Você já parou para pensar em quantas vezes por dia se abaixa para pegar algo? Seja uma caneta que caiu, as sacolas de compras ou até mesmo o seu filho pedindo colo. É um movimento tão automático que raramente prestamos atenção nele. No entanto, é exatamente nesses momentos de distração que a nossa coluna costuma enviar aquele sinal de alerta doloroso. Como fisioterapeuta, vejo diariamente pacientes chegando ao consultório travados, sem entender como um movimento “bobo” causou tanto estrago. A verdade é que a nossa coluna é uma estrutura de engenharia fascinante, mas ela exige respeito às suas leis biomecânicas.

Quando falamos em levantar peso, a primeira imagem que vem à mente é a de um halterofilista na academia, mas o risco real mora nas tarefas domésticas e no ambiente de trabalho. Aquele vaso de planta que você mudou de lugar ou a caixa de arquivos no escritório podem ser os vilões se a técnica usada for inadequada. A boa notícia é que proteger suas costas não exige equipamentos caros ou um corpo de atleta, apenas consciência corporal e alguns ajustes simples na forma como você se move.[9]

Neste artigo, vamos conversar de forma franca e prática sobre como transformar esse movimento cotidiano em algo seguro. Quero que você entenda não apenas o “como fazer”, mas o “porquê” de cada ajuste. Vamos mergulhar na mecânica do seu corpo, desmistificar crenças antigas e equipar você com ferramentas para manter sua coluna saudável por muitos anos. Prepare-se para mudar a forma como você interage com o mundo ao seu redor, começando pelo chão.

Por que a sua coluna “trava” ao pegar peso errado?

A biomecânica da coluna explicada de forma simples

Imagine que a sua coluna vertebral funciona como um guindaste. Quando você inclina o tronco para frente sem dobrar os joelhos, o ponto de apoio desse guindaste (a base da sua coluna) sofre uma pressão imensa.[7] Para você ter uma ideia, a física nos mostra que o peso de um objeto pode ser multiplicado por dez na sua lombar dependendo da distância que ele está do seu corpo. É o princípio da alavanca: quanto maior a alavanca (a distância entre o peso e o eixo), maior a força necessária para movê-lo.[10] Se você pega uma caixa de 10kg com os braços esticados e as pernas retas, sua lombar pode estar lidando com uma carga de compressão superior a 100kg.

Essa sobrecarga não acontece isoladamente.[7] Seus músculos das costas, que são projetados para estabilizar e não para levantar cargas pesadas sozinhos, entram em um estado de tensão extrema. Eles tentam proteger a coluna contraindo-se violentamente, o que muitas vezes resulta no famoso espasmo muscular ou “travamento”. É o corpo gritando “pare agora”. Entender essa mecânica básica é o primeiro passo para mudar seu comportamento. Você não quer usar sua lombar como um guindaste hidráulico; você quer usá-la como uma torre de sustentação firme, enquanto suas pernas fazem o trabalho pesado.

No meu dia a dia clínico, costumo usar a analogia da vara de pescar. Se você tentar levantar um peixe pesado com a vara totalmente na horizontal, segurando apenas pela ponta do cabo, a chance de ela quebrar é enorme. Mas se você trouxer o peixe para perto e usar a força do seu braço junto ao corpo, a estrutura aguenta. Sua coluna segue a mesma lógica. Manter a carga longe e o tronco curvado é a receita perfeita para falhas mecânicas que, com o tempo, deixam de ser apenas musculares e passam a afetar estruturas mais nobres.

O papel dos discos intervertebrais e a pressão

Entre cada uma das suas vértebras, existem amortecedores naturais chamados discos intervertebrais. Pense neles como pequenos “donuts” recheados com uma gelatina firme. Eles são fantásticos para absorver impacto vertical, como quando você caminha ou corre. No entanto, eles são péssimos para lidar com forças de cisalhamento, que acontecem quando você inclina e gira a coluna ao mesmo tempo. Quando você se curva para frente para pegar um peso, a parte da frente das vértebras “morde” o disco, empurrando o recheio gelatinoso para trás, em direção aos nervos da coluna.

