Fisioterapia Neurológica

Você provavelmente chegou até aqui porque você ou alguém que você ama está enfrentando um desafio relacionado ao sistema nervoso. Pode ser um diagnóstico recente ou uma condição com a qual você já convive há algum tempo. A primeira coisa que quero que você saiba é que o corpo humano possui uma capacidade incrível de adaptação e a fisioterapia neurológica é a chave para destravar esse potencial. Nós não tratamos apenas músculos e ossos. Nós tratamos a conexão elétrica que faz tudo isso funcionar.

Entender a fisioterapia neurológica exige mudar a forma como você vê o movimento. Não se trata apenas de “ficar forte” no sentido de levantar pesos na academia. Trata-se de ensinar o seu cérebro a comandar o corpo novamente ou a encontrar novas rotas para executar velhas tarefas. É um processo de aprendizado contínuo onde cada pequeno gesto conta e cada tentativa é uma informação valiosa que enviamos ao seu sistema nervoso central.

Neste artigo vamos conversar de forma franca sobre como funciona esse universo. Quero explicar o que acontece nas sessões e como usamos a ciência para devolver qualidade de vida e independência a você. Esqueça os termos médicos complicados por um momento. Vamos focar no que realmente importa para a sua recuperação e como podemos trabalhar juntos para alcançar seus objetivos funcionais.

O Que é a Fisioterapia Neurológica na Prática

Entendendo o Conceito e a Abordagem

A fisioterapia neurológica ou neurofuncional é a especialidade dedicada a tratar as sequelas de doenças que atingem o cérebro, a medula espinhal e os nervos periféricos. Imagine que o seu corpo é uma casa e o sistema nervoso é a fiação elétrica. Se um disjuntor cai ou um fio se rompe a luz da sala não acende. O problema não está na lâmpada em si mas no sinal que não chega até ela. O meu trabalho é ajudar a consertar essa fiação ou fazer uma instalação nova para que a luz volte a acender.

Nossa abordagem é sempre voltada para a função. Isso significa que não adianta apenas mexer o braço deitado na maca se isso não te ajudar a segurar um copo de água ou a pentear o cabelo. O foco do tratamento é devolver a você a capacidade de realizar as tarefas do dia a dia com a maior autonomia possível. Nós olhamos para você como um todo e não apenas para o braço ou a perna que não está respondendo bem.

Você vai perceber que o ambiente da fisioterapia neuro é diferente. Nós usamos o chão, bolas, espelhos e diversos estímulos sensoriais. O objetivo é provocar o seu sistema nervoso a reagir. Cada toque que eu dou na sua pele e cada comando verbal que eu uso tem a intenção de despertar áreas adormecidas do seu cérebro e facilitar o movimento que você deseja realizar. É um trabalho de parceria intensa entre terapeuta e paciente.

A Importância da Avaliação Cinético-Funcional

Antes de colocarmos a mão na massa precisamos fazer um mapa detalhado do seu corpo e das suas capacidades atuais. A avaliação na fisioterapia neurológica é minuciosa e pode levar mais de uma sessão. Eu preciso testar seus reflexos, sua sensibilidade ao toque, a força dos seus músculos e principalmente o seu tônus muscular. O tônus é aquele estado de tensão natural do músculo e nas lesões neurológicas ele pode estar muito alto, deixando o corpo rígido, ou muito baixo, deixando o corpo mole.

Nós também analisamos como você se move nas transferências. Eu observo como você passa da posição deitado para sentado e de sentado para de pé. Analiso sua marcha e seu equilíbrio estático e dinâmico. Tudo isso é registrado para que possamos comparar sua evolução no futuro. Essa avaliação não serve apenas para dar nome aos problemas mas para traçar metas realistas e alcançáveis a curto, médio e longo prazo.

Você deve ser totalmente honesto durante essa avaliação. Me conte sobre suas dificuldades reais em casa. Se você tem medo de cair no banho ou se sente frustrado por não conseguir abotoar a camisa, eu preciso saber. Essas informações são o ouro que guia o nosso plano de tratamento. A avaliação é um momento de escuta ativa onde eu entendo não só a sua lesão mas como ela impacta a sua vida e a da sua família.

