RPG – Reeducação Postural
O Guia Definitivo da Reeducação Postural Global na Visão da Fisioterapia
Antes de começarmos a falar sobre sua coluna ou aquela dorzinha chata que não passa, quero que entenda algo fundamental. O corpo humano não é um amontoado de peças soltas como um carro. Você é uma unidade funcional completa e indivisível. O método de Reeducação Postural Global, popularmente conhecido como RPG, parte exatamente desse princípio. Quando você sente dor no ombro, o problema pode estar no seu pé. Parece loucura para quem não vive o dia a dia da clínica, mas essa é a realidade da nossa anatomia. Vamos mergulhar fundo nesse universo para que você entenda exatamente o que acontece com seu corpo e como podemos consertá-lo.
O que é a Reeducação Postural Global
A Reeducação Postural Global é um método de fisioterapia que trata as desarmonias do corpo humano levando em conta as necessidades individuais de cada paciente. Criado na França em 1980 pelo fisioterapeuta Philippe Souchard, o método revolucionou a forma como enxergamos o tratamento de dores e deformidades esqueléticas. Diferente das terapias tradicionais que focam apenas no sintoma local, o RPG olha para o indivíduo como um todo. Entendemos que cada pessoa reage de forma diferente a um problema e adota padrões de defesa corporais únicos.
O grande diferencial aqui é a busca pela causa raiz do problema. Se você chega ao consultório com uma dor lombar, a fisioterapia convencional muitas vezes foca apenas em analgesia e fortalecimento daquela região específica. Na visão do RPG, investigamos o porquê daquela lombar estar doendo. Pode ser uma retração dos músculos posteriores da coxa, uma alteração na pisada ou até mesmo um bloqueio no diafragma. O método foge da padronização. Não existe receita de bolo aqui. O tratamento é totalmente artesanal e construído sessão a sessão, dependendo da resposta do seu tecido musculoesquelético.
A base do método é tratar o indivíduo e não a doença. Doenças iguais em pessoas diferentes exigem tratamentos diferentes. Isso acontece porque seu corpo tem uma história. Cada queda que você levou, cada posição viciosa no trabalho e cada tensão emocional acumulada moldaram sua postura atual. O RPG trabalha para desfazer essas compensações antigas e devolver ao corpo sua funcionalidade original. É um processo de reeducação mesmo, ensinando seu cérebro e seus músculos a trabalharem de forma mais eficiente e sem dor.
A origem com Philippe Souchard
Philippe Souchard desenvolveu o método após anos de observação clínica e insatisfação com os resultados temporários dos tratamentos da época. Ele percebeu que os músculos estáticos, responsáveis por nos manter em pé, tendem a ficar rígidos e encurtados com o tempo e o uso excessivo. A partir daí, ele criou posturas de tratamento que visam o alongamento global dessas cadeias musculares. Souchard escreveu dezenas de livros e formou milhares de fisioterapeutas ao redor do mundo, criando uma escola de pensamento que respeita a fisiologia muscular profunda.
O conceito trazido por Souchard mudou a lógica do fortalecimento muscular clássico para a musculatura postural. Enquanto na academia buscamos hipertrofia e força concêntrica dos músculos dinâmicos, no RPG buscamos devolver a elasticidade e o comprimento ideal aos músculos estáticos. Músculos de sustentação são fibrosos e fortes por natureza. Eles não precisam ser mais fortalecidos no sentido tradicional. Eles precisam ser alongados e flexibilizados para pararem de comprimir as articulações. Essa mudança de paradigma é o que torna o método tão eficaz para patologias da coluna.
Hoje o método continua evoluindo, mas os princípios de Souchard permanecem inabaláveis. A ideia de que o corpo se organiza em cadeias e que qualquer alteração em um ponto da cadeia afeta o todo é a pedra fundamental do nosso trabalho. Quando aplicamos as técnicas originais de Souchard, vemos resultados impressionantes na correção de curvas escolióticas e na descompressão de hérnias discais. É um legado que permite aos fisioterapeutas terem uma ferramenta poderosa de raciocínio clínico e não apenas um conjunto de exercícios repetitivos.
