraso com transtorno é uma das dúvidas mais comuns que recebo aqui no consultório. O atraso no desenvolvimento motor significa que a criança está seguindo a sequência correta de aquisições mas em um ritmo mais lento que a maioria. Com o estímulo certo ela tende a alcançar os pares e seguir a vida sem sequelas. É como alguém que corre a maratona mais devagar mas cruza a mesma linha de chegada. Geralmente está associado a falta de estímulo ambiental ou prematuridade.

O transtorno motor envolve uma alteração na qualidade do movimento e não apenas no tempo. Aqui vemos padrões de movimento atípicos como rigidez excessiva ou falta de controle postural que não se resolvem apenas com o tempo. Paralisia Cerebral e distúrbios de coordenação são exemplos onde a fisioterapia entra não para “curar” o tempo mas para ensinar o corpo a funcionar da melhor maneira dentro de suas limitações. O foco muda da velocidade de aquisição para a funcionalidade e a autonomia.

Saber essa diferença acalma o coração e direciona o tratamento. Se for apenas um atraso vamos intensificar as brincadeiras e exercícios para dar um empurrãozinho. Se for um transtorno o trabalho será de longo prazo com adaptações e um olhar focado na qualidade de vida. O diagnóstico correto feito por nós em conjunto com o médico é o primeiro passo para traçar metas realistas. Você precisa estar ciente do que estamos enfrentando para ser parceiro no processo de reabilitação.

Como a fisioterapia avalia o seu filho

A observação clínica e escalas padronizadas

A avaliação começa no momento em que vocês entram pela porta do consultório. Eu observo como seu filho está no seu colo ou como ele interage com o ambiente. Essa observação livre é valiosa porque mostra o comportamento espontâneo da criança sem a pressão de um teste. Olhamos a curiosidade o interesse pelos brinquedos e a forma como ele busca alcançar o que deseja. Muitas vezes a maior pista sobre a dificuldade motora está na recusa em fazer certas posturas que são desconfortáveis para ele.

Para ter dados concretos usamos escalas padronizadas mundialmente conhecidas como a AIMS ou a Bayley. Elas funcionam como uma régua que mede as habilidades motoras grossas e finas. Pontuamos cada movimento que a criança realiza e comparamos com a média para a idade dela. Isso nos dá uma porcentagem exata de onde ela se encontra no gráfico de desenvolvimento. Não é para rotular mas para ter um parâmetro objetivo de evolução.

Esses testes são repetidos periodicamente para sabermos se a conduta terapêutica está funcionando. Se a pontuação sobe sabemos que estamos no caminho certo. Se estagna precisamos rever as estratégias. A avaliação não é um evento único mas um processo contínuo. A cada sessão descubro uma nova faceta do potencial do seu filho. Os números das escalas são importantes para relatórios médicos mas o meu olhar clínico sobre o dia a dia é o que guia a terapia.

O olhar sobre a qualidade do movimento

Não me interessa apenas se seu filho consegue pegar o brinquedo mas como ele pega. A qualidade do movimento diz muito sobre a saúde do sistema nervoso. Um bebê pode conseguir sentar mas se ele o faz com as costas muito curvadas e caindo para os lados isso indica fraqueza muscular. Se ele pega um objeto mas precisa travar todo o ombro e fazer uma força desproporcional isso indica falta de coordenação fina.

A fisioterapia busca a economia de energia e a fluidez. Movimentos “sujos” ou compensatórios gastam muita energia e cansam a criança rapidamente. Isso faz com que ela evite se mover e explore menos o ambiente. Meu trabalho é limpar esses movimentos. Busco o alinhamento biomecânico correto para que os músculos trabalhem em sintonia e não uns contra os outros.

