Você provavelmente chegou aqui porque sente dores que parecem migrar pelo corpo ou conhece alguém que vive exausto, mesmo após uma noite inteira na cama. A fibromialgia não é uma doença visível em um raio-X, mas a dor que ela causa é real e limita sua vida. Como fisioterapeuta, vejo diariamente a frustração de quem convive com esse diagnóstico. A boa notícia é que o movimento orientado é, sem dúvida, o remédio mais potente que temos à disposição hoje. Vamos conversar sobre como a fisioterapia atua não apenas no alívio momentâneo, mas na reprogramação de como seu corpo interpreta a dor.

O que realmente acontece no seu corpo com a fibromialgia

A sensibilização central explicada

Imagine que o sistema de alarme da sua casa está com defeito. Normalmente, ele só deveria tocar se alguém tentasse arrombar a porta. Na fibromialgia, esse alarme dispara com o vento, com uma folha caindo ou até sem motivo nenhum. Chamamos isso na fisioterapia de sensibilização central. O seu sistema nervoso central, que inclui o cérebro e a medula espinhal, fica “hipervigilante”. Ele amplifica sinais que, em outras pessoas, seriam apenas um toque suave ou uma pressão leve, transformando-os em dor real e intensa.

Essa alteração na química cerebral muda a forma como seus neurônios conversam entre si. Não é que você está inventando a dor ou que ela é “psicológica”. O “botão de volume” da dor no seu corpo está travado no máximo. Durante o tratamento, precisamos entender que o tecido muscular muitas vezes não tem uma lesão grave, mas o processamento da informação está alterado. Isso muda completamente nossa abordagem, pois não tratamos apenas um músculo inflamado, tratamos um sistema nervoso que precisa ser acalmado e reeducado.

Entender esse mecanismo é o primeiro passo para o tratamento. Quando você sabe que a dor que sente não significa necessariamente que seu corpo está sofrendo um dano físico novo a cada dia, o medo diminui. Essa redução do medo é crucial para baixar a guarda do sistema nervoso. A fisioterapia trabalha justamente nessa modulação, ensinando ao seu cérebro, através de estímulos controlados, que ele pode baixar o volume desse alarme.

Por que o movimento dói tanto no início

Muitos pacientes me perguntam: “Se o movimento cura, por que eu sinto tanta dor quando tento me exercitar?”. A resposta está na hipersensibilidade dos seus tecidos e naquilo que chamamos de limiar de dor reduzido. Seus músculos e fáscias estão em um estado constante de tensão protetora. Quando você tenta movê-los, o corpo interpreta esse alongamento ou contração como uma ameaça, disparando mais sinais de dor para tentar fazer você parar. É um mecanismo de defesa que se tornou exagerado e disfuncional.

Além disso, existe a questão química local. Músculos que não se movimentam adequadamente acumulam substâncias inflamatórias e metabólitos ácidos. Quando começamos a mexer, aumentamos o fluxo sanguíneo e “lavamos” essa área, mas o processo inicial de reativação pode gerar desconforto. É como tentar ligar um motor que ficou parado no frio por muito tempo; ele engasga antes de funcionar suavemente. A dor inicial não é sinal de piora da doença, mas sim de adaptação de um corpo destreinado e sensível.

Você precisa ter paciência nessa fase inicial. É comum haver um aumento temporário das dores nas primeiras sessões de fisioterapia. Não desista. O corpo precisa desse tempo para entender que o movimento é seguro. Nós, fisioterapeutas, ajustamos a carga e a intensidade justamente para respeitar esse limite, progredindo milimetricamente para não sobrecarregar seu sistema já estressado. O segredo não é parar de mexer, mas mexer na dose certa.

A relação entre fadiga muscular e dor crônica

A fibromialgia não vem sozinha; ela traz uma fadiga avassaladora. Seus músculos funcionam de forma menos eficiente energeticamente. Estudos mostram que há alterações nas mitocôndrias, as usinas de energia das células, em pacientes com essa condição. Isso significa que você gasta muito mais energia para fazer as mesmas tarefas que uma pessoa sem fibromialgia faria sem esforço. O resultado é um cansaço muscular precoce, que leva a uma postura ruim e a compensações mecânicas.

