Dry Needling e o Alívio de Pontos de Gatilho: Um Guia Completo
Você provavelmente já sentiu aquele “nó” doloroso no ombro depois de um dia estressante de trabalho ou aquela fisgada na perna após um treino mais intenso. Nós, fisioterapeutas, lidamos com isso diariamente e sabemos o quanto essas dores limitam a sua vida. O Dry Needling, ou agulhamento a seco, surge como uma ferramenta poderosa para resolver esses problemas, mas ainda gera muitas dúvidas e até um certo receio em quem tem medo de agulhas.
Quero te explicar exatamente como essa técnica funciona, desmistificando o processo e mostrando por que ela é tão eficaz para “desligar” a dor muscular. Vamos conversar de forma franca, como se você estivesse aqui no meu consultório, prestes a começar o tratamento. Entender o que acontece no seu corpo é o primeiro passo para uma recuperação de sucesso e sem medos infundados.
O que é Dry Needling e como ele realmente age no corpo[1][2][3][4][5][6][7]
O Dry Needling é uma técnica invasiva utilizada por fisioterapeutas para tratar dores miofasciais.[1][8] Usamos agulhas filiformes, muito finas e sólidas, sem injetar qualquer tipo de medicamento ou substância líquida.[9][10] O termo “seco” vem justamente dessa característica: a agulha é o próprio instrumento de tratamento, agindo mecanicamente nas fibras musculares alteradas para promover o alívio da dor e restaurar a função do movimento.
A ação terapêutica acontece quando introduzimos a agulha diretamente no tecido muscular que está disfuncional. Não é mágica, é fisiologia pura. A agulha causa uma microlesão controlada que estimula o sistema nervoso central e aumenta a irrigação sanguínea na área. Isso “reseta” o músculo, permitindo que ele relaxe e que o ciclo de dor-tensão-dor seja interrompido de maneira quase imediata em alguns casos.
Diferente de tomar um relaxante muscular que age no corpo todo e dá sono, o agulhamento é extremamente específico. Nós vamos exatamente na fibra que está causando o problema. É uma abordagem “cirúrgica” no sentido de precisão, tratando o foco da dor sem sobrecarregar seu fígado ou estômago com medicamentos químicos. É uma intervenção mecânica para um problema mecânico.
Entendendo os pontos de gatilho (o “nó” muscular)[1][2][3][4][5][7][8][11][12]
O alvo principal do Dry Needling são os chamados Trigger Points, ou pontos de gatilho.[1][3][4][5][7][8][10][11] Imagine que seu músculo é feito de milhares de fios elásticos alinhados. Quando você faz um esforço repetitivo, tem má postura ou sofre um estresse emocional, algumas dessas fibras se contraem e não conseguem mais relaxar. Elas formam um nódulo palpável e hipersensível, aquele “caroço” que dói quando apertamos.
Esses pontos de gatilho mantêm o músculo em um estado de tensão constante. Isso encurta a fibra muscular, puxa os tendões e pode sobrecarregar as articulações vizinhas. O mais curioso sobre os pontos de gatilho é a capacidade de gerar dor referida. Muitas vezes, você sente uma dor de cabeça forte, mas a causa real é um ponto de gatilho ativo no músculo trapézio, lá no seu ombro.
Existem pontos de gatilho ativos e latentes.[2][5] O ativo dói o tempo todo e limita seu movimento. O latente só dói quando eu pressiono, mas ele já está lá, silenciosamente restringindo sua flexibilidade e deixando seu músculo fraco. O agulhamento funciona para desativar esses dois tipos, devolvendo ao músculo seu comprimento normal e sua capacidade de contração saudável.
A fisiologia da dor miofascial e a falta de oxigênio
Para entender por que a agulha funciona, você precisa entender o ambiente químico desse “nó”. Dentro do ponto de gatilho, ocorre uma crise de energia. As fibras contraídas comprimem os pequenos vasos sanguíneos que alimentam aquela região. Isso cria um estado de hipóxia, ou seja, falta de oxigênio. Sem oxigênio, o músculo não consegue produzir a energia necessária (ATP) para se desconectar e relaxar.
Além da falta de oxigênio, essa compressão faz com que o local acumule resíduos metabólicos ácidos e substâncias inflamatórias que irritam os nervos. É como se fosse um pântano tóxico em miniatura dentro do seu músculo. O corpo tenta proteger a área contraindo-a ainda mais, criando um ciclo vicioso que dificilmente se resolve apenas com alongamento ou massagem superficial.