A filosofia da individualidade
Você nunca encontrará dois atendimentos de RPG idênticos. A individualidade é o cerne do tratamento. Mesmo que dois pacientes tenham o mesmo diagnóstico médico, como uma hérnia de disco em L5-S1, o caminho para a cura será distinto. Um pode ter a hérnia causada por excesso de flexão de tronco no trabalho, enquanto o outro pode ter desenvolvido a lesão por uma retração severa da cadeia posterior associada a um pé cavo. O fisioterapeuta precisa ser um detetive do corpo humano para traçar a estratégia correta.
Essa filosofia exige que o terapeuta olhe para o paciente, e não apenas para o exame de imagem. A ressonância magnética mostra a foto do estrago, mas não mostra o filme de como ele aconteceu. Durante a avaliação e as sessões, observamos como você respira, como pisa, como seu olhar se posiciona e como seus ombros reagem ao movimento dos braços. Cada detalhe conta. Respeitar a individualidade significa ajustar a postura de tratamento milimetricamente para que ela seja desafiadora, mas suportável para o seu limite atual.
Além disso, a individualidade considera o aspecto comportamental. Pessoas mais ansiosas tendem a ter um padrão de fechamento anterior, enrolando os ombros para frente em uma postura de proteção. Pessoas com perfil mais rígido podem apresentar retificações na coluna. O RPG leva em conta quem você é. O tratamento busca devolver a liberdade de movimento que sua personalidade e seu histórico de vida acabaram restringindo. Não queremos transformar todos em soldados com postura rígida, mas sim em pessoas funcionais e livres de dor.
Diferença entre fisioterapia clássica e RPG
Muitos pacientes chegam ao consultório confusos sobre a diferença entre fazer fisioterapia convencional pelo convênio e investir no RPG. A fisioterapia clássica, muitas vezes, é segmentada. Ela usa recursos de eletroterapia, calor, gelo e exercícios localizados para tratar a inflamação e a dor aguda. É excelente para fases iniciais de lesão ou pós-operatórios imediatos. No entanto, ela muitas vezes falha em corrigir a causa mecânica crônica que gerou a inflamação em primeiro lugar.
O RPG é uma terapia manual e ativa que exige a presença constante do fisioterapeuta ao lado do paciente durante toda a sessão. Não deixamos você sozinho fazendo exercícios enquanto atendemos outra pessoa. O foco é a qualidade do movimento e o ajuste constante das tensões musculares. Enquanto a fisio clássica pode focar em fortalecer o quadríceps para proteger o joelho, o RPG vai avaliar se a dor no joelho não vem de uma rotação do quadril causada por uma escoliose. A abordagem é macroscópica e integrativa.
Outra diferença crucial é o tempo e a duração dos resultados. A fisioterapia analítica pode trazer alívio rápido, mas a dor tende a voltar se o padrão postural não mudar. O RPG visa a mudança estrutural. Ao alongar as cadeias musculares e reposicionar as articulações, buscamos um resultado duradouro. É um trabalho de construção. Pode demorar um pouco mais para perceber as mudanças visuais na postura, mas a sensação de alívio e a liberdade de movimento conquistadas tendem a permanecer se houver manutenção adequada.
Como o RPG Funciona na Prática
Entender a teoria é ótimo, mas você deve estar se perguntando o que acontece na prática quando deita na maca ou fica em pé para o tratamento. O funcionamento do RPG baseia-se em colocar o corpo em tensão global. Diferente de um alongamento simples que você faz na academia, onde puxa a perna por 30 segundos, no RPG mantemos posturas por 15 a 20 minutos. Isso é necessário para vencer a resistência do tecido conjuntivo e reorganizar as fibras musculares.
O trabalho é ativo. Você não vai deitar para relaxar ou receber massagem. O fisioterapeuta vai guiar seu corpo, mas é você quem faz a força de sustentação e correção. Chamamos isso de trabalho excêntrico da musculatura estática. Durante a postura, solicitamos que você mantenha alinhamentos específicos enquanto respira de uma maneira determinada. É um exercício cansativo, que exige concentração total. É comum os pacientes suarem durante a sessão, mesmo estando parados, devido ao esforço interno e à ativação muscular profunda.