Quando seu músculo fadiga, ele perde a capacidade de absorver impacto e proteger suas articulações. Isso gera uma sobrecarga secundária em tendões e ligamentos, criando novos focos de dor. É um ciclo vicioso: a dor causa inatividade, a inatividade causa perda de massa muscular e eficiência energética, o que leva à fadiga rápida e, consequentemente, a mais dor. A fisioterapia atua para quebrar esse ciclo, melhorando a resistência muscular localizada.

Trabalhamos para melhorar a capacidade do seu músculo de utilizar oxigênio. Um músculo condicionado cansa menos. Se ele cansa menos, ele não entra em espasmo e não envia sinais de alerta para o cérebro com tanta frequência. O objetivo aqui não é transformar você em um atleta olímpico, mas garantir que você consiga subir um lance de escadas ou carregar as compras do mercado sem que isso drene toda a sua energia para o resto do dia.

O papel central da fisioterapia no tratamento

Quebrando o ciclo dor-imobilidade-dor

O comportamento mais natural do ser humano quando sente dor é ficar quieto. Você se protege, deita, evita o esforço. Na dor aguda, como torcer o pé, isso é ótimo. Na dor crônica da fibromialgia, isso é veneno. A imobilidade gera rigidez articular, encurtamento muscular e reduz a lubrificação das suas articulações. O termo técnico para o medo de se mover é cinesiofobia, e ela é um dos maiores obstáculos que enfrentamos no consultório.

A fisioterapia entra aqui como um guia seguro. Eu mostro a você que é possível se mover sem se machucar. Começamos com movimentos que você nem percebe que são exercícios, apenas para mostrar ao seu cérebro que aquela articulação ainda funciona. Ao quebrar a inércia, começamos a produzir fluido sinovial, que nutre a cartilagem, e bombeamos sangue para os tecidos isquêmicos (com pouco oxigênio). Esse processo biológico natural é o início do alívio real.

Você precisa confiar no processo. Quando conseguimos introduzir movimento na sua rotina, começamos a reverter a atrofia muscular causada pelo desuso. Músculos mais fortes suportam melhor o esqueleto e tiram a pressão de áreas sensíveis. A fisioterapia não tira a dor com a mão magicamente, ela dá ao seu corpo as ferramentas biológicas para que ele mesmo pare de gerar dor desnecessária. É um processo ativo onde você é o protagonista, e eu sou o facilitador.

Recuperando a funcionalidade do dia a dia

Muitas vezes, o paciente chega ao consultório não reclamando apenas da dor, mas do que ele deixou de fazer por causa dela. “Não consigo mais brincar com meus netos”, “não consigo estender a roupa no varal”, “não consigo dirigir por mais de 20 minutos”. A fisioterapia foca na recuperação funcional. Nosso objetivo final não é apenas zerar a escala visual de dor, mas devolver a sua autonomia para realizar as Atividades de Vida Diária (AVDs).

Analisamos como você realiza esses movimentos. Será que você está tensionando os ombros desnecessariamente ao digitar? Será que você trava a respiração quando vai pegar algo no chão? Essas pequenas correções biomecânicas fazem uma diferença enorme no final do dia. Ensinamos estratégias de conservação de energia, mostrando como realizar tarefas complexas de forma fracionada ou com biomecânica mais vantajosa para suas articulações.

A funcionalidade é o melhor indicador de saúde. Mesmo que você ainda sinta algum grau de desconforto, ser capaz de voltar a realizar suas atividades prazerosas libera neurotransmissores de bem-estar, como dopamina e serotonina, que são analgésicos naturais potentes. A reabilitação foca em treinar gestos específicos que você usa na sua vida, tornando o tratamento personalizado e diretamente aplicável à sua realidade.

Educação em dor e autogerenciamento

O conhecimento é um analgésico. Estudos comprovam que pacientes que entendem a neurofisiologia da dor sentem menos dor e lidam melhor com as crises. Parte essencial da minha sessão de fisioterapia é conversar e explicar. Você precisa entender o que são os “gatilhos” (triggers) que pioram sua condição — seja estresse emocional, frio, má qualidade do sono ou excesso de atividade física em um dia bom (o efeito “boom and bust”).

