Você provavelmente chegou aqui porque recebeu aquele diagnóstico que assusta qualquer um: hérnia de disco. Talvez você esteja com aquele exame de imagem na mão, cheio de termos técnicos complicados, sentindo uma dor que parece não ter fim e com uma única palavra ecoando na sua cabeça: cirurgia. É muito comum que, no momento em que a dor aperta, a gente busque a solução que parece mais rápida e definitiva. Mas eu preciso que você respire fundo e me escute um pouco antes de tomar qualquer decisão precipitada.
A verdade é que a medicina da coluna evoluiu muito, e o que a gente sabia há vinte anos não é mais a regra absoluta de hoje. Antigamente, qualquer alteração no disco era motivo para marcar o bloco cirúrgico. Hoje, nós sabemos que o corpo humano tem uma capacidade de regeneração e adaptação muito maior do que imaginávamos. A cirurgia tem, sim, o seu lugar, mas ela deixou de ser a primeira linha de combate para a grande maioria dos casos.[1]
Neste bate-papo, quero desmistificar essa ideia de que a lâmina é o único destino para quem tem hérnia. Vamos entender juntos o que está acontecendo na sua coluna, quando realmente devemos nos preocupar e, principalmente, como você pode retomar sua vida sem precisar passar por um procedimento invasivo. Acredite, existe um caminho seguro e muito eficaz que depende mais do movimento certo do que de uma operação.
O que realmente está acontecendo na sua coluna?
Para tirar o medo do diagnóstico, a gente precisa primeiro entender a mecânica da coisa. Imagine que entre cada osso da sua coluna (as vértebras) existe uma espécie de amortecedor natural.[2] Esse é o disco intervertebral.[2][3][4] Ele funciona como uma almofada hidráulica, feita para absorver impacto e permitir que você se dobre e gire. Quando falamos em hérnia, estamos dizendo que o recheio macio dessa almofada vazou para fora através de uma fissura na capa externa, que é mais dura.[2]
Esse material que vazou é rico em substâncias inflamatórias. Quando ele toca os nervos que passam ali pertinho, o corpo reage como se fosse um ataque químico. É por isso que dói tanto e, muitas vezes, a dor desce para a perna ou para o braço. Não é apenas algo “apertando” o nervo, é uma inflamação potente acontecendo ali. Entender isso muda tudo, porque se o problema é inflamatório e mecânico, a solução muitas vezes é resolver a inflamação e melhorar a mecânica, e não necessariamente cortar o pedaço que vazou.
Muitos pacientes chegam ao meu consultório achando que a coluna deles está “quebrada” ou “fora do lugar”. Isso não é verdade. Sua coluna é robusta e forte. A hérnia é um evento, uma fase, e não uma sentença de condenação eterna. O seu corpo não é frágil como vidro; ele está apenas passando por um momento de crise que precisa de gerenciamento inteligente, e não de pânico.
Anatomia simplificada: o “chiclete” entre as vértebras[2][3][4]
Gosto de usar a analogia do chiclete “Babaloo” para explicar o disco. Pense no disco como aquele chiclete que tem um recheio líquido dentro. A parte de fora é a borracha resistente (o anel fibroso), e dentro tem o líquido doce (o núcleo pulposo).[2][4][5] Ao longo da vida, ou por um esforço mal calculado, a borracha pode fazer uma pequena rachadura. Se você apertar o chiclete com força, o líquido de dentro vai querer sair por essa rachadura. É exatamente isso que acontece na sua coluna.
A questão é que, diferentemente do chiclete, o seu corpo está vivo. Quando esse núcleo sai, ele ocupa um espaço que não deveria. Mas aqui vai um segredo que pouca gente conta: com o tempo, esse material que extravasou tende a desidratar e diminuir de tamanho. O próprio corpo começa um processo de “faxina”, enviando células para comer e reabsorver esse pedacinho de disco que está fora do lugar.