Avaliar a qualidade envolve tocar sentir o tônus e testar a amplitude das articulações. Verifico se existe alguma retração muscular que impede o movimento livre. Muitas vezes a criança quer fazer mas o corpo não permite. Identificar essas barreiras físicas é crucial. Tratamos a causa da dificuldade e não apenas o sintoma visível. Queremos movimentos elegantes funcionais e eficientes.

A importância da anamnese com a família

A conversa que temos antes de tocar na criança é metade da avaliação. Preciso saber como foi a gestação o parto e os primeiros dias de vida. Detalhes que parecem bobos para você são peças de quebra-cabeça para mim. Se o bebê ficou na UTI se teve icterícia se teve dificuldades para mamar. Tudo isso influencia o desenvolvimento motor. A história clínica me dá o contexto biológico do que estou vendo fisicamente.

Também quero saber sobre a rotina da casa. Onde o bebê passa a maior parte do dia. Se fica muito tempo no berço no carrinho ou no chão. Quem cuida dele enquanto você trabalha. O ambiente molda o desenvolvimento tanto quanto a genética. Às vezes o atraso vem de um excesso de proteção onde a criança não tem oportunidade de se desafiar. Ou pode vir de um ambiente caótico onde ela não consegue se organizar.

Vocês pais são os maiores especialistas no seu filho. Vocês sabem o que o irrita o que o acalma e como ele dorme. Eu uso essas informações para personalizar o tratamento. Se eu propor algo que não se encaixa na rotina da família a adesão será baixa e o resultado ruim. A anamnese serve para criarmos um vínculo de confiança. Preciso que você seja honesto sobre suas dificuldades e medos para que eu possa ajudar de verdade.

Principais sinais de alerta para procurar ajuda

Assimetrias e preferências de lado

Um dos primeiros sinais que acendem o alerta vermelho é a assimetria. Nos primeiros meses é esperado que o bebê use os dois lados do corpo de forma mais ou menos igual. Se você nota que seu filho só olha para a direita ou só usa a mão esquerda para pegar objetos precisamos investigar. Isso pode indicar desde um torcicolo congênito até uma lesão neurológica unilateral. A preferência manual muito precoce antes dos dois anos não é sinal de genialidade mas sim de que o outro lado pode estar com problemas.

Assimetrias no engatinhar também são comuns e preocupantes. O bebê que engatinha arrastando uma perna ou pulando com o bumbum não está desenvolvendo a dissociação de cinturas corretamente. Isso pode gerar escolioses e desvios posturais no futuro. O corpo humano foi feito para ser equilibrado. Qualquer desvio desse equilíbrio sobrecarrega as articulações e gera compensações em cadeia.

Observar a cabeça chata de um lado só também entra aqui. A plagiocefalia posicional muitas vezes vem acompanhada de uma preferência de rotação do pescoço. O fisioterapeuta atua liberando a musculatura tensa e ensinando posicionamentos para corrigir o formato da cabeça e a função do pescoço. Não ignore se seu filho parece “tortinho”. Quanto antes corrigirmos mais fácil será alinhar o eixo corporal.

Tônus muscular alterado (hipotonia e hipertonia)

O tônus é o estado de tensão natural dos nossos músculos em repouso. O bebê hipotônico parece uma boneca de pano. Ele é “molinho” escorrega das mãos quando seguramos e tem dificuldade em vencer a gravidade. Geralmente são bebês quietos que se mexem pouco e demoram para sustentar a cabeça. A hipotonia exige muito esforço para qualquer movimento o que cansa o bebê e o desmotiva.

No outro extremo temos a hipertonia onde o bebê é rígido e duro. As mãos vivem fechadas com força as pernas esticadas e cruzadas como uma tesoura. Trocar a fralda ou dar banho pode ser uma luta porque as articulações não dobram com facilidade. A hipertonia atrapalha o ganho de novas habilidades porque o corpo fica travado em padrões fixos. O bebê quer alcançar o brinquedo mas o braço dispara duro e sem controle.