Diferenças Cruciais entre Neuro e Ortopedia

Muitos pacientes chegam ao consultório esperando o mesmo tipo de tratamento que receberam quando torceram o tornozelo ou tiveram dor nas costas. É fundamental entender que a fisioterapia neuro é bem diferente da ortopedia. Na ortopedia geralmente lidamos com dor, inflamação e reparo de tecidos como ligamentos e ossos. O raciocínio clínico é mecânico e muitas vezes o tratamento tem um protocolo com tempo definido para alta.

Na neurologia o buraco é mais embaixo. Nós lidamos com o aprendizado motor. Enquanto na ortopedia eu posso pedir para você fazer 3 séries de 10 repetições para fortalecer um músculo, na neuro eu posso passar 20 minutos trabalhando apenas a qualidade de um único movimento, como o alcance do braço. Se você fizer o movimento compensando com o ombro ou entortando o tronco, o seu cérebro aprende errado. E na neuro a qualidade do movimento é muito mais importante do que a quantidade de carga.

Outra diferença enorme é o tempo de recuperação. Lesões neurológicas exigem paciência e persistência. A evolução muitas vezes não é linear. Existem semanas de grandes ganhos e semanas de platô onde parece que nada muda. O fisioterapeuta neurofuncional está preparado para lidar com essas flutuações e ajustar a rota sempre que necessário. Nós celebramos micro vitórias que passariam despercebidas na ortopedia, como conseguir manter o tronco ereto sem apoio ou abrir a mão voluntariamente.

O Segredo da Recuperação: Neuroplasticidade

Como o Cérebro Reaprende Caminhos

A palavra mágica do nosso trabalho é neuroplasticidade. Antigamente a ciência acreditava que o sistema nervoso não se regenerava e que as lesões eram definitivas. Hoje sabemos que isso não é verdade. O cérebro tem uma capacidade plástica incrível de se remodelar. Neuroplasticidade é a habilidade do sistema nervoso de criar novas conexões sinápticas em resposta a estímulos, aprendizado ou lesões.

Pense no seu cérebro como uma cidade com várias estradas. Se a avenida principal fica bloqueada por um acidente, que seria a lesão neurológica, o trânsito para. A neuroplasticidade é a capacidade dos motoristas de descobrirem rotas alternativas por ruas menores para chegar ao destino. No início essas ruas são estreitas e esburacadas, o que torna o movimento lento e difícil. Mas conforme mais carros passam por ali, a prefeitura asfalta e amplia a rua.

O meu papel como fisioterapeuta é ser o guia de trânsito que mostra essas novas rotas para o seu cérebro. Através de exercícios específicos e estímulos sensoriais nós forçamos o sinal elétrico a passar por neurônios saudáveis que assumem a função daqueles que morreram. É um processo biológico fascinante. Você literalmente muda a arquitetura física do seu cérebro através do exercício e da prática constante.

A Repetição Como Ferramenta de Construção

Se a neuroplasticidade é o terreno, a repetição é a ferramenta que usamos para construir a estrada. O cérebro aprende por repetição. Não existe atalho. Para que uma nova conexão neural se torne forte e permanente, o sinal precisa passar por ela milhares de vezes. É por isso que eu sou chata com a repetição dos exercícios e peço para você fazer a mesma tarefa várias vezes durante a sessão.

Mas não é qualquer repetição. Repetir um movimento de qualquer jeito pode ensinar o seu cérebro a fazer errado e criar vícios posturais difíceis de tirar depois. A repetição precisa ser orientada e focada na tarefa. Nós chamamos isso de “treino orientado à tarefa”. Se você quer voltar a beber água sozinho, nós vamos treinar o movimento de levar o copo à boca decompondo cada etapa desse gesto até que ele saia fluido.