Quando a agulha entra nessa região, ela rompe fisicamente essas microcápsulas de contração. Além disso, a microlesão provoca uma vasodilatação imediata. O sangue novo invade a área, trazendo oxigênio e nutrientes, e “lava” as substâncias ácidas que estavam causando dor. É literalmente trazer vida nova para um tecido que estava sufocado e dolorido.
A resposta de contração local (o “pulo” do músculo)[1]
Durante a aplicação, buscamos um fenômeno muito específico chamado “Local Twitch Response” ou resposta de contração local. Você vai sentir como se o músculo desse um pequeno pulo ou espasmo involuntário. Pode parecer estranho na primeira vez, mas nós, fisioterapeutas, adoramos ver isso acontecer. Esse espasmo é o sinal clínico de que atingimos o alvo com precisão.
Esse “twitch” é um reflexo espinhal que indica que a banda tensa foi estimulada e despolarizada. É como se a agulha obrigasse o músculo a dar um “reset” rápido. Após essa contração rápida, a atividade elétrica anormal daquela área cai drasticamente, e o músculo entra em um estado de relaxamento profundo que não conseguia atingir sozinho.
A obtenção dessa resposta de contração é frequentemente associada a melhores resultados no alívio da dor. Embora possa ser levemente desconfortável por uma fração de segundo, a sensação de alívio que vem logo depois é inigualável. O músculo fica mais solto, a amplitude de movimento aumenta e a dor pesada e constante desaparece ou diminui muito.
Dry Needling versus Acupuntura: Entendendo as diferenças[5][9][10][11][12][13][14]
Essa é a pergunta campeã no consultório. Como usamos agulhas muito parecidas, é natural que você confunda as duas técnicas. No entanto, o Dry Needling e a Acupuntura são completamente diferentes em suas origens, filosofias e objetivos clínicos.[13] Confundir os dois é como confundir um oftalmologista com um optometrista: ambos cuidam da visão, mas com abordagens distintas.
O Dry Needling é uma técnica estritamente ocidental, baseada em anatomia, fisiologia e neurofisiologia. Não falamos de energia ou canais místicos. Falamos de placa motora, sarcômeros, inflamação e tecido conjuntivo. A acupuntura é uma técnica da Medicina Tradicional Chinesa, milenar e baseada no equilíbrio energético do corpo.[5][9][11]
Para você, paciente, saber a diferença é importante para alinhar suas expectativas. Se você busca equilíbrio sistêmico, tratamento para insônia ou ansiedade, a acupuntura é incrível. Se você tem uma dor muscular mecânica, um travamento na coluna ou uma tendinite, o Dry Needling é geralmente mais direto e eficaz para resolver a disfunção tecidual local.
Filosofia oriental versus anatomia ocidental
A Acupuntura baseia-se no conceito de Qi (energia vital) que flui através de canais chamados meridianos.[5] Os pontos de acupuntura são fixos e mapeados nesses canais. O acupunturista insere a agulha para desbloquear ou equilibrar esse fluxo energético.[9][14] O diagnóstico é feito através da língua, pulso e outros sinais sistêmicos que avaliam a saúde dos órgãos internos.
Já no Dry Needling, eu não sigo um mapa de pontos fixos pré-determinados por meridianos. Eu sigo a sua anatomia e a sua dor. Eu palpo o seu músculo em busca da banda tensa e do ponto de gatilho específico que se formou ali. O raciocínio clínico é baseado na biomecânica: qual músculo está encurtado? Qual está fraco? Onde está a inflamação?
Isso significa que o tratamento de Dry Needling é totalmente personalizado pela palpação do dia. Se o seu ponto de gatilho mudou de lugar ou se a dor migrou, a minha agulha vai onde o problema está fisicamente localizado naquele momento. Baseamo-nos em estudos científicos recentes sobre dor e regeneração tecidual, e não em tradições filosóficas antigas.
O objetivo terapêutico de cada técnica[13]
O objetivo da acupuntura é sistêmico e holístico. Ela visa tratar a pessoa como um todo, equilibrando o Yin e o Yang. É comum usar pontos nos pés para tratar uma dor de cabeça, por exemplo, seguindo a lógica dos meridianos.[5] O alívio da dor na acupuntura ocorre, muitas vezes, pela liberação de opióides endógenos no sistema nervoso central.