O funcionamento também depende da progressão. Começamos com posturas mais simples, geralmente deitados, onde anulamos a ação da gravidade para facilitar o alinhamento da coluna. Conforme você ganha consciência corporal e flexibilidade, evoluímos para posturas sentadas e em pé, que são mais funcionais e desafiadoras. O objetivo final é que seu corpo aprenda a manter o alinhamento correto no dia a dia, contra a gravidade, sem que você precise ficar pensando nisso o tempo todo.
O conceito de Cadeias Musculares
Imagine que seu corpo é coberto por vários elásticos gigantes que conectam a cabeça aos pés. Esses elásticos são as cadeias musculares. Não temos músculos isolados funcionando sozinhos. Quando você move o braço, existe uma coordenação de vários grupos musculares que se estendem até a coluna e as pernas para manter seu equilíbrio. No RPG, identificamos qual dessas cadeias está retraída ou “curta”.
A cadeia mestra posterior é a mais famosa e problemática. Ela engloba os músculos da nuca, as costas inteiras, glúteos, posteriores de coxa e panturrilhas. Como essa cadeia trabalha o tempo todo para nos manter em pé contra a gravidade, ela tende a encurtar e ficar rígida. É por isso que é tão difícil para muitas pessoas tocar os pés com as mãos sem dobrar os joelhos. O encurtamento dessa cadeia pode achatar os discos da coluna e gerar hérnias. O RPG trata a cadeia inteira de uma vez. Se alongarmos apenas a perna, a tensão corre para a lombar. Precisamos esticar o elástico todo uniformemente.
Existem também as cadeias anteriores, responsáveis por nos enrolar para frente, comuns em quem trabalha muito tempo sentado ou ao computador. A retração dessa cadeia fecha o peito, projeta a cabeça para frente e roda os ombros internamente. O tratamento envolve abrir essa cadeia, expandindo o tórax e realinhando a cabeça. O conceito de cadeias explica por que uma dor no pescoço pode melhorar quando tratamos a posição da bacia. Tudo está interligado mecanicamente e o tratamento precisa respeitar essa conexão contínua.
A importância da respiração durante a postura
A respiração é a chave mestra do RPG. Não existe correção postural eficiente sem o desbloqueio respiratório. O principal músculo da respiração é o diafragma, um grande músculo em forma de cúpula que separa o tórax do abdômen. Ele tem inserções nas vértebras lombares. Quando o diafragma está tenso ou bloqueado por estresse e má postura, ele puxa as vértebras lombares para frente, aumentando a lordose e causando dor.
Durante as sessões, ensinamos você a expirar prolongadamente, soltando todo o ar e descendo o tórax. Isso alonga o diafragma e permite que a coluna lombar se acomode melhor no chão ou contra a parede. A inspiração deve ser tranquila e não deve elevar os ombros. Muitos pacientes respiram usando a musculatura acessória do pescoço, o que gera tensão constante nos trapézios e dores de cabeça. Reeducar a respiração alivia essas tensões cervicais quase imediatamente.
A respiração correta também ajuda na mobilização do sistema visceral e na calma mental. O ritmo respiratório lento e profundo durante as posturas ajuda a modular o sistema nervoso autônomo, reduzindo a ansiedade e a percepção de dor. É um momento de conexão interna. Você aprende a usar a saída do ar para ganhar milímetros de alongamento. A cada expiração, buscamos um pouco mais de correção, aproveitando o relaxamento momentâneo que a saída do ar proporciona para reposicionar as estruturas ósseas.
Posturas estáticas e dinâmicas
O arsenal do RPG é composto por diversas posturas, que dividimos basicamente em famílias de abertura de ângulo coxofemoral (abertura do quadril) e fechamento de ângulo coxofemoral. A escolha depende de qual cadeia muscular predomina no seu padrão de desequilíbrio. Se você tem uma postura muito arqueada e rígida, usamos posturas de fechamento para alongar as costas. Se você é curvado para frente, usamos posturas de abertura para esticar a frente do corpo.
As posturas estáticas não significam que você fica imóvel como uma estátua. Existe uma micro-dinâmica constante. O fisioterapeuta pede correções sutis o tempo todo: “abaixe o queixo”, “gire o joelho para fora”, “apoie bem o calcanhar”. São ajustes finos que mantêm a musculatura ativa e em constante processo de alongamento. O termo estático refere-se à manutenção da posição global, mas internamente seu corpo está trabalhando intensamente para sustentar aquela arquitetura.