Por isso, muitas vezes, uma ressonância magnética feita seis meses ou um ano depois da crise mostra que a hérnia diminuiu ou até sumiu, mesmo sem cirurgia. O nosso organismo é projetado para buscar o equilíbrio. Se a gente der as condições certas, ele faz o trabalho pesado de limpeza interna, sem precisar de ninguém abrindo suas costas para tirar o que está sobrando.
Por que dói tanto? A inflamação e a compressão
A dor da hérnia de disco é famosa por ser incapacitante, e isso tem uma explicação dupla. Primeiro, temos o fator mecânico: o material da hérnia ocupa espaço no canal por onde passam os nervos. Imagine pisar em uma mangueira de jardim; a água para de fluir. Quando algo comprime o nervo, a informação não passa direito, o que pode gerar formigamento, perda de força ou aquela dor que corre como um choque elétrico.
O segundo fator, e muitas vezes o pior, é a sopa química inflamatória. O núcleo do disco tem um pH ácido e substâncias que irritam profundamente a raiz nervosa. É como se você pingasse limão em um corte aberto. O nervo fica hipersensível. Qualquer movimento mínimo, às vezes até uma tosse ou um espirro, estira esse nervo inflamado e o cérebro recebe um sinal de perigo extremo.
Essa dor intensa faz com que os músculos em volta da coluna entrem em espasmo para proteger a área. É o famoso “travamento”. A musculatura fica dura como pedra para impedir que você mexa e machuque mais. Então, você tem a dor do nervo, a dor da inflamação e a dor muscular do travamento, tudo acontecendo ao mesmo tempo. É um ciclo que precisamos quebrar com movimento suave e controle da inflamação, não necessariamente com bisturi.
O corpo se cura? A absorção natural da hérnia[2][6]
Você sabia que quanto maior e mais “feia” a hérnia parece na imagem, maior a chance de o corpo reabsorvê-la espontaneamente? Parece contraditório, mas é ciência pura. Hérnias grandes, chamadas de extrusas ou sequestradas, rompem completamente a barreira do disco e caem no canal vertebral. Isso expõe o material do disco ao sistema sanguíneo de uma forma muito brusca.
O seu sistema imunológico reconhece aquele material como um “corpo estranho” e lança um ataque massivo de macrófagos — as células que fazem a limpeza do nosso organismo. É uma reação muito mais forte do que em pequenas protusões discais. Estudos mostram que uma grande porcentagem dessas hérnias volumosas regride significativamente em alguns meses apenas com tratamento conservador.
Isso significa que o tempo joga a seu favor, desde que você não esteja sofrendo com perda neurológica grave. Ter paciência e seguir o tratamento fisioterapêutico é, na maioria das vezes, a melhor estratégia. Operar para tirar algo que o seu corpo já está tentando “comer” e eliminar pode ser um risco desnecessário, além de interromper um processo natural de cura que já estava em andamento.
Cirurgia: Quando ela é realmente necessária?
Eu não sou contra a cirurgia. Como profissional de saúde, sei que ela salva vidas e funções importantes. O problema é a banalização do procedimento. Existem situações muito específicas onde a operação deixa de ser uma opção e vira uma necessidade urgente.[7] Você precisa saber identificar esses sinais para não cair no erro de operar por medo, mas também para não esperar demais quando a situação é crítica.
A cirurgia é indicada majoritariamente quando há falha mecânica grave que coloca em risco a função dos nervos de forma irreversível. Não operamos apenas por causa de “dor”. Dor é subjetiva e tratável de várias formas. Operamos quando a estrutura nobre do nosso corpo, que é o sistema nervoso, está sob ataque e começando a morrer.
Se você não se encaixa nos critérios de urgência que vou explicar a seguir, a cirurgia deve ser encarada como a última carta do baralho. Aquela que a gente só usa quando todas as outras jogadas não funcionaram.[8][9] E acredite, o baralho do tratamento conservador tem muitas cartas boas antes de chegarmos ao fim do jogo.
A Síndrome da Cauda Equina: o sinal de alerta máximo
Esse é o único momento em que eu diria para você correr para o hospital agora mesmo. A Síndrome da Cauda Equina é rara, mas gravíssima. Acontece quando a hérnia é tão grande e central que ela comprime todo o feixe de nervos no final da coluna, que se parece com o rabo de um cavalo (daí o nome).