O objetivo do Dry Needling é estrutural e mecânico. Queremos mudar a estrutura física do músculo. Queremos soltar a aderência, alongar a fibra encurtada e modular a dor na via nervosa local. É um tratamento focado na disfunção musculoesquelética.[1][2][3][7][12] Se você tem uma “lesão”, o agulhamento a seco vai atacar essa lesão diretamente.
Por isso, o Dry Needling é tão popular na fisioterapia esportiva e ortopédica. Ele conversa diretamente com as outras técnicas que usamos, como exercícios e mobilizações. Ele prepara o terreno, soltando a musculatura, para que possamos fortalecer e corrigir o movimento logo em seguida. É uma ferramenta de “desbloqueio” físico.[1]
A manipulação da agulha e a profundidade[4][12]
Na acupuntura tradicional, as agulhas são inseridas e, na maioria das vezes, deixadas paradas por 15 a 30 minutos. A inserção costuma ser mais superficial e indolor. O paciente muitas vezes relaxa a ponto de dormir durante a sessão, pois o objetivo é o reequilíbrio energético suave e progressivo.
No Dry Needling, a abordagem é mais dinâmica.[11] Frequentemente usamos uma técnica de “pistoning” (entrada e saída rápida da agulha) para buscar a resposta de contração local que mencionei antes. A agulha pode ir mais fundo, buscando músculos que estão abaixo de outras camadas, onde a mão do terapeuta às vezes não alcança com eficácia.
A agulha no agulhamento a seco não costuma ficar parada por muito tempo, embora existam técnicas estáticas.[11][14] Geralmente, eu encontro o ponto, estimulo, consigo a liberação e retiro a agulha. É um tratamento mais ativo e intenso. Você sente que algo está acontecendo lá dentro. A interação entre o terapeuta e o paciente é constante, com você me dando feedback sobre a reprodução da sua dor.
Como é a experiência da sessão: O que você vai sentir
Muitos pacientes chegam tensos na primeira sessão, esperando uma dor insuportável. A realidade é bem menos dramática. O medo do desconhecido é pior do que a técnica em si. Quero te guiar pelo que acontece passo a passo, para que você chegue ao consultório tranquilo e confiante no processo.
O ambiente precisa ser seguro e limpo. Usamos luvas e agulhas estéreis descartáveis, sempre. A comunicação é a chave de tudo. Eu nunca vou colocar uma agulha em você sem te avisar e sem explicar onde e porquê. Você está no controle e pode pedir para parar a qualquer momento se não se sentir confortável.
A sessão de Dry Needling é, acima de tudo, uma parceria. Eu preciso do seu feedback sensorial para saber se estou no local exato da sua dor. Diferente de um exame de sangue onde você só quer que acabe logo, aqui a sensação que a agulha provoca é uma informação clínica valiosa que guia o tratamento.
A avaliação palpatória: encontrando a dor exata
Antes de pegar qualquer agulha, eu vou usar minhas mãos. A palpação é a parte mais importante. Vou rastrear seus músculos como um caçador procurando pistas. Vou buscar bandas tensas, áreas mais rígidas e nódulos. Quando eu pressionar um ponto e você disser “é essa a minha dor” ou “essa dor vai para a minha cabeça”, bingo: achamos o alvo.
Essa etapa pode ser um pouco dolorida porque precisamos reproduzir os seus sintomas para ter certeza do diagnóstico. É a chamada “dor boa”, aquela que mostra que estamos mexendo no lugar certo. Vou marcar esses pontos, limpar a pele com álcool e preparar o material.
Você precisa estar relaxado em uma posição confortável, deitado ou sentado com apoio. Se o músculo estiver contraído por defesa porque você está nervoso, fica mais difícil entrar com a agulha e pode doer mais. Por isso, respire fundo. A agulha é muito mais fina que uma agulha de injeção ou de tirar sangue; ela desliza pelos tecidos em vez de cortá-los.
A sensação da agulha e o desconforto terapêutico[9][13][14]
A picada inicial na pele é quase imperceptível. Muitas vezes você nem sente. O que você vai sentir é quando a agulha toca o ponto de gatilho lá no fundo.[4] A sensação é descrita como um peso, uma pressão profunda ou uma cãibra surda. Nós chamamos isso de “De Qi” na acupuntura, mas no Dry Needling, focamos na reprodução da sua dor conhecida.