Você precisa encarar a repetição não como algo monótono mas como um investimento. Cada vez que você repete o movimento corretamente você está pavimentando aquela nova estrada neural. Com o tempo o que exigia um esforço mental enorme passa a ser automático. É como aprender a dirigir. No começo você pensa em cada marcha e pedal. Depois de muita repetição você dirige sem nem pensar no que está fazendo. Esse automatismo é o nosso objetivo final.

A Janela de Oportunidade Terapêutica

Existe um conceito importante que precisamos discutir: o tempo. Embora a neuroplasticidade aconteça durante toda a vida, existe um período logo após a lesão que chamamos de janela de oportunidade terapêutica. Nos primeiros meses após um AVC ou traumatismo, o cérebro está em um estado de “choque” e inflamação, mas também está ávido por recuperação. É nesse período que conseguimos os ganhos mais rápidos e expressivos.

Isso não significa que se você teve uma lesão há dois anos não há mais nada a fazer. A recuperação continua possível, mas pode exigir mais esforço e tempo. Por isso a intervenção precoce é tão defendida por nós fisioterapeutas. Quanto antes você começar a estimular o cérebro corretamente, menos compensações erradas você vai desenvolver e mais rápido você vai aproveitar esse pico de plasticidade natural do corpo.

Você não deve esperar “ficar bom” para começar a fisioterapia. A fisioterapia faz parte do processo de ficar bom. Muitas vezes iniciamos o trabalho ainda no hospital, à beira do leito. Aproveitar essa janela temporal pode ser a diferença entre voltar a andar com independência ou precisar de dispositivos de auxílio para o resto da vida. O tempo é cérebro e nós não gostamos de desperdiçá-lo.

Principais Condições que Tratamos no Consultório

Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Hemiparesias

O AVC é, sem dúvida, uma das condições mais comuns que atendemos. Quando o fluxo de sangue é interrompido em uma parte do cérebro, as funções controladas por aquela área são afetadas. O quadro mais clássico é a hemiparesia, que é a fraqueza ou paralisia em um lado do corpo. Você pode sentir o braço e a perna pesados, dificuldade para falar ou até alterações na sensibilidade do lado afetado.

No tratamento do AVC nosso foco é combater a espasticidade e recuperar a função. A espasticidade é aquele padrão onde o braço tende a ficar dobrado junto ao peito e a mão fechada, enquanto a perna fica esticada e o pé aponta para baixo. Nós trabalhamos para alongar esses músculos, inibir esse padrão flexor e estimular os movimentos contrários. Queremos que você consiga abrir a mão, esticar o cotovelo e dobrar o joelho para dar o passo.

A reabilitação pós-AVC é uma jornada de redescoberta. Nós trabalhamos muito o treino de marcha para que você volte a andar com segurança. Usamos pistas visuais no chão para acertar o tamanho do passo. Treinamos o equilíbrio para evitar quedas. E trabalhamos incansavelmente o membro superior para que você possa usar talheres, segurar objetos e se vestir sozinho. A recuperação é possível e vemos pacientes retomando suas vidas plenamente todos os dias.

Doença de Parkinson e Controle Motor

O Parkinson é uma doença degenerativa que afeta a produção de dopamina, um neurotransmissor essencial para o controle suave dos movimentos. Os sintomas vão muito além do tremor que a maioria das pessoas conhece. Você pode sentir rigidez muscular, lentidão para iniciar os movimentos (bradicinesia) e alterações posturais que jogam o corpo para frente. Existe também o risco de “congelamento” (freezing), onde os pés parecem colados no chão.

Na fisioterapia para Parkinson, o nosso mantra é “movimentos grandes e amplos”. Como a doença tende a encolher os movimentos e deixar a voz baixa e a postura curvada, nós trabalhamos tudo em grande amplitude. Ensinamos você a dar passadas largas, a balançar os braços vigorosamente e a rodar o tronco. O objetivo é lutar contra a rigidez e manter a flexibilidade do corpo pelo maior tempo possível.