Se esse movimento é feito repetidamente ou com uma carga muito alta, a parede posterior desse disco pode começar a ceder, criando fissuras. É assim que nascem as protusões e as hérnias de disco. O problema é que, muitas vezes, esse processo é silencioso. Você pode não sentir dor nas primeiras centenas de vezes que faz errado. Mas o desgaste é cumulativo. Um dia, ao pegar um simples papel do chão, a estrutura cede. Não foi o papel que causou a lesão; foi o histórico de anos de má distribuição de pressão sobre esses discos.

Eu sempre explico para meus pacientes que o disco intervertebral não tem um suprimento de sangue direto como os músculos, o que torna sua regeneração lenta. Por isso, a prevenção é o melhor remédio. Manter a curvatura natural da coluna (aquela leve depressão na lombar) durante o levantamento ajuda a distribuir a pressão uniformemente por todo o disco, em vez de concentrá-la apenas em um ponto crítico. É uma questão de geometria: alinhar as peças para que elas suportem a carga sem se deformar.

A diferença entre dor muscular e lesão estrutural

Muitas vezes você pode sentir um desconforto após um dia de mudanças ou faxina pesada, e surge a dúvida: “será que me lesionei?”. É fundamental distinguir a dor do “trabalho feito” da dor da “lesão”. A dor muscular tardia geralmente aparece 24 a 48 horas após o esforço, é difusa, espalhada pela região das costas e tende a melhorar com movimento suave e calor. Ela significa que seus músculos foram exigidos, talvez além do que estavam acostumados, e estão se recuperando e ficando mais fortes.

Por outro lado, a dor de uma lesão estrutural na coluna tem características diferentes.[11] Ela costuma ser aguda, pontual e pode vir acompanhada de uma sensação de choque elétrico. Se a dor desce para as pernas, causa formigamento ou fraqueza nos pés, isso é um sinal de que alguma estrutura (como o disco ou uma vértebra) está irritando um nervo. Esse tipo de dor tende a piorar com certos movimentos e não alivia simplesmente “esquentando” o corpo. Na verdade, insistir no movimento pode agravar o quadro significativamente.

Saber identificar esses sinais é vital. Se você sentir uma dor aguda e travamento imediato ao levantar algo, pare tudo. Não tente “alongar para ver se passa” naquele momento, pois isso pode aumentar a compressão se houver uma lesão discal aguda. O corpo tem mecanismos de defesa inteligentes; a rigidez inicial é uma forma de criar um “colete natural” para impedir que você mova a área machucada. Respeite a dor aguda e procure avaliação profissional, em vez de mascarar os sintomas com automedicação excessiva.

O passo a passo da técnica perfeita de levantamento

A preparação: Base de sustentação e avaliação da carga

Antes de colocar as mãos no objeto, o levantamento seguro começa com os olhos e os pés. A primeira regra de ouro é: avalie a carga. Dê um leve empurrão no objeto com o pé ou com a mão para estimar o peso. Muitas lesões acontecem porque o cérebro espera que algo seja leve, prepara a musculatura para isso, e de repente se depara com 50kg. Essa discrepância entre expectativa e realidade gera um “tranco” na coluna. Se o objeto for pesado demais, não seja herói. Peça ajuda ou use um carrinho. A inteligência vale mais que a força bruta.

Uma vez decidido que você vai levantar o peso, construa sua base. Seus pés devem estar afastados na largura dos ombros ou um pouco mais. Isso não é apenas sobre equilíbrio; é sobre criar espaço para o seu quadril descer. Se você mantiver os pés juntos, seus joelhos vão atrapalhar seu tronco e você acabará curvando as costas. Com a base larga, você ganha estabilidade lateral e permite que seu centro de gravidade baixe de forma controlada. Pense em uma pirâmide: quanto mais larga a base, mais difícil de derrubar.