Quando ocorre o “twitch” (o pulinho do músculo), a sensação é de um choque elétrico muito rápido ou uma fisgada. Assusta, mas passa instantaneamente. É um sinal excelente de que o músculo soltou. Alguns músculos são mais sensíveis que outros. Panturrilhas e sola dos pés costumam ser mais intensos que as costas ou glúteos.
Eu sempre pergunto: “De 0 a 10, quanto está incomodando?”. O desconforto tem que ser tolerável. Se for demais, nós ajustamos. O objetivo não é torturar, é tratar. Mas saiba que o Dry Needling não é uma massagem relaxante de spa; é um tratamento médico-funcional que envolve sensações físicas intensas para gerar cura.
O pós-sessão: lidando com a dor residual
Imediatamente após a retirada da agulha, você já pode sentir uma melhora na amplitude de movimento. Aquele “travamento” agudo costuma sumir. Porém, é muito comum surgir o que chamamos de “dor pós-agulhamento” ou soreness. É uma sensação muito parecida com aquela dor muscular de quando você volta para a academia depois de meses parado.
Essa dor residual pode durar de algumas horas até dois dias. É uma resposta inflamatória natural e necessária para a regeneração do tecido. O corpo está limpando a área e reconstruindo as fibras. Não se assuste se o local ficar dolorido ao toque ou se aparecer um pequeno hematoma, embora isso seja menos comum em mãos experientes.
Para aliviar esse desconforto pós-sessão, recomendamos calor local (compressa quente), alongamentos leves e hidratação. Evite treinos pesados no mesmo grupo muscular no dia da aplicação. Dê ao seu corpo o tempo que ele precisa para processar o estímulo que demos. No dia seguinte, a sensação de liberdade de movimento compensa qualquer desconforto inicial.
Principais indicações: Quem deve procurar esse tratamento[9]
O Dry Needling é extremamente versátil. Ele não serve apenas para “dor nas costas”.[10][11] Ele pode ser a chave para resolver problemas crônicos que você já tentou tratar com remédios sem sucesso. Se a origem da sua dor é muscular ou miofascial, há grandes chances de o agulhamento te ajudar.[1][3][8]
É importante lembrar que raramente usamos o Dry Needling isoladamente. Ele é parte de um plano. Ele tira a dor para que você consiga fazer os exercícios de reabilitação.[3] Ele é o “destravador”. Vamos ver as condições clínicas onde temos os melhores resultados e onde você pode se beneficiar mais.
Lembre-se: o diagnóstico correto é fundamental. Nem toda dor no ombro é tensão muscular; pode ser uma bursite ou lesão no tendão. Por isso a avaliação do fisioterapeuta é soberana para indicar se o agulhamento é o melhor caminho para o seu caso específico.
Dores de cabeça tensionais e problemas na cervical[4][12]
Se você trabalha em escritório, no computador ou passa horas no celular, seus ombros provavelmente vivem perto das orelhas. Essa tensão crônica no trapézio e nos músculos do pescoço (como o levantador da escápula e esternocleidomastoideo) é a causa número um de cefaleias tensionais.
Muitos pacientes chegam achando que têm enxaqueca grave, quando na verdade têm pontos de gatilho ativos no pescoço que irradiam dor para a testa, olhos e têmporas. O agulhamento nesses músculos “apaga” a dor de cabeça quase instantaneamente em muitos casos, eliminando a necessidade de analgésicos diários.
Além da dor de cabeça, a rigidez cervical que te impede de olhar para o lado no carro (o famoso torcicolo) responde maravilhosamente bem. Soltando a musculatura profunda do pescoço, devolvemos a mobilidade das vértebras cervicais e aliviamos a pressão sobre os discos.
Lombalgias, ciático e dores no quadril
A dor lombar é a campeã de queixas. Muitas vezes, a culpa não é da hérnia de disco, mas do músculo quadrado lombar ou dos paravertebrais que estão em espasmo para proteger a coluna. Eles ficam duros como pedra e causam uma dor cansada, em barra, que piora ao ficar em pé.