Já as posturas com carga ou em situações mais dinâmicas são introduzidas em fases avançadas ou para necessidades específicas, como em atletas. O objetivo é integrar o ganho de flexibilidade com o movimento. Não adianta ter uma postura perfeita deitado na maca e perder tudo ao andar. Trabalhamos a transição para que o seu cérebro grave a nova informação postural em situações de movimento real, garantindo que você mantenha a elegância e a segurança biomecânica ao caminhar, correr ou levantar pesos.
Para Quem o RPG é Indicado
A versatilidade do RPG é imensa. Muitas pessoas acham que é um tratamento apenas para adolescentes com escoliose ou idosos com dores crônicas, mas o público é vasto. Desde crianças em fase de crescimento até atletas de alta performance se beneficiam. A indicação primária é para qualquer pessoa que sofra de dores de origem mecânica ou que apresente desvios posturais visíveis. Se a estrutura do seu corpo está causando problemas na função dele, o RPG é para você.
Não esperamos a dor chegar para indicar o tratamento. O caráter preventivo é fortíssimo. Hoje em dia, com o uso excessivo de celulares e computadores, estamos vendo alterações posturais graves em pessoas muito jovens. O “pescoço de texto” e a hipercifose torácica são epidemias modernas. Iniciar o RPG preventivamente ajuda a evitar que esses vícios posturais se tornem deformidades estruturadas, que são muito mais difíceis de reverter no futuro. É um investimento na sua saúde a longo prazo.
Além das questões ortopédicas, o RPG é indicado para problemas respiratórios, como asma e bronquite, pois trabalha a liberação da caixa torácica e a função do diafragma. Também auxilia em cefaleias tensionais, vertigens de origem cervical e problemas na articulação temporomandibular (ATM). A conexão da mandíbula com a cervical é direta, e muitas vezes o bruxismo e as dores de cabeça têm origem na má postura do pescoço. O tratamento é global e as indicações acompanham essa abrangência.
Tratamento de dores na coluna e hérnias
A dor nas costas é a campeã de queixas nos consultórios e a principal causa de afastamento do trabalho. O RPG brilha nesse cenário. Hérnias de disco, protusões e espondilolisteses são patologias onde a compressão é o inimigo. A gravidade e a tensão muscular esmagam os discos intervertebrais, fazendo com que o núcleo do disco extravase e toque nos nervos. Isso gera a dor ciática ou a braquialgia. O método atua criando espaço.
Ao alongar as cadeias musculares longitudinais, fazemos uma tração natural na coluna. É o que chamamos de descompressão ou “decoaptação” articular. Imagine que estamos afastando suavemente uma vértebra da outra, permitindo que o disco respire e se reidrate. Esse processo alivia a pressão sobre a raiz nervosa e reduz a dor e o formigamento. Diferente da cirurgia, que remove o problema anatomicamente (muitas vezes fundindo as vértebras), o RPG tenta restaurar a função mecânica para que a hérnia deixe de ser sintomática.
Para quem tem dores crônicas, aquelas que duram meses ou anos, o RPG também atua na quebra do ciclo da dor. A dor gera tensão muscular de proteção, que por sua vez gera mais compressão e mais dor. Ao relaxar e alongar essa musculatura profunda de forma controlada, quebramos esse ciclo vicioso. O paciente aprende a controlar sua coluna e a identificar quais posturas no dia a dia agravam sua condição, ganhando autonomia no manejo da sua saúde lombar e cervical.
Correção de escolioses e hipercifoses
Escoliose é o desvio lateral da coluna em forma de “S” ou “C”, muitas vezes acompanhado de rotação das vértebras. A hipercifose é a famosa “corcunda”. Ambas são deformidades que respondem muito bem ao RPG, especialmente durante a fase de crescimento. Em adolescentes, o objetivo é frear a evolução da curva e tentar regredir os graus existentes. O trabalho é minucioso e exige disciplina, mas pode evitar a necessidade de coletes ou cirurgias em muitos casos.