Além da largura, o posicionamento dos pés importa.[7][12] Um pé pode ficar ligeiramente à frente do outro para aumentar a base de apoio no sentido ântero-posterior. Isso é especialmente útil se você vai caminhar com o objeto logo em seguida. Essa postura de “lutador” garante que, se o peso oscilar para frente ou para trás, você tem suporte para não perder o equilíbrio e não precisar compensar com a lombar. Lembre-se: um levantamento seguro começa antes mesmo de você tocar no objeto.[7]

O movimento: Agachamento e a força vindo das pernas

Agora vamos para a ação.[1][7][9][11] O segredo que todo fisioterapeuta tenta gravar na mente dos pacientes é: os motores do levantamento são as pernas, não as costas. Seus quadríceps (coxas) e glúteos são os grupos musculares mais fortes e volumosos do corpo. Eles foram feitos para gerar potência. Para ativá-los, você precisa agachar. Flexione os joelhos e o quadril, mantendo o peito estufado e o olhar para o horizonte. Evite olhar para os pés, pois onde a cabeça vai, a coluna tende a seguir, e olhar para baixo favorece o arredondamento das costas.

Ao descer, imagine que você vai sentar em uma cadeira baixa que está atrás de você. Isso ajuda a projetar o quadril para trás e manter os joelhos alinhados, evitando que eles avancem excessivamente sobre a ponta dos pés, o que poderia machucar as articulações dos joelhos. Nesse momento, sua coluna deve estar reta, como uma tábua. Você vai sentir uma tensão nas coxas – isso é ótimo! Significa que a carga está indo para o lugar certo. Se suas coxas não estão queimando, provavelmente suas costas estão sofrendo.

A subida deve ser um movimento explosivo e coordenado. Empurre o chão com os calcanhares, estendendo joelhos e quadril ao mesmo tempo. Evite o erro comum de esticar as pernas primeiro, deixando o tronco horizontal, e depois tentar levantar o tronco usando a lombar (o famoso movimento de “bom dia” da academia, que é perigoso com cargas altas sem treino). O tronco e as pernas devem subir em harmonia, como um elevador, mantendo a integridade da postura durante todo o trajeto até a posição ereta.

A execução: Mantendo a carga colada ao corpo e a coluna neutra

Durante todo o processo de subida, a localização do objeto é crucial.[5][7][11][12] Você deve trazer o peso para o mais próximo possível do seu corpo, quase “abraçando” a carga ou mantendo-a entre as coxas durante a subida inicial. Lembra da alavanca que mencionei antes? Cada centímetro que o peso se afasta do seu umbigo aumenta exponencialmente a tensão na sua coluna lombar. Manter o peso colado ao centro de gravidade do corpo anula esse efeito de alavanca desfavorável.

Além da proximidade, a manutenção da “coluna neutra” é vital. Coluna neutra não significa uma coluna reta como uma régua, mas sim manter as curvas fisiológicas naturais: a leve lordose na lombar (curva para dentro) e a cifose na torácica (leve curva para fora). Para conseguir isso, uma dica prática é “estufar o peito” e manter os ombros encaixados para trás e para baixo. Isso cria um bloqueio mecânico que protege os discos. Evite a todo custo que a sua lombar arredonde para fora (fazendo um “C” com as costas).

Se o objeto não tiver alças ou for difícil de segurar, garanta uma pegada firme antes de subir. Use luvas se necessário ou limpe as mãos. Escorregar a carga no meio do movimento gera uma reação reflexa de tentar agarrá-la no ar, e é nesses movimentos bruscos e descontrolados que ocorrem estiramentos musculares graves. A execução perfeita é fluida, controlada e mantém a carga como se fosse uma extensão do seu próprio corpo, movendo-se solidariamente a ele, e não como um pêndulo solto.