Os sintomas são muito claros e diferentes da dor nas costas comum. Você pode sentir anestesia na região interna das coxas e na área genital (chamamos de anestesia em sela). Além disso, pode haver perda de controle da bexiga ou do intestino — você urina ou defeca sem sentir, ou então não consegue urinar mesmo com a bexiga cheia. Isso é uma emergência médica absoluta.
Nesse caso, a descompressão cirúrgica precisa ser feita em questão de horas para evitar sequelas permanentes, como incontinência urinária ou paralisia sexual. Se você sentir alterações nessa região íntima associadas à dor lombar, não espere a fisioterapia fazer efeito. Procure um pronto-socorro. Para todos os outros casos, temos tempo para respirar e pensar.
Perda de força progressiva: quando o nervo está sofrendo
Sentir dor é ruim, mas sentir que a perna não obedece é o que realmente nos preocupa. Se você notar que está tropeçando com frequência porque o pé está “bobo” (pé caído), ou que não consegue ficar na ponta dos pés, ou ainda que o joelho está falhando e você cai no chão, isso indica que o nervo motor está sofrendo uma compressão severa.
Não estou falando daquela fraqueza leve porque dói fazer força. Estou falando de mandar o comando para o dedão do pé levantar e ele não mexer nem um milímetro. Se essa perda de força for aguda e estiver piorando dia após dia, a janela para o tratamento conservador se fecha. O nervo não pode ficar comprimido por muito tempo sem oxigênio, ou ele morre.
Entretanto, se a perda de força for leve e estiver estável, ainda podemos tentar a fisioterapia. Muitas vezes, ao tirar a inflamação e descomprimir a área com exercícios específicos, a força volta. O monitoramento aqui é a chave. Testamos sua força em todas as sessões. Se estiver piorando, encaminhamos para o cirurgião.[5] Se estiver igual ou melhorando, continuamos com os exercícios.
Falha do tratamento conservador: o tempo certo de insistir
A literatura científica é muito clara: devemos tentar o tratamento conservador sério e bem feito por pelo menos seis a doze semanas. E quando digo “bem feito”, não é só tomar remédio e ficar deitado na cama esperando o milagre. É fisioterapia ativa, exercícios, terapia manual e mudança de hábitos.
Se depois de três meses de dedicação total, a sua dor continua insuportável, incapacitante, impedindo você de dormir e de trabalhar, aí sim podemos começar a discutir a cirurgia como uma opção para melhorar a qualidade de vida. Nesse ponto, a cirurgia entra não porque é obrigatória, mas porque você, o paciente, já não aguenta mais o sofrimento e o tratamento não evoluiu como esperado.
O erro comum é desistir da fisioterapia na segunda semana porque “ainda está doendo”. O processo de reabsorção e desinflamação leva tempo. O corpo não funciona no tempo do nosso imediatismo digital. Persistência é a palavra-chave aqui. Só dizemos que o tratamento falhou depois que realmente demos tempo e estímulo para o corpo reagir.
O mito da “cura rápida” com o bisturi
Existe uma fantasia muito perigosa de que a cirurgia é mágica: você entra com dor, dorme, o médico “corta o problema” e você acorda novo em folha para jogar futebol no fim de semana seguinte. Sinto lhe dizer, mas a realidade passa bem longe disso. A cirurgia é um trauma controlado, e o corpo reage a esse trauma.
Operar a coluna altera a anatomia e a biomecânica natural das suas costas. Quando você retira um pedaço do disco ou funde duas vértebras (coloca parafusos), você muda a forma como a carga é distribuída. Isso pode sobrecarregar os discos vizinhos, criando problemas futuros onde antes não existiam.
Além disso, a cirurgia trata a consequência (a hérnia), mas não necessariamente a causa (o mau movimento, a fraqueza, a postura). Se você opera e continua se movendo da mesma forma errada que causou a lesão, a chance de ter problemas novamente é altíssima. A cirurgia não é um passe livre para esquecer de cuidar da saúde da sua coluna.