O autogerenciamento significa que você não ficará dependente do fisioterapeuta para sempre. Eu ensino ferramentas para você usar em casa. Pode ser uma técnica de automassagem com uma bolinha de tênis, um posicionamento para alívio da lombar ou exercícios respiratórios para momentos de crise de ansiedade e dor. Você aprende a “ler” seu corpo e a intervir antes que a dor se torne insuportável.

Essa autonomia devolve o controle para você. A sensação de desamparo é muito comum na fibromialgia, a ideia de que “nada funciona”. Quando você descobre que tem ferramentas próprias para modular seus sintomas, a ansiedade diminui drasticamente. O tratamento fisioterapêutico eficaz é aquele que educa o paciente para ser seu próprio terapeuta nas 23 horas do dia em que ele não está na clínica.

Exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular

Por que o exercício aeróbico é o padrão ouro

Se existisse uma pílula com os efeitos do exercício aeróbico, ela seria a droga mais vendida do mundo. Para a fibromialgia, atividades como caminhada, bicicleta ergométrica ou dança leve são fundamentais. O exercício aeróbico promove uma liberação sistêmica de endorfinas e encefalinas, substâncias produzidas pelo seu próprio corpo que têm estrutura química semelhante à morfina. É a nossa farmácia interna funcionando a todo vapor.

Além da analgesia química, o aeróbico melhora a vascularização global. Isso ajuda a regular o sistema nervoso autônomo, equilibrando a resposta de “luta ou fuga” que costuma estar ativada cronicamente em quem sente dor constante. O exercício cardiovascular também é vital para a melhora da qualidade do sono. Sabemos que o sono não reparador é um dos sintomas cardinais da fibromialgia, e regular o ciclo circadiano através do gasto energético ajuda a aprofundar o descanso noturno.

Você deve começar devagar. O “padrão ouro” não significa correr uma maratona na primeira semana. Significa encontrar uma atividade rítmica, contínua e que eleve levemente sua frequência cardíaca. Pode ser uma caminhada de 10 minutos no quarteirão. O importante é a consistência. Com o tempo, essa prática reorganiza as vias de dor no cérebro, tornando-o menos sensível aos estímulos nocivos.

Fortalecimento sem piorar a crise

Muitos pacientes têm pavor de musculação ou exercícios de força porque associam o esforço à dor pós-treino. No entanto, músculos fracos sobrecarregam as articulações e tensionam os tendões. O segredo na fibromialgia é iniciar com exercícios isométricos. Neles, você contrai o músculo sem gerar movimento articular amplo. Isso gera força e estabilidade sem o atrito e a repetição que podem irritar os tecidos inicialmente.

A progressão deve ser lenta e respeitar os seus dias ruins. Usamos elásticos leves (therabands), pesos livres pequenos e o peso do próprio corpo. O foco é aumentar a tolerância do músculo ao esforço. Um músculo forte atua como uma cinta de proteção para a coluna e para os membros. Além disso, o treinamento de força libera mioquinas, substâncias anti-inflamatórias produzidas pelo músculo durante a contração.

Nós monitoramos a sua resposta. Se a dor persistir por mais de 24 horas após o exercício, ajustamos a carga. A regra é: algum desconforto durante o exercício é aceitável, mas dor aguda ou incapacitante no dia seguinte indica que passamos do ponto. Aprender esse equilíbrio fino é parte do trabalho que fazemos juntos. Fortalecer não é opcional, é essencial para dar suporte a um corpo que dói.

A importância da constância e progressão lenta

Na fibromialgia, a consistência vence a intensidade. É muito comum o paciente acordar em um dia bom, sem dor, e querer faxinar a casa inteira ou fazer duas horas de academia. O resultado? Uma crise severa no dia seguinte que dura uma semana. Chamamos isso de ciclo de “excesso e colapso”. Na fisioterapia, ensinamos o “pacing”, ou ritmo cadenciado. Você deve fazer um pouco todos os dias, mesmo nos dias bons, sem exagerar.