Nós também usamos estratégias de pistas auditivas e visuais. Um metrônomo ou uma música com batida marcada ajuda muito a manter o ritmo da caminhada e evitar o congelamento. Ensinamos estratégias cognitivas para sair do congelamento caso ele aconteça. O exercício físico é comprovadamente a única intervenção que pode retardar a progressão dos sintomas motores do Parkinson, então a fisioterapia deve ser encarada como um remédio diário.

Esclerose Múltipla e Gerenciamento de Fadiga

A Esclerose Múltipla (EM) é uma doença autoimune que ataca a capa de proteção dos nervos. Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa, podendo incluir fraqueza, desequilíbrio, alterações visuais e sensoriais. Mas um sintoma quase universal e muito incapacitante é a fadiga. Não é um cansaço normal. É uma exaustão que surge de repente e impede você de continuar suas atividades.

O tratamento na EM envolve um equilíbrio delicado. Precisamos fortalecer seus músculos e melhorar sua resistência cardiovascular sem levar você à exaustão que pode piorar os sintomas temporariamente. Nós ensinamos técnicas de conservação de energia. Você aprende a planejar o seu dia e a realizar as tarefas de forma mais eficiente para poupar “bateria” para o que realmente importa.

Trabalhamos também com o resfriamento corporal, já que o calor tende a piorar a condução nervosa em quem tem EM. Os exercícios de equilíbrio e coordenação são fundamentais pois a ataxia (falta de coordenação) é comum. O objetivo é manter você ativo e funcional durante os períodos de remissão da doença e minimizar as perdas durante os surtos. A fisioterapia ajuda a manter a independência e a qualidade de vida ao longo dos anos.

Benefícios Reais no Dia a Dia

Reconquistando a Independência Funcional

O maior troféu da fisioterapia neurológica não é um músculo definido, mas sim a autonomia. Independência funcional significa você conseguir ir ao banheiro sozinho, tomar banho sem ajuda, preparar um café e se vestir. Para quem perdeu essas habilidades, reconquistá-las não tem preço. Nós focamos o tratamento nessas Atividades de Vida Diária (AVDs).

Nós simulamos essas atividades no consultório. Se você tem dificuldade para levantar da cama, nós vamos treinar exatamente isso na maca. Se o problema é escovar os dentes, vamos trabalhar a coordenação fina e a força necessária para segurar a escova. O ganho de independência reduz a sobrecarga sobre os cuidadores e familiares e devolve a sua dignidade e autoestima. Você deixa de ser um paciente passivo para ser o protagonista da sua vida novamente.

Essa independência é construída tijolo por tijolo. Começamos com tarefas simples e vamos aumentando a complexidade conforme você evolui. Celebramos quando você consegue abotoar a calça sozinho ou quando consegue transferir-se da cadeira de rodas para o vaso sanitário sem auxílio. Esses são os marcos reais de sucesso do nosso tratamento.

Melhora da Marcha e do Equilíbrio

Voltar a andar ou melhorar a qualidade da caminhada é o objetivo de quase todos os pacientes que entram na minha sala. A marcha humana é um processo complexo que exige coordenação, força, equilíbrio e sensibilidade. Lesões neurológicas frequentemente desorganizam essa orquestra. Você pode arrastar a ponta do pé, ter o joelho instável ou não conseguir distribuir o peso corretamente entre as pernas.

Nós trabalhamos intensamente para corrigir esses padrões. Usamos exercícios de transferência de peso, treino de passos em diferentes direções e superfícies instáveis. Melhorar o equilíbrio é vital para prevenir quedas. Quedas em pacientes neurológicos podem ter consequências graves como fraturas de fêmur, o que complicaria muito a reabilitação. Por isso o treino de equilíbrio é segurança.

Além de andar, queremos que você ande com qualidade. Uma marcha eficiente gasta menos energia. Se você gasta muita energia para dar dez passos, você vai cansar rápido e desistir de sair de casa. Ao melhorar a biomecânica da sua caminhada, nós permitimos que você vá mais longe, canse menos e consiga participar de eventos sociais, ir ao parque ou ao shopping com a família.