Erros clássicos que você comete sem perceber[2]

O “golpe” de girar o tronco com a carga nas mãos

Este é, sem dúvida, o campeão das lesões no consultório. O cenário é clássico: você levanta uma caixa do chão corretamente, mas precisa colocá-la em uma mesa que está à sua esquerda. Em vez de virar os pés e o corpo todo em bloco, você mantém os pés plantados no chão e torce apenas o tronco com o peso nas mãos. Esse movimento de rotação com carga é venenoso para os discos intervertebrais. As fibras que compõem o anel externo do disco são dispostas em camadas diagonais; a rotação tensiona metade dessas fibras e afrouxa a outra, deixando o disco vulnerável a rupturas.

A combinação de flexão (dobrar para frente) com rotação é o mecanismo número um para hérnias de disco traumáticas. Quando você gira o tronco segurando peso, você está “espremendo” o disco enquanto o torce, semelhante a torcer um pano molhado. A pressão interna sobe drasticamente e a estrutura não tem suporte muscular adequado nessa angulação para proteger as articulações facetárias da coluna. É um movimento que deve ser banido do seu repertório de movimentação de cargas.

A correção é simples, mas exige reeducação: aprenda a dançar com o peso. Se você precisa colocar o objeto ao lado, mova os pés. Dê pequenos passos, girando o corpo inteiro como um bloco sólido – quadril e ombros devem estar sempre alinhados no mesmo plano. Imagine que você tem um farol no peito e outro na fivela do cinto; os dois devem iluminar sempre a mesma direção. Virar os pés pode demorar um segundo a mais, mas vai economizar meses de sessões de fisioterapia.

Levantar o peso longe do centro de gravidade

Muitas vezes, por pressa ou por nojo de sujar a roupa, temos a tendência de pegar objetos mantendo os braços esticados longe do corpo. Pense naquelas situações em que você tira uma sacola pesada do porta-malas do carro ou pega uma caixa suja no chão da garagem. Ao esticar os braços, você cria um braço de alavanca longo. Isso obriga os músculos paravertebrais (nas costas) a trabalharem com uma força descomunal apenas para impedir que você caia de cara no chão, antes mesmo de começar a levantar a carga.

Essa postura transfere o ponto de fulcro da força diretamente para a transição lombossacra (L5-S1), que já é a área mais sobrecarregada do corpo humano naturalmente. Ao fazer isso, você está transformando um objeto de 5kg em uma carga percebida de 30kg ou 40kg para a sua coluna. Além do risco de lesão discal, isso gera uma fadiga muscular rápida, levando a dores de tensão que podem durar dias. Os músculos entram em exaustão e falham na sua função de proteção.

A solução exige que você se aproxime ou traga o objeto para si antes de levantá-lo.[7][12][13] Se for tirar algo do porta-malas, encoste suas pernas no parachoques, arraste o objeto para a beirada e, só então, levante-o, mantendo-o roçado na sua roupa. Se a preocupação é sujar a camisa, use um avental ou aceite a sujeira; lavar a roupa é muito mais fácil e barato do que tratar uma hérnia de disco. A física é implacável: mantenha seus amigos perto e suas cargas mais perto ainda.

A pressa e a falta de ativação do abdômen

Vivemos em um mundo acelerado e tendemos a fazer tudo no modo automático. Ao ver algo no chão, o impulso é pegar “de qualquer jeito” e sair andando. Nesse processo, esquecemos de ativar o nosso cinto de segurança natural: o abdômen. O “Core” não serve apenas para estética; ele cria uma pressão intra-abdominal que dá suporte à coluna por dentro. Quando você levanta peso com a barriga relaxada, a coluna fica instável e vulnerável a micro-movimentos que causam desgaste.

A falta de preparação mental antes do movimento é um erro fatal. O corpo precisa de uma fração de segundo para pré-ativar a musculatura estabilizadora. Se você pega o peso de surpresa, os ligamentos e discos recebem o impacto antes que os músculos possam reagir.[7] É como pular de uma altura sem dobrar os joelhos para amortecer; o impacto vai seco nas articulações. A pressa nos faz ignorar a técnica de agachamento, levando ao famigerado movimento de dobrar a coluna arredondada, que já discutimos ser perigoso.