A progressão lenta permite que o sistema nervoso se adapte sem entrar em pânico. Se aumentarmos a carga dos exercícios muito rápido, o alarme da sensibilização central dispara novamente. É um jogo de paciência. A melhora na fibromialgia não é uma linha reta ascendente; ela tem altos e baixos. A constância nos exercícios garante que, a longo prazo, os “baixos” sejam menos profundos e os “altos” mais frequentes.

Você precisa encarar o exercício como encara a escovação dos dentes: algo que faz parte da higiene diária do seu corpo, independentemente da vontade. Estabelecer uma rotina cria disciplina neural. Seu cérebro passa a esperar aquele momento de atividade e se prepara hormonalmente para ele. A fisioterapia ajuda a montar esse cronograma realista, que caiba na sua vida e não se torne mais uma fonte de estresse.

Técnicas de relaxamento e consciência corporal

O impacto da tensão muscular na dor

Você já percebeu onde estão seus ombros agora? Provavelmente, estão colados nas orelhas. A tensão muscular crônica é uma resposta automática à dor e ao estresse. O problema é que essa contração sustentada diminui o fluxo sanguíneo dentro do músculo, gerando hipóxia (falta de oxigênio) e acúmulo de ácido lático, o que causa… mais dor. É um ciclo de retroalimentação positivo que precisamos interromper.

Na fisioterapia, trabalhamos a consciência corporal para que você perceba essa tensão antes que ela vire uma contratura dolorosa. Usamos técnicas de “escaneamento corporal”, onde você aprende a verificar, parte por parte do corpo, onde está segurando tensão desnecessária. Muitas vezes, tensionamos a mandíbula, as mãos ou os glúteos sem perceber. Relaxar esses músculos conscientemente envia um sinal de segurança para o cérebro.

Aprender a “soltar” o corpo é tão difícil quanto aprender a fortalecê-lo. Para quem vive com dor, o estado natural é a rigidez defensiva. Desconstruir essa armadura exige treino. Técnicas de relaxamento progressivo de Jacobson, onde contraímos e relaxamos grupos musculares sequencialmente, são muito úteis para ensinar ao seu cérebro a diferença entre um músculo tenso e um músculo relaxado.

Exercícios respiratórios diafragmáticos

A respiração é a ponte direta para o seu sistema nervoso. A maioria das pessoas com dor crônica respira de forma apical (usando a parte superior do peito), curta e rápida. Isso sinaliza ansiedade e perigo para o cérebro. Na fisioterapia, treinamos a respiração diafragmática, aquela que expande a barriga e as costelas lateralmente. Esse tipo de respiração estimula o nervo vago, responsável por ativar o sistema parassimpático, nosso sistema de “descanso e digestão”.

Quando você respira fundo e lento, você baixa a frequência cardíaca e reduz o tônus muscular generalizado. É uma ferramenta poderosa para o controle da dor aguda. Durante uma crise, em vez de se desesperar, você pode usar a respiração para modular a intensidade da percepção dolorosa. Além disso, o movimento do diafragma massageia as vísceras e mobiliza a coluna lombar de forma suave, ajudando na circulação.

Incorporar exercícios respiratórios na rotina diária muda a bioquímica do sangue, equilibrando o pH e melhorando a oxigenação tecidual. Eu costumo indicar pausas estratégicas durante o dia apenas para respirar. Cinco minutos de respiração consciente podem ter um efeito analgésico comparável a alguns medicamentos leves, sem os efeitos colaterais. É fisiologia pura aplicada ao seu bem-estar.

Reeducação postural global (RPG) e alinhamento

A má postura na fibromialgia muitas vezes é uma consequência da dor, não apenas a causa. Você se curva para proteger o peito ou a barriga, ou claudica (manca) para poupar uma perna. Com o tempo, essas alterações posturais criam encurtamentos nas cadeias musculares. O método de Reeducação Postural Global (RPG) ou outras abordagens de cadeias musculares olham para o corpo como um todo, não em partes isoladas.