Identificar essas alterações precocemente muda o jogo. Para o hipotônico vamos trabalhar exercícios vigorosos de fortalecimento e estabilização. Para o hipertônico vamos focar no relaxamento no alongamento e na quebra desses padrões rígidos. O tônus não se “cura” pois é uma característica neurológica mas aprendemos a gerenciá-lo para que a criança seja funcional. O objetivo é sempre o equilíbrio para permitir o movimento voluntário.

Atraso na aquisição da marcha e equilíbrio

Andar é o marco mais esperado pelos pais e o atraso nele gera muita angústia. Consideramos atraso quando a criança passa dos dezoito meses sem andar de forma independente. Mas os sinais aparecem antes. A falta de equilíbrio ao ficar em pé a incapacidade de transferir o peso de uma perna para a outra ou o medo excessivo de soltar as mãos são indicativos de que algo não vai bem. O equilíbrio é um sistema complexo que envolve visão sistema vestibular e propriocepção.

Crianças que andam na ponta dos pés o tempo todo também merecem atenção. Isso pode ser encurtamento do tendão ou uma busca sensorial por mais informações do solo. A marcha imatura por muito tempo com a base muito aberta e os braços erguidos para equilibrar sinaliza fraqueza de tronco. Se a criança cai muito tropeça nos próprios pés ou parece desajeitada a fisioterapia precisa intervir.

Treinamos o equilíbrio com circuitos superfícies instáveis e desafios motores. Ensinamos o corpo a reagir a desequilíbrios sem cair. Fortalecemos o “core” o centro de força do corpo para dar estabilidade. A marcha segura dá liberdade para a criança explorar o mundo longe dos pais. Trabalhamos para que esse caminhar seja eficiente e gaste pouca energia permitindo longas distâncias e brincadeiras ativas.

Intervenção precoce e estimulação

Brincar como ferramenta terapêutica

A linguagem da criança é o brincar. Na fisioterapia pediátrica não pedimos para fazer “três séries de dez repetições”. Nós transformamos o exercício em uma brincadeira irresistível. Se preciso que ele fortaleça o pescoço coloco um brinquedo luminoso e sonoro numa altura que o obrigue a olhar para cima. Se preciso treinar o engatinhar criamos túneis e obstáculos divertidos. O lúdico é o que motiva o movimento.

Você pode achar que estamos apenas brincando no chão mas cada gesto meu é calculado. Estou controlando a postura facilitando um movimento difícil ou oferecendo resistência para fortalecer um músculo. O ambiente terapêutico é colorido e cheio de estímulos mas tudo tem um propósito clínico. A criança trabalha duro durante a sessão sem perceber que está em tratamento. O sorriso no rosto dela é o sinal de que a abordagem está funcionando.

Essa estratégia deve ser levada para casa. Ensino você a brincar de forma terapêutica. A hora do banho a hora da troca e o momento de lazer no tapete viram oportunidades de estimulação. Não queremos mecanizar a vida da criança mas sim integrar o desenvolvimento na rotina natural dela. Quando o exercício é divertido a repetição necessária para o aprendizado motor acontece de forma espontânea e prazerosa.

Adaptação do ambiente domiciliar

Sua casa é o cenário onde o desenvolvimento acontece. Muitas vezes pequenas mudanças nos móveis ou na disposição dos brinquedos fazem milagres. Um chão muito liso pode impedir o bebê de engatinhar porque ele escorrega e se frustra. Colocar um tapete de EVA resolve o problema instantaneamente dando a tração necessária. O ambiente pode ser um facilitador ou uma barreira.

Oriento sobre o “chão time”. O chão é o lugar mais seguro e rico para seu filho. Bebês que ficam muito tempo em cadeirinhas ou “bebê conforto” perdem a chance de explorar o próprio corpo. Precisamos criar um espaço seguro no chão livre de perigos onde ele possa rolar e se esticar. Também avaliamos a necessidade de adaptações em cadeiras de alimentação e banho para garantir a postura correta.