No tratamento da escoliose, o fisioterapeuta usa posturas de desenrolamento e correções manuais para “desrodar” a coluna. Trabalhamos a assimetria muscular. O lado côncavo da curva está encurtado e forte, enquanto o lado convexo está alongado e fraco. O RPG busca o equilíbrio dessas tensões. É um trabalho de escultura do corpo. Em adultos, onde a estrutura óssea já está consolidada, o foco muda para a analgesia e a estabilização, evitando que a curva piore com o envelhecimento e cause desgastes precoces.
A estética também é um fator importante aqui. A melhora na silhueta, o alinhamento dos ombros e a redução da gibosidade (aquela saliência nas costas) trazem um impacto positivo enorme na autoestima do paciente. Caminhar mais ereto transmite confiança. O RPG devolve a simetria possível ao corpo. Não prometemos corpos perfeitos, pois a perfeição não existe na biologia, mas buscamos a melhor harmonia possível dentro da estrutura de cada um.
Lesões articulares e LER/DORT
As Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) são pragas da vida moderna. Tendinites, bursites e síndromes do túnel do carpo muitas vezes são vistas como problemas isolados do braço ou do ombro. Na visão do RPG, o ombro só está sofrendo porque a escápula está mal posicionada, e a escápula está mal posicionada porque a coluna dorsal está rígida. Tratamos a cadeia do membro superior conectada ao tronco.
Ao reposicionar o ombro e liberar as tensões do pescoço e do peitoral, melhoramos a mecânica do braço. O tendão deixa de sofrer atrito constante e a inflamação cede naturalmente. O tratamento evita a recidiva. Se você apenas toma anti-inflamatório e não corrige a postura do ombro no trabalho, a dor vai voltar assim que o remédio acabar. O RPG ajusta a “peça” no lugar para que ela não desgaste mais.
O mesmo vale para problemas nos joelhos e pés, como fascite plantar e condromalácia patelar. Um pé plano ou cavo altera a rotação do joelho e do quadril. O RPG trata a cadeia descendente. Reposicionando a pelve e trabalhando a musculatura da perna, aliviamos a sobrecarga no joelho e na planta do pé. É a biomecânica aplicada na sua forma mais pura: alinhar os eixos de carga para distribuir o peso do corpo de forma equilibrada, poupando as articulações de desgaste prematuro.
O Processo da Sessão de RPG
Entrar em uma clínica de fisioterapia para uma sessão de RPG é uma experiência diferente de uma consulta médica rápida. O ambiente geralmente é calmo, silencioso e climatizado para permitir o relaxamento e a concentração. A sessão é individual. Você terá a atenção exclusiva do seu fisioterapeuta por cerca de 50 minutos a uma hora. Esse tempo é precioso e necessário para que o tecido corporal responda aos estímulos de alongamento progressivo.
Você deve usar roupas confortáveis, de preferência roupas de banho (biquíni ou sunga) ou roupas de ginástica justas que permitam ao terapeuta visualizar sua coluna e seus contornos musculares. Não dá para corrigir postura escondido embaixo de um moletom largo. Precisamos ver se uma vértebra está rodada ou se um ombro está mais alto que o outro. A pele é o nosso mapa. O contato manual é constante e respeitoso, guiando cada movimento.
A frequência das sessões geralmente é de uma vez por semana. Pode parecer pouco, mas o estímulo dado ao corpo é muito forte e o organismo precisa de tempo para assimilar a nova informação postural. Em casos de dor aguda intensa, podemos fazer duas vezes na semana por um curto período. O tratamento não é eterno. Ele tem início, meio e fim, ou entra em uma fase de manutenção quinzenal ou mensal, dependendo da evolução e dos objetivos de cada paciente.
A avaliação global inicial
Tudo começa com uma avaliação detalhada. Não olhamos apenas o local da dor. Vamos pedir para você ficar em pé, parado, e vamos observar tudo: a posição dos seus pés, a rotação dos joelhos, a altura da bacia, as curvas da coluna e a posição da cabeça. Depois, pedimos movimentos: dobrar o corpo para frente, inclinar para os lados, rodar. Esses testes mostram onde está a rigidez.
O fisioterapeuta também faz uma anamnese completa. Perguntamos sobre seu trabalho, seus hobbies, como você dorme, qual travesseiro usa, se teve traumas no passado, cirurgias ou cicatrizes. Cicatrizes antigas, como de uma cesárea ou apendicite, podem gerar aderências que puxam o corpo para frente, alterando a postura anos depois. Nada é irrelevante. Essa investigação minuciosa é o que permite montar o “quebra-cabeça” do seu corpo.