Para corrigir isso, incorpore o hábito do “Bracing” (ativar o bracelete abdominal). Antes de puxar o peso, respire fundo, solte um pouco o ar e contraia levemente o abdômen, como se fosse receber um soco na barriga. Isso deve ser feito sem prender a respiração totalmente (não faça a manobra de Valsalva excessiva se tiver pressão alta, apenas mantenha a tensão). Essa ativação rígida do tronco protege a coluna e transfere a força das pernas para a carga de forma eficiente. Trate cada levantamento, mesmo que seja leve, como um exercício sério.

Fortalecimento preventivo: O segredo para uma coluna blindada

A importância do “Core” além dos abdominais tradicionais

Quando falo para meus pacientes fortalecerem o abdômen, muitos pensam imediatamente naqueles abdominais clássicos de academia, deitado no chão e puxando o pescoço. Esqueça isso. Para proteger a coluna, precisamos focar nos músculos profundos, especialmente o transverso do abdômen e os multifídios. O transverso funciona como um espartilho natural, envolvendo toda a sua cintura. Quando ele está forte e funcional, ele comprime as vísceras e estabiliza a coluna lombar antes de qualquer movimento dos membros.

Exercícios de estabilização, como a prancha (frontal e lateral) e o “Dead Bug” (inseto morto), são infinitamente mais valiosos para a saúde da coluna do que mil abdominais convencionais. O objetivo é ensinar o seu tronco a resistir ao movimento, a ficar imóvel enquanto seus braços e pernas se mexem. Isso simula a vida real: quando você carrega sacolas ou levanta uma caixa, você quer que seu tronco fique estável enquanto seus membros trabalham. Um Core forte é a base onde a força é gerada e transmitida.

Além da força, precisamos treinar o timing. De nada adianta ter músculos fortes se eles “dormem” na hora que você precisa. Práticas como o Pilates focam muito nessa consciência de ativar o centro de força (Powerhouse) antes de iniciar o movimento. Incorporar essa ativação no dia a dia – ao levantar da cama, ao pegar o filho no colo, ao amarrar o sapato – reeduca o sistema nervoso para proteger sua coluna automaticamente, sem que você precise pensar nisso o tempo todo.

Pernas fortes salvam costas: Por que treinar glúteos e coxas?

Você já reparou como crianças pequenas agacham perfeitamente para pegar brinquedos? Elas têm mobilidade e força relativa nas pernas. Com o tempo, perdemos isso e passamos a usar as costas. Para voltar a levantar peso corretamente, suas pernas precisam aguentar o tranco. Quadríceps fortes permitem que você desça e suba no agachamento com segurança. Mas os verdadeiros heróis esquecidos são os glúteos. Eles são os principais extensores do quadril e deveriam ser a fonte primária de força ao levantar o tronco.

Se seus glúteos são fracos ou “amnésicos” (síndrome do glúteo morto, comum em quem trabalha muito tempo sentado), os músculos da lombar e os isquiotibiais (posteriores da coxa) tentam compensar. O resultado é sobrecarga lombar. Fortalecer os glúteos com exercícios como a ponte (elevação pélvica), agachamentos e afundos não é apenas uma questão estética, é uma questão de saúde pública para sua coluna. Glúteos fortes estabilizam a bacia e tiram a pressão da base da coluna.

Invista tempo em treinar agachamentos funcionais. Comece sentando e levantando de uma cadeira sem usar as mãos, controlando a descida. Progrida para segurar um peso (como um garrafão de água) junto ao peito enquanto agacha (o chamado Goblet Squat). Isso ensina seu corpo a mecânica correta: coluna reta, peso no calcanhar, joelhos para fora e quadril para trás.[3][12] Quando suas pernas se tornam as protagonistas do movimento, suas costas podem finalmente descansar e atuar apenas como estabilizadoras, função para a qual foram desenhadas.