Em casos de crianças com deficiências mais severas a adaptação ambiental é vital. Barras de apoio rampas ou móveis na altura certa promovem a autonomia. Meu papel é visitar sua casa ou ver vídeos dela para sugerir essas modificações. Queremos que a criança participe da vida familiar e não que fique isolada em um canto. A acessibilidade começa dentro de casa e garante a inclusão da criança nas atividades diárias.

O papel dos pais como co-terapeutas

Eu vejo seu filho uma ou duas vezes por semana por uma hora. Você está com ele o tempo todo. A conta é simples: o sucesso da terapia depende muito mais de você do que de mim. Eu sou o guia que mostra o caminho mas é você quem caminha com ele todos os dias. Pais engajados que realizam os exercícios em casa e seguem as orientações têm filhos que evoluem muito mais rápido.

Não quero que você vire fisioterapeuta do seu filho. Quero que você seja um pai ou mãe consciente. Que saiba como pegar no colo de um jeito que estimule o controle de tronco. Que saiba posicionar na hora de dormir para evitar deformidades. O manuseio correto no dia a dia vale mais do que horas de terapia isolada. Empodero você com conhecimento para que não se sinta refém do diagnóstico.

Essa parceria exige comunicação aberta. Se você não consegue fazer algum exercício em casa me fale. Adaptamos a conduta. A sobrecarga dos pais é real e precisamos cuidar de quem cuida. O plano de tratamento tem que caber na sua vida. Quando trabalhamos em equipe a criança sente essa segurança e responde melhor. Vocês são a peça chave na engrenagem da reabilitação.

O impacto do desenvolvimento motor na aprendizagem escolar

A relação entre coordenação motora e escrita

Você sabia que para escrever a letra “A” a criança precisa ter estabilidade de ombro controle de punho e dissociação de dedos? A escrita é uma atividade motora finíssima e complexa. Muitas crianças com “letra feia” ou que demoram para copiar do quadro não têm problemas cognitivos mas sim motores. Se o tronco não sustenta a postura na cadeira o braço não fica livre para escrever com leveza.

A coordenação visomotora é a capacidade de coordenar o que os olhos veem com o que as mãos fazem. Falhas nessa área tornam a escrita um sofrimento. A criança aperta demais o lápis rasga o papel e se cansa em minutos. O resultado é a recusa em fazer a tarefa escolar. A fisioterapia atua fortalecendo a musculatura da mão e melhorando a percepção corporal para que o ato de escrever se torne automático e não um esforço consciente.

Trabalhamos também o cruzamento da linha média que é a capacidade de levar a mão direita para o lado esquerdo do corpo e vice-versa. Isso é fundamental para a leitura e escrita fluente. Uma base motora sólida na primeira infância previne dificuldades de aprendizagem lá na frente. O corpo precisa estar pronto para aprender. Sem controle motor a mente gasta energia tentando se manter na cadeira em vez de prestar atenção na professora.

Integração sensorial e foco na sala de aula

Para prestar atenção na aula a criança precisa filtrar uma enxurrada de estímulos. O barulho do ventilador a luz da janela a etiqueta da roupa pinicando. O sistema sensorial precisa processar tudo isso e decidir o que é importante. Crianças com falhas na integração sensorial podem ser agitadas demais ou desligadas demais. Isso é frequentemente confundido com TDAH mas pode ser uma desorganização sensorial.

A propriocepção nos diz onde nosso corpo está no espaço sem precisarmos olhar. Se esse sentido está falho a criança pode cair da cadeira esbarrar nos colegas e derrubar o estojo o tempo todo. Ela busca movimento constante para “sentir” o corpo o que atrapalha a concentração. A fisioterapia com abordagem sensorial ajuda a organizar essas sensações. Usamos balanços pesos e texturas para calibrar o sistema nervoso.