A cirurgia não garante zero dor para sempre
Há uma condição chamada “Síndrome da Falha da Cirurgia de Coluna”. É triste, mas estatisticamente relevante. Uma parcela considerável dos pacientes operados continua com dor ou volta a ter dor meses após o procedimento. Às vezes, a dor muda: para de doer a perna, mas a lombar fica rígida e dolorida para sempre devido à cicatriz interna (fibrose) que se forma perto do nervo.
O tecido cicatricial é menos elástico que o tecido normal. Se essa fibrose “grudar” na raiz nervosa, você pode ter sintomas crônicos muito difíceis de tratar. Por isso, a promessa de “ficar livre da dor” deve ser vista com cautela. A cirurgia pode aliviar muito a dor aguda da perna, mas garantir que você nunca mais terá desconforto lombar é impossível.
Você precisa alinhar suas expectativas. Se a cirurgia for um sucesso, ela vai tirar a compressão aguda. Mas a manutenção de uma coluna saudável e sem dor vai depender, de novo, de você se manter ativo e forte. Não existe terceirização completa da responsabilidade sobre o seu corpo, nem mesmo para o melhor cirurgião do mundo.
O processo de reabilitação pós-cirúrgica é obrigatório
Se você acha que operar vai te livrar da fisioterapia, pense de novo. O pós-operatório de coluna exige uma reabilitação rigorosa. Você vai ter que reaprender a se mexer, vai ter que fortalecer a musculatura profunda para segurar a estabilidade que foi alterada pela cirurgia e vai ter que trabalhar a cicatriz.
Muitas vezes, a reabilitação pós-cirúrgica é mais delicada e lenta do que o tratamento conservador que evitaria a cirurgia. Nas primeiras semanas, seus movimentos serão restritos. Você vai precisar de ajuda para tarefas básicas. O retorno ao esporte ou ao trabalho pesado pode levar meses.
Então, se você vai ter que fazer fisioterapia de qualquer jeito, por que não se dedicar a ela agora, antes de entrar na faca? Se você se dedicar ao tratamento conservador com a mesma seriedade que se dedicaria a um pós-operatório, as chances de você não precisar operar são gigantescas. Encare a fisio pré-operatória como sua chance de ouro.
Riscos e complicações que ninguém gosta de contar
Toda cirurgia, por menor que seja, envolve riscos.[3] Anestesia geral, risco de infecção hospitalar, risco de trombose por ficar parado… No caso da coluna, ainda temos riscos específicos: lesão da dura-máter (a membrana que envolve a medula), lesão de raízes nervosas e instabilidade da coluna.
Uma complicação chata é a fístula liquórica, quando o líquido que banha o sistema nervoso vaza. Isso exige repouso absoluto, novas intervenções e muita dor de cabeça (literalmente, por causa da pressão intracraniana). Infecções profundas na coluna também são pesadelos que exigem meses de antibióticos e novas cirurgias de limpeza.
Claro que os cirurgiões são super treinados e as técnicas minimamente invasivas reduziram esses riscos. Mas eles nunca são zero. Colocar na balança o risco real de uma complicação versus o benefício esperado é fundamental. Se você não está numa situação de emergência, correr esses riscos pode não valer a pena.
O Poder do Tratamento Conservador: A Fisioterapia como protagonista[1][2][3]
Agora vamos falar de coisa boa, de solução. A fisioterapia moderna não é só “choquinho” e compressa quente. Isso é coisa do passado. Hoje, nós trabalhamos com raciocínio clínico avançado. O objetivo é devolver a função para o seu corpo, mostrando para o seu cérebro que se mexer é seguro e necessário.
O tratamento conservador é a estrela do show porque ele ataca a raiz do problema funcional. Nós vamos identificar quais movimentos você parou de fazer, quais músculos estão “dormindo” e quais estão trabalhando dobrado. A hérnia muitas vezes é o grito de socorro de uma coluna que não está se movendo bem há anos.