Mobilidade de quadril: O elo perdido na prevenção de lesões

Muitas pessoas sabem a teoria (“tenho que dobrar os joelhos”), mas na prática não conseguem executá-la porque seus corpos estão “travados”. A falta de mobilidade no quadril é uma das principais causas de lesões na coluna. Se o seu quadril não dobra o suficiente, sua coluna lombar será obrigada a dobrar para compensar e alcançar o chão. O corpo sempre busca o caminho de menor resistência, e se o quadril está rígido, a coluna paga o preço.

A rigidez nos isquiotibiais (músculos atrás da coxa) também é um fator limitante. Se eles estão encurtados, eles puxam a bacia para baixo quando você tenta se inclinar, forçando o arredondamento da lombar. Trabalhar a flexibilidade dessa cadeia posterior e a mobilidade da articulação do quadril permite que você faça o movimento de “dobradiça” (hinge) corretamente, mantendo a coluna neutra enquanto o tronco se inclina à frente.

Incorpore alongamentos dinâmicos e exercícios de mobilidade na sua rotina matinal. Movimentos como o “posicionamento de cócoras” (tentar ficar de cócoras com os calcanhares no chão) ajudam a soltar o quadril e os tornozelos. Quanto mais livre for o movimento nas suas juntas esféricas (quadril e ombros), menos movimento compensatório perigoso você precisará realizar nas juntas de estabilidade (coluna lombar). Mobilidade é liberdade de movimento com segurança.

Ergonomia no dia a dia: Além do levantamento de peso[2][5][7][8][11][13]

Como lidar com objetos do cotidiano

Nem sempre levantamos caixas quadradas e perfeitas. A vida real nos apresenta desafios disformes: sacolas de supermercado que cortam os dedos, mochilas pesadas ou crianças inquietas. Para sacolas de compras, a regra é o equilíbrio. Nunca carregue tudo em uma mão só, pois isso força uma inclinação lateral da coluna que comprime os discos de um lado só. Divida o peso igualmente entre as duas mãos. Se tiver apenas uma carga pesada, alterne os braços frequentemente e mantenha o abdômen contraído para evitar que o tronco incline.

Ao levantar crianças, a dinâmica é mais complexa porque elas se mexem. Aproxime-se, agache-se e peça para a criança também colaborar (se tiver idade), segurando no seu pescoço. Traga-a para o seu centro de gravidade antes de subir. Evite carregar a criança apoiada em um lado só do quadril por longos períodos, pois isso cria uma escoliose funcional temporária e sobrecarrega a lombar e o quadril oposto. Use carrinhos ou cangurus ergonômicos sempre que possível para passeios longos.[9]

Para tarefas domésticas como varrer ou passar aspirador, o princípio é o mesmo: evite a flexão constante da coluna. Use cabos de vassoura longos que permitam que você trabalhe com as costas retas. Em vez de se curvar para alcançar o pó embaixo do sofá, ajoelhe-se (use uma almofada para os joelhos) ou agache-se. Pequenas adaptações na forma como você executa essas tarefas repetitivas acumulam uma grande economia de desgaste para sua coluna ao longo da semana.

O ambiente ao seu redor: Organização para evitar esforços desnecessários

A melhor maneira de não lesionar a coluna levantando peso é… não precisar levantar o peso, ou levantar menos. A organização do seu ambiente (seja em casa ou no trabalho) é a chamada ergonomia preventiva. Armazene os objetos mais pesados e de uso frequente na “zona de ouro”, que fica entre a altura dos seus joelhos e dos seus ombros. Evite guardar caixas pesadas no chão ou em prateleiras muito altas acima da cabeça.