Prevenção de Deformidades e Complicações

A fisioterapia neurológica tem um papel preventivo crucial. Quando um músculo fica paralisado ou espástico por muito tempo, ele tende a encurtar. Isso pode levar a contraturas fixas onde a articulação perde o movimento permanentemente. Um tornozelo travado em ponta de pé, por exemplo, impede você de apoiar o calcanhar no chão e inviabiliza a marcha.

Nós lutamos contra isso diariamente através de alongamentos, mobilizações articulares e posicionamento correto. Orientamos o uso de órteses (talas) que mantêm a mão ou o pé na posição correta enquanto você dorme ou descansa. Prevenir essas deformidades evita cirurgias corretivas no futuro e mantém o corpo pronto para quando a recuperação neurológica acontecer.

Outra complicação que prevenimos são as dores crônicas. O ombro do paciente com AVC, por exemplo, é muito vulnerável a subluxações e dor intensa. Com o fortalecimento da musculatura estabilizadora e o manuseio correto, evitamos que esse ombro se torne um problema doloroso que atrapalhe o sono e a reabilitação. Cuidar da integridade do seu corpo é parte essencial do nosso trabalho.

O Papel da Família e do Ambiente

Adaptação Domiciliar para Segurança

A sua casa deve ser o seu porto seguro e não um campo minado. Muitas vezes o ambiente doméstico está cheio de armadilhas para quem tem dificuldades de locomoção. Tapetes soltos, fios no chão, móveis baixos e iluminação ruim são convites para quedas. Uma das minhas funções é orientar você e sua família sobre como adaptar a casa para facilitar a sua vida.

Pequenas mudanças fazem uma diferença enorme. Instalar barras de apoio no box do banheiro e ao lado do vaso sanitário dá autonomia e segurança na higiene pessoal. Retirar tapetes ou fixá-los com fita antiderrapante é básico. Melhorar a iluminação nos corredores ajuda quem tem alterações visuais ou de equilíbrio. Às vezes, mudar a disposição dos móveis para criar corredores mais largos para a cadeira de rodas ou andador é necessário.

A cama e o sofá também precisam de atenção. Se forem muito baixos ou muito moles, levantar deles se torna uma missão impossível. Podemos sugerir calços para elevar a altura dos móveis. Essas adaptações não precisam transformar sua casa em um hospital. Elas podem ser discretas e funcionais garantindo que você se mova com liberdade dentro do seu próprio lar.

Suporte Emocional e Engajamento no Tratamento

A reabilitação neurológica é um esporte de equipe e a família é a torcida organizada e a equipe técnica ao mesmo tempo. O suporte emocional de quem vive com você é determinante para o sucesso do tratamento. Pacientes que se sentem acolhidos e incentivados tendem a se dedicar mais aos exercícios e a faltar menos às sessões. A depressão é comum após diagnósticos neurológicos e o carinho da família é o melhor antídoto.

Mas cuidado com o excesso de zelo. Às vezes, na tentativa de ajudar, a família faz tudo pelo paciente. Dá comida na boca, veste, pega objetos. Isso, na verdade, atrapalha. Chamamos isso de “superproteção incapacitante”. A família precisa ter a paciência de esperar o paciente tentar fazer sozinho, mesmo que demore mais ou faça um pouco de sujeira. O incentivo deve ser para a autonomia, não para a dependência.

Vocês precisam entender que dias ruins vão acontecer. Haverá dias de choro, de raiva e de frustração. Nesses momentos o papel da família não é forçar a barra, mas estar lá para ouvir e dar suporte. Comemorar as pequenas vitórias juntos cria um ambiente positivo que estimula a neuroplasticidade e a vontade de viver.

A Rotina Fora do Consultório

Você passa uma ou duas horas comigo na fisioterapia, mas o seu dia tem 24 horas. O que você faz nas outras 22 horas define a velocidade da sua recuperação. A fisioterapia não acontece só na clínica; ela deve permear o seu dia todo. Se você sai do consultório e passa o resto do dia deitado no sofá na posição errada, você está desfazendo o trabalho que fizemos.