Uma criança sensorialmente organizada consegue ficar sentada e focar. O comportamento em sala de aula melhora drasticamente quando o corpo para de incomodar. Ajudamos a escola a entender essas necessidades sugerindo pausas ativas ou assentos adaptados. O objetivo é que o sistema sensorial trabalhe a favor do aprendizado e não contra ele criando um ambiente interno propício para a absorção de conhecimento.

Postura e ergonomia para o estudante

A mochila pesada e a postura largada na carteira são vilões silenciosos. Dores nas costas e no pescoço estão aparecendo cada vez mais cedo em crianças e adolescentes. O uso excessivo de telas e a falta de atividade física criam uma postura cifótica com os ombros caídos para frente. Isso não afeta apenas a coluna mas também a respiração e a disposição. Um corpo curvado comprime o diafragma e oxigena menos o cérebro.

Ensinamos a consciência corporal. A criança precisa saber como sentar corretamente com os pés apoiados e a coluna ereta. Verificamos a altura da mesa e da cadeira de estudos em casa. A ergonomia preventiva evita lesões crônicas na vida adulta. O hábito postural se forma na infância. Corrigir agora é muito mais fácil do que tratar uma hérnia de disco aos trinta anos.

Incentivamos a prática de esportes e o movimento livre como compensação ao tempo sentado. O corpo humano foi feito para o movimento. A fisioterapia orienta quais atividades físicas são mais indicadas para o tipo físico do seu filho. Uma boa postura reflete autoconfiança e prontidão para o mundo. Cuidar da coluna do estudante é investir na saúde do futuro trabalhador.

Fisioterapia preventiva em bebês típicos

Prevenção de deformidades cranianas

Muitos pais só procuram a fisioterapia quando veem um problema mas a prevenção é o nosso melhor serviço. A cabeça do recém-nascido é muito maleável. Se ele fica deitado sempre na mesma posição o osso achata. É a plagiocefalia posicional. Isso não é apenas estético. Pode causar desalinhamentos na mandíbula e nos olhos e até atrasos motores leves.

Nós ensinamos o “tummy time” ou tempo de barriga para baixo. É a vacina contra a cabeça chata. Colocar o bebê de bruços acordado e sob supervisão fortalece o pescoço e alivia a pressão na parte de trás da cabeça. Muitos bebês choram nessa posição porque é difícil. Nós mostramos técnicas para tornar esse momento agradável e progressivo garantindo um formato craniano simétrico.

Avaliamos também o torcicolo congênito leve que pode passar despercebido pelo pediatra. Pequenas restrições de movimento no pescoço fazem o bebê preferir um lado. Detectar isso nas primeiras semanas resolve o problema com poucos exercícios de alongamento. Prevenir a deformidade é infinitamente mais simples do que usar capacetes corretivos depois que o osso endureceu.

Orientações sobre o uso de equipamentos (andadores, cadeirinhas)

Aqui serei muito direta: andadores são perigosos e contraindicados. Eles atrasam a marcha independente causam acidentes graves e ensinam a criança a andar na ponta dos pés. A Sociedade de Pediatria condena e nós fisioterapeutas também. O andador dá uma falsa sensação de autonomia mas priva a criança de aprender a se equilibrar e a cair com segurança.

Cadeirinhas de descanso e “jumpers” (pula-pula de porta) também devem ser usados com muita moderação. O bebê precisa de chão. Equipamentos que prendem o bebê em uma posição vertical antes dele estar pronto sobrecarregam a coluna e o quadril. O uso excessivo pode levar a encurtamentos musculares e atraso no engatinhar. O melhor equipamento para o desenvolvimento é um tapete firme no chão.

Minha função é filtrar o marketing da indústria de produtos infantis. Nem tudo que vende é bom para o seu filho. Oriento sobre quais calçados são adequados (flexíveis e leves) e quais evitar (rígidos e cano alto). A escolha certa dos acessórios facilita o movimento natural. Economize dinheiro com equipamentos inúteis e invista em brinquedos que estimulam a atividade real da criança.