Fotos costumam ser tiradas nessa etapa para documentar o “antes”. É muito gratificante comparar as fotos depois de 10 ou 20 sessões e ver a mudança real na postura. A avaliação também serve para alinharmos expectativas. Explicamos o que é possível corrigir e o que é estrutural do seu corpo. A honestidade aqui é fundamental para criar um vínculo de confiança entre terapeuta e paciente.
O trabalho manual do fisioterapeuta
As mãos do fisioterapeuta são as ferramentas principais. Durante a postura, o terapeuta usa as mãos para fazer “pompagens”, trações manuais e correções proprioceptivas. Se o seu ombro insiste em subir em direção à orelha, a mão do terapeuta estará lá para lembrar seu corpo de abaixá-lo. Se a sua lombar quer sair do chão, a mão do terapeuta auxilia no encaixe do quadril.
Esses toques não são massagens de relaxamento. São toques firmes e direcionais. A terapia manual ajuda a soltar as fáscias, que são os tecidos que envolvem os músculos. Fáscias rígidas aprisionam os músculos. O trabalho manual libera essas amarras, permitindo que o alongamento aconteça de forma mais eficaz. É uma parceria: você faz a força para manter a postura e o terapeuta facilita o caminho com as mãos.
A sensibilidade do profissional é crucial. Ele precisa sentir quando o músculo está cedendo e quando ele está entrando em espasmo de defesa. Se forçarmos demais, o corpo trava para se proteger. Se fizermos de menos, não há evolução. O toque do terapeuta calibra essa intensidade ideal, no limiar entre o desconforto do alongamento e a segurança da integridade tecidual. É um diálogo silencioso entre as mãos do profissional e os tecidos do paciente.
A participação ativa do paciente
Aqui está o segredo do sucesso: você não é passivo no processo. O RPG exige consciência corporal. Você precisa estar presente, sentindo seu corpo. O terapeuta vai pedir: “cresça o topo da cabeça”, “afunde o umbigo”, “apoie a borda externa do pé”. Você precisa traduzir esses comandos verbais em ação muscular. No começo é difícil. Parece que o corpo não obedece. Mas com o tempo, a conexão cérebro-músculo melhora incrivelmente.
Essa participação ativa garante que os resultados sejam mantidos. Você está reprogramando o software do seu cérebro que controla a postura. Se fosse passivo, assim que você levantasse da maca, o corpo voltaria ao padrão antigo. Como você fez o esforço de correção, seu sistema nervoso grava essa nova posição como a correta. Você leva o aprendizado para casa.
Durante a sessão, é normal sentir tremores, calor ou cansaço muscular. Isso é sinal de que estamos trabalhando músculos que estavam “dormindo” ou fracos. Encare isso como um treino. Você sai da sessão muitas vezes sentindo-se mais alto, mais leve e com os pés mais firmes no chão. Essa sensação de “corpo no lugar” é o melhor feedback de que sua participação foi efetiva e o trabalho foi bem feito.
Mitos e Verdades sobre a Postura
O universo da coluna vertebral é cercado de crenças populares que nem sempre são verdadeiras. Ouvimos desde criança “senta direito, menino!” ou “coluna reta é coluna saudável”. Mas a ciência moderna e a biomecânica mostram que a realidade é mais complexa. Desmistificar esses conceitos é parte do tratamento, pois reduz o medo do movimento e a catastrofização da dor.
Muitos pacientes chegam com medo de se mexer porque ouviram que têm “coluna de idoso” aos 30 anos. O RPG vem para mostrar que o corpo é resiliente e adaptável. Diagnósticos de imagem assustadores nem sempre correspondem à dor que a pessoa sente. Tem gente com a coluna cheia de problemas no raio-X que não sente dor nenhuma, e gente com exames normais travada de dor. O que muda é a função e o equilíbrio muscular, e é aí que atuamos.
Vamos esclarecer alguns pontos cruciais para que você pare de brigar com seu corpo e comece a entendê-lo. A postura não é algo estático e rígido que devemos manter como robôs. Ela é dinâmica, fluida e deve ser eficiente, gastando o mínimo de energia possível para nos manter em pé e em movimento.