Se você trabalha em um estoque ou despensa, use escadas estáveis para alcançar objetos altos, em vez de esticar o corpo e tentar baixar um peso acima da linha dos ombros, o que é desastroso para a cervical e lombar.[11] Planeje o trajeto antes de levantar a carga: há tapetes soltos no caminho? Portas fechadas? Brinquedos no chão? Tropeçar carregando peso é um mecanismo comum de lesão aguda, pois o corpo faz um movimento chicote para recuperar o equilíbrio.

Outra dica valiosa é fracionar a carga.[9] Se você tem uma caixa grande cheia de livros, não tente levá-la de uma vez. Tire metade dos livros, leve a caixa mais leve e depois volte para buscar o resto. Fazer duas viagens pode parecer “perda de tempo”, mas é um investimento na sua saúde. A preguiça de fazer duas viagens é a mãe de muitas hérnias de disco. Pense na sustentabilidade do seu corpo a longo prazo.

Sinais de alerta: Quando o corpo pede descanso

Você precisa se tornar um especialista em escutar o seu próprio corpo. Existe uma diferença entre o cansaço normal e a dor patológica. Se você sente pontadas, queimação localizada ou dores que persistem mesmo em repouso, seu corpo está pedindo uma pausa. Ignorar esses sinais e continuar carregando peso à base de analgésicos é o caminho mais rápido para uma lesão crônica irreversível.

A fadiga muscular é um precursor da lesão. Quando os músculos cansam, eles param de estabilizar a coluna corretamente, e a carga passa a ser suportada pelos ligamentos e discos. Se você teve um dia exaustivo, evite fazer esforços pesados no final do dia. Deixe para mover aquele móvel ou carregar aquelas caixas pela manhã, quando seus músculos estão descansados e seus discos reidratados após uma noite de sono (os discos recuperam altura e volume durante a noite).

Respeite também os dias em que você não está bem. Estresse, falta de sono e má alimentação influenciam a tensão muscular e a percepção de dor. Nesses dias, sua coluna está mais vulnerável. Se precisar levantar algo, redobre a atenção na técnica. A autoconsciência é a ferramenta mais sofisticada de prevenção que existe. Trate sua coluna como o pilar central da sua vida, porque, de fato, ela é.

Terapias aplicadas e indicadas

Quando a prevenção falha ou quando você já tem um histórico de dor nas costas, é fundamental buscar ajuda especializada para reabilitar a função e aprender a se mover sem dor. Como fisioterapeuta, indico diversas abordagens que vão muito além de apenas “tirar a dor”, focando em tratar a causa do problema.

Fisioterapia Ortopédica e Manual é a linha de frente. Utilizamos técnicas de liberação miofascial para soltar a musculatura travada, mobilizações articulares para devolver o movimento às vértebras rígidas e eletroterapia para controle da dor aguda. Mas o ouro está na cinesioterapia (exercícios terapêuticos), onde ensinamos o paciente a fortalecer os músculos específicos que protegem a coluna.

Osteopatia e a Quiropraxia são excelentes para ajustes biomecânicos. Elas trabalham com a manipulação da coluna e das articulações para restaurar a mobilidade e o alinhamento, aliviando a pressão sobre os nervos e melhorando a função geral do corpo. São ótimas para crises agudas e para manutenção da mobilidade.

RPG (Reeducação Postural Global) é fantástico para quem tem vícios posturais de longa data. É um método que trata o corpo como um todo, alongando cadeias musculares encurtadas e fortalecendo as enfraquecidas, buscando o equilíbrio postural estático e dinâmico.[4] É uma terapia de conscientização corporal profunda.

Por fim, o Pilates Clínico é talvez o melhor “pós-reabilitação” que existe. Ele foca intensamente no “Core” (centro de força), na respiração e no controle do movimento. Praticar Pilates ensina seu corpo a se mover de forma elegante, eficiente e segura, criando uma armadura muscular natural que protege sua coluna nas atividades do dia a dia. Se você quer levantar pesos do chão sem medo, o Pilates é um excelente laboratório para treinar esses movimentos em um ambiente controlado.