O “falso ciático” é outro clássico. O músculo piriforme, que fica no glúteo, pode inflamar e comprimir o nervo ciático, causando dor que desce pela perna. Agulhar o glúteo e o piriforme pode liberar o nervo e acabar com a dor irradiada, sem precisar de cirurgia ou intervenções mais agressivas.
Também tratamos muito dores laterais no quadril (bursites trocantéricas) tratando os glúteos médio e mínimo. Ao relaxar esses músculos, diminuímos a tração sobre a bursa e o tendão, permitindo que a inflamação ceda naturalmente.
Atletas e lesões por “overuse” (sobrecarga)
Para quem pratica esportes, o Dry Needling é o melhor amigo da recuperação. Corredores sofrem com panturrilhas travadas e fascite plantar. O agulhamento nos músculos do gastrocnêmio e sóleo tira a tensão do tendão de Aquiles e da planta do pé de forma muito eficiente.
No CrossFit ou musculação, o excesso de carga gera pontos de gatilho por fadiga. Ombros, bíceps e coxas frequentemente desenvolvem bandas tensas que diminuem a força do atleta. “Limpar” esses pontos melhora a performance, pois um músculo sem nós contrai com mais eficiência e força.
Também usamos muito em tendinites (cotovelo de tenista, ombro de nadador). Ao relaxar o músculo que está puxando o tendão, tiramos a carga mecânica sobre a lesão. É tratar a causa (o músculo tenso) para curar a consequência (o tendão inflamado).
A Ciência da Segurança: Riscos e Contraindicações[11]
Como qualquer procedimento de saúde, o Dry Needling exige responsabilidade e conhecimento profundo. Não é apenas espetar agulhas aleatoriamente. Existe uma ciência rigorosa por trás da segurança do paciente. Quero que você entenda os riscos reais para que possa escolher um profissional qualificado sem medo.
A segurança começa na anamnese, aquela conversa inicial sobre sua saúde. Se você toma anticoagulantes, tem problemas de imunidade ou medo incontrolável de agulhas, precisamos saber. A técnica é segura quando respeitada, mas pode ser perigosa nas mãos de quem não conhece anatomia visceral e vascular.
O risco zero não existe em nenhuma intervenção médica, mas os eventos adversos graves no Dry Needling são raríssimos estatisticamente. A grande maioria dos efeitos colaterais resume-se a dor local, pequenos hematomas ou um leve cansaço após a sessão.
Mitos sobre o perigo e a “fobia” de agulhas[11]
Muitas pessoas deixam de se tratar por fobia. É importante dizer que a agulha de acupuntura é sólida e flexível, diferente da agulha oca hipodérmica de hospital que corta o tecido. A agressão ao tecido é mínima. Se você tem medo, nós podemos começar com poucas agulhas, fazer uma abordagem mais superficial e evoluir conforme sua confiança aumenta.
Não existe o risco da agulha “quebrar” dentro de você e viajar pelo corpo. Isso é mito de filme. As agulhas modernas são de aço inoxidável de alta qualidade e extremamente resistentes. Além disso, sempre deixamos uma parte da agulha fora da pele para controle total.
Outro mito é que vai sangrar muito. Como as agulhas são finíssimas, elas tendem a afastar os vasos sanguíneos em vez de perfurá-los. Quando ocorre um pequeno sangramento, é uma gotinha que para com uma compressão simples de algodão. Não é um procedimento sangrento.[4]
Anatomia segura: evitando pulmões e nervos importantes
Este é o ponto crucial: seu fisioterapeuta precisa saber anatomia 3D. Existem zonas de risco, principalmente no tórax e pescoço. Perto dos pulmões, existe o risco de pneumotórax (entrada de ar na pleura) se a agulha for inserida muito profundamente e na direção errada.
Porém, um profissional treinado conhece as “zonas de segurança” e as angulações corretas. Nunca agulhamos em direção ao pulmão; agulhamos tangencialmente ou sobre ossos (como a escápula ou costelas) que servem de barreira de proteção. O conhecimento anatômico transforma um procedimento de risco em um procedimento seguro.
O mesmo vale para nervos e artérias. Sabemos exatamente por onde passa o nervo ciático ou a artéria vertebral. A palpação prévia serve justamente para identificar e afastar essas estruturas nobres antes de inserir a agulha no músculo.
Quem não deve fazer (contraindicações absolutas)
Existem situações onde não aplicamos Dry Needling de jeito nenhum.[11][13][14] Pacientes com infecções ativas, febre ou infecções de pele no local da aplicação estão vetados até melhorarem. A agulha pode levar bactérias da superfície para o fundo do tecido.