Trabalhamos o alongamento global das cadeias que estão retraídas. Uma postura mais alinhada é mais econômica energeticamente. Se sua cabeça está projetada para frente, os músculos do pescoço têm que fazer uma força absurda para segurá-la. Ao realinhar a cabeça sobre os ombros, essa musculatura pode relaxar. Menos esforço postural significa mais energia sobrando para você viver sua vida e menos gatilhos de dor tensional.

O trabalho postural é suave e progressivo. Não forçamos o corpo a posições impossíveis. Buscamos o equilíbrio. O alinhamento correto das articulações permite que elas recebam carga da maneira para a qual foram desenhadas, evitando desgaste precoce (artrose) que frequentemente acompanha a fibromialgia em idades mais avançadas. A consciência de como você se senta, fica em pé e dorme é parte fundamental do tratamento.

Recursos analgésicos e eletroterapia

O uso do TENS para bloqueio da dor

A eletroterapia é uma grande aliada, principalmente nos dias de crise aguda. O TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) é aquele aparelhinho com eletrodos que dá “choquinhos”. O funcionamento dele baseia-se na Teoria das Comportas. Basicamente, o estímulo elétrico viaja mais rápido que o estímulo da dor até o cérebro. Ao chegar lá primeiro, ele “fecha a porta” para a mensagem dolorosa.

Além desse bloqueio mecânico da informação, o TENS estimula a liberação de opioides endógenos. É um recurso excelente para permitir que você faça os exercícios. Muitas vezes, aplicamos o TENS durante a cinesioterapia para que o paciente consiga se mover sem desconforto. Ele não cura a fibromialgia, mas é uma ferramenta de manejo de sintomas muito válida e sem efeitos colaterais químicos.

Você pode até ter um aparelho portátil em casa, desde que orientado pelo seu fisioterapeuta sobre onde colocar os eletrodos e qual frequência usar. A ideia não é substituir o tratamento ativo pelo passivo, mas usar a tecnologia para viabilizar o movimento. O alívio proporcionado pelo TENS pode durar horas, dando uma janela de oportunidade para você realizar suas tarefas.

Termoterapia: quando usar calor ou frio

Uma dúvida clássica: gelo ou bolsa de água quente? Na fibromialgia, na grande maioria das vezes, o calor é o melhor amigo. A termoterapia (calor) promove vasodilatação, aumentando o fluxo sanguíneo local, o que ajuda a relaxar a musculatura tensa e a lavar os metabólitos da dor. Um banho quente ou uma bolsa térmica na região dos ombros e pescoço pode trazer um alívio imediato da sensação de rigidez.

O calor também altera a condução nervosa, diminuindo a percepção da dor, e aumenta a extensibilidade do colágeno, tornando os alongamentos mais fáceis e eficazes. Recomendamos o calor superficial antes dos exercícios para preparar a musculatura. O frio (crioterapia) geralmente é reservado para situações onde há uma inflamação aguda pontual, como uma tendinite associada, mas deve ser usado com cautela, pois alguns pacientes com fibromialgia têm intolerância ao frio, o que pode piorar a dor muscular.

Saber usar esses recursos em casa faz parte do autogerenciamento. Você aprende a identificar o que seu corpo pede. Se sente os músculos “travados” e duros, o calor vai ajudar. É uma forma simples, barata e acessível de controlar o desconforto diário sem precisar recorrer a mais um comprimido analgésico.

Limitações dos recursos passivos: eles não são a cura

Preciso ser muito honesta com você: choquinho, calor, ultrassom e laser são ótimos, mas eles não resolvem o problema a longo prazo se usados isoladamente. Eles são recursos passivos. Neles, a terapia é feita em você, e não por você. A ciência mostra que a mudança real na neuroplasticidade cerebral e na tolerância à dor vem do tratamento ativo, ou seja, do exercício.

Muitos pacientes caem na armadilha de buscar clínicas que oferecem apenas macas confortáveis e aparelhos, sem colocar o pé no chão para se exercitar. Isso pode gerar um alívio momentâneo, “fofo”, mas não muda a história da doença. A dependência excessiva de terapias passivas pode reforçar a ideia de que você é frágil e precisa ser “consertado” por algo externo.