Ao optar por esse caminho, você não está apenas “evitando a cirurgia”.[10] Você está reeducando seu corpo. Você sai do tratamento não só sem dor, mas conhecendo seus limites, suas capacidades e com uma coluna muito mais preparada para a vida real do que antes da lesão. É um processo de empoderamento.
Descompressão e movimento: aliviando a carga mecânica
Uma das primeiras coisas que fazemos é tirar a pressão de cima do disco machucado. Usamos técnicas manuais de tração, mobilização vertebral e posicionamentos específicos que abrem os espaços entre as vértebras. É como se a gente desse um “alívio” para aquele chiclete amassado, permitindo que fluidos e nutrientes entrem e saiam, limpando a inflamação.
Mas o segredo não é ficar parado. O repouso absoluto é o pior inimigo da coluna. O disco precisa de movimento para se nutrir. Introduzimos movimentos direcionais — às vezes dobrar para trás, às vezes para o lado — que ajudam a centralizar o núcleo do disco e reduzir a dor na perna. Chamamos isso de preferência direcional.
Quando você descobre o movimento que “destrava” sua dor, você ganha uma ferramenta poderosa. Você aprende a se autotratar. Sentiu aquela pontada? Faz o exercício de descompressão e a dor alivia. Isso tira o medo e devolve o controle para as suas mãos.
Fortalecimento inteligente: criando um “cinturão” natural
Você já ouviu falar do Core? É muito mais do que ter um abdômen tanquinho. Estamos falando dos músculos profundos, como o transverso do abdômen e os multífidos, que abraçam sua coluna como um espartilho natural. Quando você tem dor, esses músculos tendem a desligar.
O nosso trabalho é “acordar” esses estabilizadores. Não com abdominais tradicionais que forçam o pescoço, mas com exercícios de controle motor. Você aprende a ativar esse cinturão interno antes de pegar um peso, antes de levantar da cadeira. Isso blinda sua coluna. O peso deixa de ir para o osso e passa a ser sustentado pelo músculo.
Com o tempo, progredimos para exercícios de força global. Glúteos fortes, pernas fortes e costas fortes tiram a sobrecarga da lombar. O corpo funciona em cadeia; se o seu quadril funciona bem, sua lombar sofre menos. O fortalecimento é o que vai garantir que a dor não volte daqui a seis meses.
Educação em dor: perdendo o medo de se mexer
Talvez essa seja a parte mais importante. Quem tem dor crônica desenvolve “cinesiofobia”, o medo do movimento. Você trava porque acha que se dobrar as costas, a hérnia vai pular para fora. Isso não acontece. Sua coluna é extremamente segura.
Na fisioterapia, fazemos um trabalho cognitivo de explicar que “dor não é igual a lesão”. Às vezes, você sente dor porque o sistema de alarme está sensível, não porque está rasgando algo. Ensinamos você a diferenciar a dor “boa” do esforço da dor “ruim” da lesão.
Expor você gradualmente aos movimentos que você tinha medo de fazer — como amarrar o sapato ou pegar uma sacola no chão — reprograma o cérebro. Quando você percebe que consegue se abaixar sem travar, a tensão muscular diminui e o ciclo da dor se quebra. A confiança é o melhor analgésico que existe.
Estilo de Vida e Prevenção de Recidivas[2]
Se você tratar a hérnia e voltar para a mesma rotina que a criou, adivinhe o que vai acontecer? O tratamento conservador envolve uma olhada honesta para o seu estilo de vida. Não precisamos que você vire um atleta olímpico, mas pequenas mudanças têm impactos gigantescos na saúde do seu disco.
O corpo humano foi feito para o movimento, e a vida moderna nos empurra para o sedentarismo. Ficar oito, dez horas sentado numa cadeira é antinatural. O seu disco desidrata, a musculatura atrofia. A prevenção de uma nova crise depende de como você gerencia suas 24 horas, não apenas da hora que você passa na clínica.
Aqui entramos num terreno onde você é o chefe. Eu posso te dar as ferramentas, mas quem constrói a casa é você. Ajustar o sono, a alimentação e o estresse são pilares que sustentam uma coluna sem dor. Vamos ver como isso funciona na prática.