Gestantes precisam de cuidado redobrado. Evitamos completamente a região abdominal e lombar, além de certos pontos que podem estimular contrações uterinas. Em geral, no primeiro trimestre, evitamos qualquer intervenção invasiva desnecessária.
Pacientes com distúrbios de coagulação graves ou em uso de altas doses de anticoagulantes também são contraindicados pelo risco de hematomas profundos (compartimentais). E, claro, se o paciente não consente ou tem pavor absoluto, respeitamos e buscamos outras técnicas manuais.
Potencializando Resultados com Terapias Combinadas[9][11][14]
O Dry Needling é um solista incrível, mas brilha mesmo quando faz parte de uma orquestra. A melhor fisioterapia é a multimodal, ou seja, aquela que combina diferentes ferramentas para atacar o problema por vários ângulos. Não acredite em profissionais que só fazem uma coisa.
Depois de “destravar” o músculo com a agulha, cria-se uma janela de oportunidade neurológica. O cérebro está mais receptivo a novos padrões de movimento. É a hora de ouro para intervir com outras técnicas que vão consolidar o ganho e evitar que a dor volte na semana seguinte.
A combinação de terapias acelera a alta do paciente. Em vez de 20 sessões só de choque e calor, conseguimos resultados robustos em 5 ou 6 sessões quando integramos agulhamento, terapia manual e exercícios.
Associando Eletroterapia ao Agulhamento (Eletro-Dry)
Uma técnica avançada e muito eficaz é conectar eletrodos nas próprias agulhas. Chamamos isso de Eletroestimulação Intramuscular. Usamos uma corrente elétrica terapêutica que passa por dentro do músculo, entre uma agulha e outra.
Isso potencializa o efeito relaxante e analgésico. A eletricidade cansa a fibra muscular de forma controlada ou estimula a liberação de opióides naturais do corpo de forma muito mais potente do que os eletrodos colados na pele (TENS). É excelente para dores crônicas antigas e músculos muito profundos e resistentes.
O paciente sente uma pulsação rítmica e profunda, geralmente muito agradável. Essa técnica ajuda a modular a dor neuropática e a restaurar a função do nervo em casos de radiculopatias (dores que irradiam da coluna).
A importância da Terapia Manual e Liberação Miofascial
Depois da agulha, minhas mãos entram em ação novamente. A liberação miofascial manual ajuda a espalhar o fluxo sanguíneo que a agulha trouxe e a organizar as fibras de colágeno da fáscia. É o acabamento fino do tratamento.
Usamos técnicas de massagem profunda, mobilização articular (ajustar as vértebras) e pompagens. A agulha tira o ponto focal de dor, e a terapia manual trata o tecido ao redor, garantindo que todo o sistema musculoesquelético esteja flexível e hidratado.
A combinação é perfeita: a agulha faz o trabalho “sujo” e difícil no ponto exato, e a mão faz o trabalho global de harmonização do tônus muscular. Isso reduz muito a dor pós-sessão e deixa o paciente com uma sensação de leveza.era
Exercícios de mobilidade para manutenção do ganho
De nada adianta eu soltar seu músculo se você voltar para a mesma postura e não se mexer. O exercício é o que “grava” a informação de cura no seu cérebro. Imediatamente após o agulhamento, eu vou pedir para você mover a parte tratada.
Se tratamos o pescoço, vamos fazer rotações. Se foi o ombro, vamos levantar o braço. Mostrar para o sistema nervoso que agora é seguro mover aquela região sem dor é fundamental para quebrar a memória da dor crônica.
Além disso, prescrevemos exercícios de fortalecimento específicos para os músculos que estavam fracos e sobrecarregados. O Dry Needling apaga o incêndio, mas é o fortalecimento que evita que a casa pegue fogo de novo.
No tratamento de pontos de gatilho e dores miofasciais, o Dry Needling se integra perfeitamente com abordagens como a Osteopatia, que busca o equilíbrio estrutural do corpo; a Quiropraxia, para ajustes articulares precisos; e a Liberação Miofascial Instrumental, que usa raspadores para tratar a fáscia superficial. O Pilates clínico também é altamente indicado na fase de manutenção para estabilizar a postura e prevenir recidivas.