Nós usamos esses recursos como uma “janela de oportunidade”. Usamos o laser ou o calor para baixar a dor de nível 8 para nível 4, para que então você consiga fazer o fortalecimento e o alongamento. O exercício é o prato principal; a eletroterapia é apenas o tempero. O objetivo é tornar você independente das máquinas e confiante no seu próprio corpo.

Hidroterapia e o poder da água aquecida

Efeitos fisiológicos da imersão em água quente

A hidroterapia é frequentemente citada como uma das melhores abordagens para a fibromialgia, e não é por acaso. A água aquecida (geralmente entre 32°C e 34°C) tem um efeito imediato sobre o sistema musculoesquelético. O calor superficial e profundo relaxa as fibras musculares e aumenta a complacência dos tecidos. Mas vai além disso: a pressão hidrostática (a pressão que a água exerce no corpo) ajuda no retorno venoso e na redução de edemas (inchaços), o que melhora a circulação geral.

Essa imersão suprime o sistema nervoso simpático, reduzindo os níveis de hormônios do estresse circulantes. Para um corpo que está em constante estado de alerta, entrar na piscina aquecida é como desligar um interruptor de ansiedade. Os receptores sensoriais da pele são bombardeados pela temperatura e pelo tato da água, o que compete com os sinais de dor, diminuindo a percepção dolorosa globalmente.

Você sente esse efeito quase instantaneamente ao entrar na piscina. A respiração acalma, os ombros descem e a expressão facial suaviza. Esse ambiente fisiológico favorável é o cenário perfeito para começarmos a trabalhar o corpo sem a resistência agressiva que encontramos “em terra firme”.

Facilitação do movimento sem impacto articular

A flutuabilidade é a mágica da física a nosso favor. Dentro da água, a gravidade é combatida pelo empuxo. Com a água na altura do peito, você pesa apenas uma fração do seu peso real. Isso remove a compressão das articulações da coluna, quadris e joelhos. Movimentos que seriam dolorosos ou impossíveis no solo tornam-se fluidos e agradáveis na piscina.

Podemos trabalhar amplitude de movimento, agachamentos e caminhadas sem o impacto que geraria microtraumas nos seus tecidos sensíveis. A água atua como um suporte tridimensional, dando segurança para quem tem medo de cair ou de se machucar. Ao mesmo tempo, a viscosidade da água oferece uma resistência suave e uniforme para fortalecimento. Se você empurra a água devagar, é leve; se empurra rápido, fica pesado. Você controla a carga.

Essa liberdade de movimento é psicologicamente libertadora. Ver-se capaz de mover uma perna ou um braço com amplitude total resgata a confiança motora. É um ambiente onde o erro não custa caro (não há risco de queda brusca) e o sucesso é facilitado pela física.

Relaxamento muscular profundo e redução da ansiedade

Além dos exercícios, a hidroterapia oferece momentos de relaxamento passivo, como nas técnicas de Watsu ou Bad Ragaz, onde o terapeuta movimenta seu corpo na água. Esse relaxamento profundo atinge níveis que dificilmente conseguimos na maca. O silêncio (ou som da água) e a sensação de envolvimento térmico promovem uma desconexão dos estímulos externos estressantes.

A redução da ansiedade é um componente clínico vital. A ansiedade aumenta a percepção da dor. Ao quebrarmos o estado ansioso através do relaxamento aquático, reduzimos indiretamente a dor. Pacientes relatam que, após as sessões de hidroterapia, têm as melhores noites de sono da semana. E dormir bem é essencial para a reparação tecidual e regulação dos neurotransmissores.

A piscina terapêutica se torna um refúgio. É um local associado ao prazer e ao alívio, não ao sofrimento médico. Essa associação positiva aumenta a adesão ao tratamento, garantindo que você continue frequentando as sessões e mantendo a constância necessária para o controle da fibromialgia a longo prazo.