A importância do sono e da hidratação para o disco
Seu disco intervertebral é feito majoritariamente de água. Durante o dia, com a gravidade e o peso do corpo, ele perde água e “murcha” um pouco. É à noite, quando deitamos para dormir, que ele se reidrata, absorvendo fluidos como uma esponja. Se você dorme mal ou pouco, esse processo fica incompleto.
Acordar com a coluna rígida pode ser sinal de que seus discos não se recuperaram bem.[2] Investir em um colchão que suporte bem suas curvas e ter uma rotina de sono decente é tratamento de saúde. Além disso, beber água ao longo do dia é combustível para essa reidratação. Disco seco é disco quebradiço.
Pense na água como o óleo do motor. Sem ela, as peças atritam e desgastam. Manter-se hidratado ajuda a manter a elasticidade e a altura dos discos, prevenindo novas compressões nervosas. É uma medida simples, barata e essencial.
Ergonomia no dia a dia: não é só sobre a cadeira do escritório
Muita gente acha que ergonomia é comprar uma cadeira de três mil reais. Ajuda, claro, mas a melhor postura é a próxima. O problema não é sentar torto, é sentar na mesma posição por horas a fio. O corpo precisa de variabilidade.
A regra de ouro é: a cada 40 ou 50 minutos, levante. Vá pegar água, espreguice, dê uma volta na sala. Quebre o padrão estático. Se você trabalha em pé, sente-se um pouco. Se trabalha sentado, levante-se. A alternância de posturas alimenta o disco e evita a fadiga muscular localizada.
Olhe também para fora do trabalho. Como você senta no sofá para ver série? Como você dirige? Como você pega seu filho no colo? Ajustar a altura da tela do computador para não ficar olhando para baixo poupa sua cervical. Usar as pernas para levantar peso poupa sua lombar. São detalhes que, somados, salvam sua coluna.
Gerenciamento do estresse: a tensão muscular e a coluna
Você já percebeu que quando está tenso, preocupado ou estressado, a dor aumenta? O estresse libera cortisol e adrenalina, que deixam os nervos mais sensíveis. Além disso, a tensão emocional vira tensão muscular física, geralmente nos ombros e na região lombar.
O estresse crônico mantém seus músculos em estado de alerta constante, comprimindo as vértebras e os discos sem parar. Aprender a relaxar não é luxo, é necessidade fisiológica. Técnicas de respiração diafragmática ajudam muito a “desligar” esse sistema de alerta e relaxar a musculatura profunda.
Incorporar atividades que te dão prazer e aliviam a cabeça ajuda diretamente na dor nas costas. Uma mente ansiosa amplifica a dor. Uma mente calma gerencia melhor os sintomas. Cuidar da saúde mental é cuidar da hérnia de disco.
Para fechar nosso papo com chave de ouro, quero falar sobre as abordagens práticas que nós, fisioterapeutas, usamos e que têm resultados fantásticos para casos como o seu.
A Osteopatia é excelente para reequilibrar a estrutura, trabalhando não só onde dói, mas as conexões da coluna com o quadril e até vísceras. O Método McKenzie (MDT) é talvez o mais famoso para hérnias, focado em encontrar aquele movimento específico de preferência direcional que “empurra” o disco de volta e centraliza a dor rapidamente.
Temos também a Estabilização Segmentar Vertebral, que é o treino fino do controle motor que mencionei, e o Pilates Clínico, que entra numa fase mais avançada para dar robustez e flexibilidade ao corpo todo. Em casos de muita dor aguda, a Mesa de Tração Eletrônica pode ser um recurso coadjuvante interessante para alívio momentâneo, permitindo que a gente entre com os exercícios logo em seguida.
O recado final é: a hérnia de disco não é o fim da linha. Na grande maioria das vezes, ela é apenas um obstáculo temporário que, com a orientação certa e a sua dedicação, pode ser superado sem nenhum corte. Confie no seu corpo, busque um bom fisioterapeuta e comece a se mexer. A cura está no movimento.