Fortalecimento do vínculo através do toque

A fisioterapia preventiva também ensina você a tocar seu filho. Técnicas como a Shantala (massagem para bebês) não servem apenas para relaxar. Elas melhoram a consciência corporal do bebê ajudam na digestão (cólicas) e regulam o sono. O toque firme e amoroso libera hormônios de bem-estar tanto no bebê quanto nos pais fortalecendo o laço afetivo.

Um bebê que é tocado e massageado conhece melhor os limites do próprio corpo. Isso facilita o desenvolvimento motor. Ensinamos manobras para aliviar gases e para acalmar o choro. Você aprende a ler os sinais corporais do seu filho e a responder a eles. Essa sintonia fina entre pais e bebê é a base emocional para um desenvolvimento saudável.

A prevenção foca na qualidade de vida da família. Bebê que dorme melhor e sente menos dor se desenvolve melhor. Pais mais seguros e tranquilos estimulam mais. A fisioterapia preventiva é um suporte integral para esse início de vida tão intenso. Não espere um problema aparecer para cuidar do desenvolvimento motor. Promover saúde é sempre o melhor caminho.

Terapias aplicadas e indicadas

Conceito Neuroevolutivo (Bobath)

Quando falamos de reabilitação neuropediátrica o Bobath é quase um sinônimo de tratamento. Não é uma técnica rígida mas um conceito de vida. A ideia central é inibir os movimentos anormais e facilitar os normais. Usamos pontos chave de controle no corpo da criança para guiar o movimento correto. É uma terapia “mão na massa”. O terapeuta manuseia a criança o tempo todo dando a ela a sensação de como é se mover corretamente. Usamos bolas rolos e bancos para desafiar o equilíbrio e o tônus. É indicado para quase todos os distúrbios motores desde paralisia cerebral até atrasos leves.

Integração Sensorial

Se o seu filho parece desajeitado tem medo de tirar os pés do chão ou busca agitação extrema a Integração Sensorial de Ayres é o caminho. A sala de terapia parece um parque de diversões com balanços redes lycras e piscinas de bolinhas. O objetivo é oferecer estímulos vestibulares (movimento) táteis e proprioceptivos de forma controlada. A criança precisa organizar essas sensações para dar uma resposta motora adaptativa. É fundamental para casos de Autismo TDAH e distúrbios de coordenação motora (Dispraxia). Aprender a processar o mundo sensorial é pré-requisito para o controle motor fino e grosso.

PediaSuit e Terapia Intensiva

Para casos onde precisamos de ganho de força e controle postural rápido o PediaSuit é revolucionário. A criança veste uma roupa especial cheia de elásticos que se conectam a uma gaiola de metal. Esses elásticos funcionam como músculos artificiais ajudando a sustentar o corpo e oferecendo resistência para fortalecer. É realizado geralmente em módulos intensivos de três ou quatro semanas com várias horas por dia. A repetição maciça aliada ao alinhamento que a roupa proporciona gera mudanças neuroplásticas profundas. É muito indicado para Paralisia Cerebral e síndromes que cursam com hipotonia severa ou falta de controle de tronco.

Hidroterapia

A água é um meio mágico para a fisioterapia. Na piscina aquecida a gravidade é reduzida o que permite que crianças com pouca força consigam se mover com liberdade. O calor da água relaxa a musculatura espástica (dura) e alivia dores. Além disso a pressão da água oferece uma resposta sensorial constante em toda a pele aumentando a consciência corporal. Trabalhamos a respiração o equilíbrio e a marcha de uma forma lúdica e segura. Para crianças que têm dificuldade de se mover em solo a hidroterapia oferece a experiência de independência e mobilidade que é vital para a autoestima e o desenvolvimento motor global.