Existe postura perfeita?
A resposta curta é: não. A postura perfeita de livro de anatomia é um ideal teórico, não uma realidade para a maioria. O que buscamos é a “boa postura”, que é aquela onde as articulações sofrem a menor sobrecarga possível e os músculos trabalham em harmonia. Ter um ombro ligeiramente mais baixo que o outro pode ser normal para você e não causar dor nenhuma. Não perseguimos a simetria absoluta, pois somos seres assimétricos por natureza (temos fígado de um lado, baço do outro, coração à esquerda).
O conceito moderno é de variabilidade postural. A melhor postura é a próxima. Ficar muito tempo na mesma posição, mesmo que seja a “correta”, vai gerar dor. O corpo precisa de movimento. O RPG prepara seu corpo para que ele consiga assumir uma boa postura de base, mas você deve ter liberdade para se mover. O problema não é sentar torto uma vez ou outra, é sentar torto sempre e não conseguir ficar reto quando precisa.
Portanto, tire o peso das costas de ter que ser perfeito o tempo todo. O objetivo é funcionalidade. Se você consegue trabalhar, brincar com seus filhos e praticar esportes sem dor e com boa amplitude de movimento, sua postura é funcional para sua vida. O RPG trabalha para ampliar essa capacidade funcional e remover as restrições que causam danos, não para transformá-lo em uma estátua grega imutável.
RPG é só alongamento?
Definitivamente não. Dizer que RPG é só alongamento é como dizer que a Fórmula 1 é só dirigir rápido. O alongamento é uma ferramenta, mas o método envolve fortalecimento isométrico, consciência corporal, reeducação respiratória e controle neuromotor. Quando você sustenta uma postura de RPG, você está fortalecendo profundamente os músculos estabilizadores da coluna (como o multífido e o transverso do abdômen).
O alongamento no RPG é global e progressivo, chamado de fluagem. Não é aquele estica e puxa elástico. É uma tensão mantida que remodela o tecido. Além disso, existe o trabalho de propriocepção. Você reaprende onde seu corpo está no espaço. Isso é neurológico, não apenas muscular. É um treino para o sistema nervoso central.
Muitas vezes, para corrigir uma postura, precisamos ativar músculos que estão inibidos. Então, há muito fortalecimento envolvido. Um paciente com hipercifose precisa fortalecer os músculos entre as escápulas ao mesmo tempo que alonga o peitoral. É um jogo duplo de soltar o que está preso e firmar o que está solto. O resultado é um corpo mais forte, mas de uma maneira equilibrada e flexível.
A relação entre emoções e postura
O corpo fala, e grita, o que a boca cala. Existe uma ligação íntima entre nosso estado emocional e nossa postura corporal. Quando estamos tristes ou deprimidos, a tendência é nos fecharmos, enrolando os ombros e baixando a cabeça. Quando estamos eufóricos ou agressivos, tendemos a inflar o peito e aumentar a lordose. Essas atitudes posturais, se mantidas por anos devido a traços de personalidade ou traumas emocionais, moldam a estrutura física.
O RPG, ao trabalhar a liberação dessas tensões musculares crônicas (a couraça muscular), muitas vezes libera emoções guardadas. Não é raro um paciente chorar ou ter crises de riso durante uma sessão ao liberar o diafragma ou a região da garganta. Chamamos isso de liberação somatoemocional. O fisioterapeuta está ali para dar suporte, não para ser psicólogo, mas acolhemos essa reação como parte da cura.
Ao melhorar a postura, muitas vezes melhoramos também o estado emocional. Uma postura mais aberta e ereta envia sinais de confiança para o cérebro. Pacientes relatam sentir-se mais dispostos e seguros após o tratamento. Tratamos o corpo, mas tocamos a pessoa por inteiro. Reconhecer que sua dor pode ter um componente de estresse ou ansiedade ajuda muito no sucesso do tratamento, integrando mente e corpo na busca pelo equilíbrio.