Nós criamos uma rotina de exercícios domiciliares que deve ser seguida religiosamente. Não precisa ser nada complexo. Pode ser alongar a mão enquanto assiste TV ou praticar levantar e sentar da cadeira antes das refeições. A constância é mais importante que a intensidade. Fazer um pouco todo dia é melhor do que fazer muito uma vez por semana.

A família pode ajudar a lembrar e a monitorar esses exercícios. Integrar a terapia na rotina torna tudo mais leve. Se estamos treinando a fala ou a deglutição, a hora do jantar é hora de terapia. Se estamos treinando marcha, a ida ao banheiro é hora de treino. Transformar atividades cotidianas em momentos terapêuticos acelera a recuperação e torna o processo mais natural.

Tecnologia e Inovação na Neuro Reabilitação

Realidade Virtual e Gamificação

A tecnologia invadiu a fisioterapia e isso é uma ótima notícia para você. A Realidade Virtual (RV) e os videogames com sensores de movimento são ferramentas poderosas. Eles tornam a terapia divertida e engajante. Em vez de pedir para você levantar o braço 50 vezes, eu coloco você num jogo onde você precisa pegar maçãs virtuais ou defender gols. Você faz os 50 movimentos sem nem perceber que está se exercitando.

Além da diversão, a RV tem um efeito neurológico importante. Ela “engana” o cérebro de forma positiva. Ao ver um avatar na tela realizando o movimento que você tem dificuldade, seus neurônios espelho são ativados, ajudando a reorganizar o córtex motor. O feedback visual imediato do jogo mostra se você está fazendo certo ou errado, permitindo correções em tempo real.

A gamificação também traz o elemento de desafio e recompensa. Passar de fase ou bater um recorde libera dopamina no seu cérebro. A dopamina é crucial para a motivação e para a consolidação da memória motora. Ou seja, você aprende a se mover melhor enquanto se diverte. Isso aumenta a adesão ao tratamento, especialmente em terapias longas que poderiam se tornar tediantes.

Robótica e Exoesqueletos

Parece coisa de filme de ficção científica, mas robôs já são realidade na reabilitação. Existem dispositivos robóticos que ajudam a mover seus membros quando você ainda não tem força suficiente para fazer isso sozinho. Eles guiam o movimento de forma precisa e repetitiva, garantindo que o padrão motor seja perfeito desde o início. Isso é excelente para as fases iniciais da recuperação.

Os exoesqueletos são vestimentas robóticas que você coloca sobre o corpo. Eles podem ajudar um paciente que não anda a ficar de pé e dar passos, suportando o peso do corpo e movendo as pernas mecanicamente. Isso traz benefícios enormes para a circulação, para a densidade óssea e para o funcionamento do intestino, além do benefício psicológico de olhar o mundo de pé novamente.

Para membros superiores, existem robôs e luvas biônicas que auxiliam no treino de alcance e preensão. Eles podem oferecer resistência para fortalecer o músculo ou assistência para completar o movimento. A robótica permite um número de repetições muito maior do que seria possível apenas com a terapia manual, acelerando o aprendizado motor através da repetição intensiva.

Eletroestimulação Funcional e Biofeedback

A eletricidade é a linguagem do sistema nervoso e nós usamos isso a seu favor. A Eletroestimulação Funcional (FES) usa correntes elétricas suaves para ativar os nervos e fazer os músculos contraírem. Isso é muito útil quando você tenta mexer um músculo e ele não responde. O “choquinho” dá o empurrão que falta, fazendo o movimento acontecer e mandando uma mensagem de volta para o cérebro dizendo “olha, esse músculo funciona!”.

Usamos muito o FES para corrigir o “pé caído” após um AVC, estimulando o músculo que levanta a ponta do pé durante a caminhada. Também usamos para fortalecer músculos muito fracos e prevenir a atrofia. É uma técnica segura e indolor quando bem aplicada, que complementa os exercícios ativos.