Terapias Manuais e Liberação Miofascial

Diferença entre massagem relaxante e liberação terapêutica

Muitas pessoas confundem fisioterapia manual com massagem de spa. Embora ambas sejam agradáveis, os objetivos são diferentes. Na fibromialgia, focamos muito na fáscia, o tecido conectivo que envolve todos os seus músculos como uma segunda pele. Quando esse tecido está rígido, ele “aperta” os músculos e nervos. A liberação miofascial busca devolver a elasticidade a esse tecido.

Não se trata apenas de amassar o músculo. Usamos toques lentos, com tração e pressão sustentada, para mudar a consistência da fáscia (um efeito chamado tixotropia). Às vezes, a técnica pode ser um pouco desconfortável no início, pois estamos manipulando tecidos densos e aderidos, mas a sensação de “liberdade” pós-sessão é inigualável. É como se você estivesse usando uma roupa dois números menor e, de repente, vestisse o tamanho certo.

Você precisa comunicar ao terapeuta a intensidade. Na fibromialgia, o toque não pode ser agressivo demais para não disparar a sensibilização central. É um diálogo constante através das mãos. O toque terapêutico também tem um papel social e emocional, validando a sua dor e oferecendo conforto físico humano, algo que nenhuma máquina pode substituir.

Tratando os Trigger Points (pontos-gatilho)

Pacientes com fibromialgia são “colecionadores” de pontos-gatilho. São aqueles nódulos tensos nas fibras musculares que, quando apertados, doem localmente ou irradiam dor para outros lugares. Eles mantêm o músculo encurtado e fraco. A fisioterapia manual utiliza técnicas de compressão isquêmica (apertar e segurar) para “desligar” esses pontos.

Ao pressionar o ponto, cortamos momentaneamente o fluxo de sangue; ao soltar, ocorre uma hiperemia (chegada brusca de sangue novo), que limpa as substâncias inflamatórias acumuladas naquele nódulo. Isso restaura o comprimento normal da fibra muscular. É um trabalho de ourivesaria, buscando ponto a ponto, desativando as áreas de maior tensão que contribuem para a dor difusa.

Muitas vezes, a dor de cabeça tensional ou a dor no braço vem desses pontos localizados no trapézio ou pescoço. Tratar a origem muscular desses sintomas reduz a necessidade de medicação analgésica. Ensinamos também como você pode encontrar e tratar alguns desses pontos em casa, usando as mãos ou acessórios simples, mantendo o músculo “limpo” entre as sessões.

Mobilização articular para rigidez matinal

A rigidez ao acordar é uma queixa clássica. Parece que o corpo está enferrujado. As técnicas de terapia manual articular (como Maitland ou Mulligan) visam lubrificar as articulações através de movimentos oscilatórios rítmicos. O fisioterapeuta movimenta suas vértebras ou membros de forma passiva e controlada.

Esses micromovimentos estimulam a produção de líquido sinovial e ativam receptores mecânicos que inibem a dor. Diferente da quiropraxia ou osteopatia que usam “estalos” (manipulações de alta velocidade) — que às vezes podem ser muito agressivos para quem tem fibromialgia severa —, a mobilização é suave e respeitosa. O objetivo é ganhar amplitude de movimento sem sustos.

Restaurar a mobilidade da caixa torácica, por exemplo, melhora a respiração. Restaurar a mobilidade do quadril melhora a caminhada. É um trabalho de base mecânica que prepara seu corpo para funcionar melhor durante o dia. Sentir que suas articulações estão “soltas” reduz a sensação de peso e cansaço constante.

Terapias aplicadas e indicadas

Para fechar nossa conversa, quero deixar claro que não existe uma receita de bolo única, mas existem ingredientes que funcionam muito bem juntos. Além da cinesioterapia clássica (exercícios) e da eletroterapia que discutimos, aqui estão as terapias mais indicadas e com evidência científica para o seu caso:

O melhor tratamento é aquele que você consegue manter. A fisioterapia na fibromialgia é uma jornada de autoconhecimento e disciplina. Você não está sozinho nessa. Com a orientação certa e a sua dedicação em se manter ativo, é totalmente possível retomar o controle da sua vida e deixar a dor em segundo plano. Vamos começar?