Terapias Complementares e Manutenção
Chegamos ao ponto final da sua jornada de reabilitação. Você fez as sessões, a dor sumiu, a postura melhorou. E agora? Paramos tudo e voltamos para o sofá? De jeito nenhum. A manutenção é vital. O RPG prepara o terreno, alinha a máquina, mas você precisa mantê-la rodando bem. Muitas vezes indicamos terapias complementares que conversam bem com os princípios do RPG para que você ganhe força e dinamismo.
O ideal é que o paciente receba alta do tratamento intensivo de RPG e migre para uma atividade física regular e orientada. O sedentarismo é o maior inimigo da sua coluna. O corpo foi feito para o movimento. No entanto, a escolha da atividade deve ser inteligente, respeitando as correções que foram conquistadas na fisioterapia. Não adianta alinhar a coluna e ir fazer exercícios com carga errada que comprimam tudo de novo.
Aqui entram as terapias e modalidades que geralmente indicamos como sequência natural ou acompanhamento do trabalho de Reeducação Postural Global. Elas ajudam a fixar os ganhos e promovem um estilo de vida ativo e saudável, blindando seu corpo contra novas lesões.
Pilates e RPG
O casamento entre Pilates e RPG é quase perfeito. Enquanto o RPG é mais focado na terapia manual, no ajuste fino e na correção estática e analítica das cadeias, o Pilates entra com o movimento fluido, o fortalecimento do “Power House” (centro de força abdominal) e a mobilidade dinâmica. Muitos fisioterapeutas trabalham com as duas técnicas.
Após ganhar flexibilidade e alinhamento no RPG, o Pilates é excelente para dar força e estabilidade a essa nova postura. Os aparelhos de Pilates com molas permitem um fortalecimento sem impacto, muito seguro para quem teve hérnia de disco. O controle respiratório aprendido no RPG é muito útil nas aulas de Pilates. É uma transição suave da reabilitação para o condicionamento físico.
Geralmente indicamos o Pilates Clínico, ministrado por fisioterapeutas, pois eles saberão adaptar os exercícios para sua patologia específica. Evita-se exercícios que gerem compressão excessiva e foca-se naqueles que promovem a estabilização segmentar da coluna. É a dupla dinâmica da saúde da coluna: RPG para alinhar, Pilates para estabilizar e fortalecer.
Treinamento Funcional pós-reabilitação
Para quem gosta de algo mais intenso ou precisa voltar ao esporte, o Treinamento Funcional é o próximo passo. Mas atenção: deve ser um funcional bem orientado, focado em qualidade de movimento e não apenas em suar a camisa. O objetivo aqui é ensinar o corpo a usar a postura correta em situações de esforço real, como agachar, puxar, empurrar e girar.
O RPG deu a você a amplitude de movimento. O Funcional vai dar a potência e a resistência. Trabalhamos padrões de movimento essenciais. Se você aprendeu a agachar sem curvar a lombar no RPG, no Funcional você vai fazer isso segurando um peso (kettlebell), preparando-se para pegar seu filho no colo ou carregar compras do mercado sem travar as costas.
Essa integração é fundamental para a alta definitiva. O paciente precisa se sentir seguro para viver a vida. O funcional preenche a lacuna entre a clínica e o mundo real. Ele cria uma “armadura” muscular funcional que protege suas articulações no dia a dia imprevisível.
Osteopatia como aliada
A Osteopatia é outra terapia manual que se dá muito bem com o RPG. Enquanto o RPG foca muito nas cadeias musculares, a Osteopatia tem um foco muito forte na mobilidade articular e nas vísceras. Às vezes, uma vértebra está tão bloqueada que o alongamento do RPG não consegue soltá-la sozinho. O osteopata realiza uma manipulação (o famoso “estalo” ou thrust) que devolve a mobilidade àquela articulação.
Uma vez desbloqueada a articulação pela Osteopatia, o trabalho muscular do RPG se torna muito mais eficaz. As duas técnicas se complementam. A Osteopatia solta os bloqueios agudos e viscerais, e o RPG mantém esse ganho através do reequilíbrio muscular global.
Muitas vezes intercalamos sessões. O paciente faz RPG semanalmente e passa com o osteopata uma vez por mês para checar a mobilidade das articulações e do sistema visceral. Essa abordagem multidisciplinar acelera a recuperação e garante que estamos tratando o corpo em todos os seus níveis: muscular, articular, visceral e neural. É o pacote completo para quem busca saúde integral e longevidade física.