Já o Biofeedback é uma tecnologia que mostra a você o que está acontecendo dentro do seu corpo. Sensores colocados na pele captam a atividade elétrica mínima dos seus músculos e transformam isso em um sinal visual ou sonoro numa tela. Assim, mesmo que você não veja o movimento acontecer, você vê o gráfico subir na tela quando tenta contrair o músculo. Isso ajuda você a entender como controlar sua força e a relaxar músculos que estão tensos demais.

Terapias Aplicadas e Métodos Indicados

Conceito Bobath (Neuroevolutivo)

O Conceito Bobath é provavelmente a abordagem mais famosa na fisioterapia neurológica. Ele não é uma receita de bolo, mas uma forma de pensar e manusear o paciente. O foco principal é inibir padrões de movimento anormais (como a espasticidade) e facilitar padrões normais. Eu uso minhas mãos em “pontos chave” do seu corpo — como ombros, pelve e coluna — para guiar o seu movimento e dar estabilidade.

A ideia é que eu empresto o meu controle motor para você até que você desenvolva o seu próprio. Nós trabalhamos muito o alinhamento corporal e o tônus. Se você está muito rígido, eu uso técnicas para relaxar esse tônus antes de pedir o movimento. Se você está muito “mole” (hipotônico), usamos técnicas para aumentar a ativação muscular. O Bobath é dinâmico e acontece em diversas posturas: deitado, sentado, em pé e andando.

Nós integramos o Bobath nas atividades funcionais. Não fazemos o movimento pelo movimento. Nós preparamos o seu corpo para que você consiga realizar a função com o menor esforço e a melhor qualidade possível. É uma abordagem muito “mão na massa”, onde o contato do terapeuta é essencial para dar segurança e direção ao paciente.

Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (Kabat)

O método Kabat, ou FNP, é baseado na ideia de que os movimentos naturais do dia a dia acontecem em diagonais e espirais, não em linhas retas. Pense em como você pega o cinto de segurança no carro ou como chuta uma bola. São movimentos que envolvem rotação e cruzam a linha média do corpo. O Kabat usa esses padrões diagonais para recrutar o máximo de fibras musculares possível.

Nessa terapia eu vou aplicar resistência manual aos seus movimentos. Você vai ter que fazer força contra a minha mão enquanto realiza essas diagonais. Eu uso comandos verbais enérgicos como “empurre!”, “puxe!”, “gire!”. Isso estimula os seus receptores sensoriais (proprioceptores) e aumenta a resposta do músculo. É um método mais intenso e vigoroso, excelente para ganhar força e coordenação.

O Kabat também usa técnicas de alongamento e relaxamento. Nós podemos usar a força de um músculo forte para “irradiar” energia para um músculo fraco. É como se pegássemos carona na força que você já tem para acordar as partes que estão dormindo. É muito eficaz para reabilitar o controle do tronco e dos membros superiores e inferiores de forma integrada.

Terapia de Contensão Induzida (TCI)

A TCI é uma terapia intensiva e desafiadora, focada principalmente na recuperação do braço após um AVC. O conceito é simples e radical: nós restringimos o uso do seu braço “bom” (geralmente com uma luva ou tipoia) e forçamos você a usar apenas o braço afetado por várias horas do dia, durante um período de duas ou três semanas.

Pode parecer frustrante no início, mas a lógica é combater o “não uso aprendido”. Muitas vezes você deixa de usar o braço afetado não porque ele não funciona, mas porque é mais fácil usar o outro. A TCI obriga o cérebro a reconectar-se com aquele membro esquecido. O treinamento é intensivo, com horas de prática repetitiva de tarefas como empilhar blocos, virar cartas ou pegar objetos pequenos.

Os resultados da TCI costumam ser rápidos e duradouros. Ao forçar a saída da zona de conforto, promovemos uma reorganização cortical massiva. É como se disséssemos ao cérebro: “não tem outra opção, você vai ter que fazer esse braço funcionar”. Claro que essa técnica exige critérios específicos para ser aplicada, você precisa ter um mínimo de movimento residual nos dedos e no punho para começar.